Blog da Parábola Editorial

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ILUSOFONIA

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Marcos Bagno

 

Resisti um pouco a falar do tal dia mundial da língua portuguesa, até porque esse tipo de ufanismo em torno da língua me dá sonolência (antes me dava irritação, mas com a idade a gente se poupa de sofrer mais que o necessário). Sugiro enfaticamente a leitura do texto do português Nuno Pacheco (https://www.publico.pt/2020/05/07/culturaipsilon/opiniao/lingua-portuguesa-so-sabem-sonho-inquietacao-inquietacao-1915353?fbclid=IwAR1prNiIudoYLzSuveQx7Y7cR7STgpCETgudX3vAi_nfcKRIy6eqoi1delc), que joga o devido balde de água fria nesse oba-oba balofo. O português, de todas as línguas europeias que serviram de veículo para a colonização, a espoliação, o genocídio e a escravização de outros povos durante séculos, é a que tem menos instrumentos linguísticos a seu dispor para uma divulgação efetiva e para o ensino como língua segunda. Inglês, francês e espanhol dispõem de uma riquíssima produção de dicionários (de todos os tamanhos, tipos, formatos e cores; para os mais diferentes públicos-alvo), de livros didáticos para o ensino da língua, muitos produzidos por órgãos governamentais dedicados a isso. O que existe em português, especialmente o português brasileiro, é muito pouco e muito ruim. Das ex-colônias portuguesas, só o Brasil não encabeça a lista dos países mais pobres do mundo, a maioria deles dependentes da ajuda internacional para sobreviver. Nesses países, como bem se sabe (e o ufanismo tenta esconder), o português é língua oficial, sim, mas minoritária e reservada às reduzidíssimas elites nacionais que têm acesso à educação formal. Portanto, essas estatísticas glorificantes que dizem que o português é "falado" em todos os continentes por 250 milhões de pessoas têm de ser olhadas com muita desconfiança: quantas pessoas na África realmente têm plena competência no uso da língua do ex-colonizador? O Brasil sozinho tem 210 milhões desses falantes, de modo que se todas as pessoas no resto do planeta que falam português trocassem de língua, ainda assim o português seria uma das línguas mais faladas do mundo. Só na área metropolitana de São Paulo existe o dobro de falantes que em Portugal inteiro. Mesmo tão grande e tão populoso, o Brasil, em qualquer foro internacional, é só um: em qualquer votação ou deliberação, a simples presença de pequenos países de língua espanhola como Panamá, Costa Rica, Honduras, El Salvador e Cuba já constituiria uma derrota para a reivindicação do português como língua "internacional". Por sua vez, em termos de política linguística, Portugal tem muito mais a dizer a esse respeito do que nós: basta lembrar a existência do Instituto Camões em contraposição a… nada parecido no Brasil. Portugal mantém diversas cátedras e leitorados mundo afora, enquanto os escassos leitorados brasileiros vão se tornando cada vez mais raros. Agora então que as relações exteriores do Brasil, assim como o ministério da educação (ou contra a educação) estão nas mãos de psicopatas de manual, o quadro só tende a piorar. Quanto ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), como bem lembra Nuno Ramos, serve para nada e não serve para coisa alguma. Por isso sempre tenho dito que a tal da lusofonia é de fato uma "ilusofonia". Muito discurso vazio, muita retórica saudosista, mas nenhum reconhecimento da realidade distópica em que vive a imensa maioria das populações de países que têm o português como língua oficial — só mesmo Portugal apresenta índices de desenvolvimento humanos decentes, enquanto o Brasil, nunca é demais repetir, é um dos países mais covardemente injustos e desiguais do universo conhecido e desconhecido. E agora que é chefiado por uma criatura que reúne em si tudo o que pode haver de pior na espécie humana, uma aberração genética que deveria estar trancafiada numa jaula para servir de cobaia a experimentos científicos, as perspectivas de divulgação da língua são tão sombrias quanto a certeza de que nem os bisnetos dos nossos bisnetos viverão num país minimamente civilizado, em que um jovem negro não seja assassinado a cada 27 minutos ou uma mulher a cada hora e meia. O capitalismo hipersuperultraliberal vai destruindo o planeta a passos rápidos, e a atual pandemia provocada pelo novo coronavírus é a prova mais letal de que a incensada globalização só tem servido para internacionalizar as mazelas e para que um único homem, o dono da amazon.com, tenha em sua conta bancária mais dinheiro que os PIBs reunidos de vários países. No que diz respeito ao ensino do português brasileiro no exterior, o justificado horror que o cenário político (ou apocapolítico) do Brasil desperta na comunidade internacional — e mais gravemente neste exato momento, com um presidente que se vangloria de sua necropolítica e persegue quem tenta combater o genocídio que ele põe em marcha — vai fazendo murchar o já pequeno interesse pela nossa língua. O português, infelizmente, é uma língua em que milhões de pessoas, nas mais diferentes partes do mundo, travam uma luta sem trégua para estarem vivas no dia seguinte. Enquanto for essa a realidade das e dos falantes de português, não vejo nada que justifique uma celebração mundial da língua. E é fácil imaginar a dor que isso causa em alguém que vem dedicando à língua a vida que já foi e a pouca que lhe resta.

 

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Visitantes — Joyce Sanchotene
Esclaredor. Li um dos seus livros. Meus estudos sobre a sociolinguistica não foram muito profundos. Gostei muito.
Terça, 02 Junho 2020 22:24
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1. *gweih₃-: a raiz da vida frente à necropolítica

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Francisco Calvo del Olmo

 

Muito provavelmente, 2020 não passará para a história como um ano feliz. A crise sanitária originada pela SARS-CoV-2, causadora da COVID-19 (do inglês Coronavirus Disease 2019), pôs em xeque o atual modelo do capitalismo global. Para funcionar, a economia precisa da circulação das pessoas — em primeiro lugar, das e dos trabalhadores, produtores de bens e de serviços, mas também dos consumidores aos quais esses bens se destinam. Se esse mecanismo para, detém-se a produção de mais-valia, benefícios financeiros que, em última instância, vão parar nas mãos daquele 1% da população mundial composto pelos multimilionários. Segundo dados da Oxfam Intermon (disponível em: https://www.oxfam.org/es/notas-prensa/el-1-mas-rico-de-la-poblacion-mundial-acaparo-el-82-de-la-riqueza-generada-el-ano, acesso em: 24 mai. 2020), esse 1% acumulou 82% da riqueza global produzida no ano passado, enquanto a metade da humanidade mais pobre não obteve nenhum benefício desse processo de depredação. No topo desse 1%, encontramos as dez maiores fortunas do planeta, todos homens brancos estadunidenses ou europeus, que precisariam viver mais de mil anos para gastar uma mínima fração de suas fortunas. Porém, a situação da pandemia nos obriga a deter a cadeia de transmissão do vírus ficando em casa para evitar contagiar outras pessoas ou sermos nós mesmas contagiadas. Essa situação nos obriga a evitar deslocamentos para ir aos nossos lugares habituais de trabalho e, ao mesmo tempo, precisamos redobrar os cuidados: cozinhar, limpar, assistir as pessoas doentes e idosas. Tarefas muitas vezes em mãos femininas, mal remuneradas, sottopagate, desvalorizadas, quando não feitas gratuitamente no âmbito familiar.

O que está em jogo aqui é uma divisão binária entre economia e cuidados, entre a proteção da vida ou a promoção do mercado. Governos nacionais, independente da sua cor política, e instâncias supranacionais, independente de suas orientações ideológicas, têm se confrontado com esse aparente dilema. Como amostra disso — talvez anedótica, mas bastante significativa —, podemos lembrar a atuação da administração estadunidense, que monopolizou máscaras e outros materiais médicos no mercado internacional, enquanto o governo cubano mandava médicos voluntários às regiões do norte da Itália, dramaticamente afetadas pela pandemia. Política individualista e própria de um nacionalismo bélico, por um lado, política solidária entre povos latinos, por outro. Em síntese, a crise da COVID-19 nos leva a nos interrogar de novo sobre o valor da vida, pergunta fundamental e recorrente para a condição humana desde os tempos de Platão.
         Isidoro de Sevilha, que viveu entre os anos 556 e 636 da era comum, escreveu uma espécie de enciclopédia intitulada
Etymologiae (Etimologias, em português). Esse nome provinha de um procedimento de ensino que partia da origem de uma palavra para explicar o seu significado, muitas vezes de forma algo forçada ou pitoresca. Com este post, pretendo começar uma série para refletir sobre a origem das palavras para explicar assuntos da atualidade. Assim, gostaria de pedir o favor das leitoras e dos leitores quando minhas exposições resultarem algo forçadas. O objetivo é mergulhar nas palavras, na história da nossa língua, para conhecê-las melhor e, conhecendo-as melhor, usá-las de forma mais certeira, como se as disséssemos pela primeira vez.

O substantivo vida, está bem representado não só em português, mas também em todas as outras línguas da família românica ou neolatina: em galego, espanhol, catalão e occitano escreve-se exatamente igual: vida; em sardo essa grafia alterna com bida, em francês temos vie, em italiano vita e em romeno viață. Observamos, portanto, que as vozes atuais mantêm vivo o étimo latino VITA, substantivo da primeira declinação, que tinha o mesmo significado. Diferentemente dos fósseis naturais que ao menos até o momento não podem ser clonados, os fósseis linguísticos, conservados nas páginas das bibliotecas, podem ser reanimados para criar novas palavras. Dessa forma, o mesmo étimo produziu por via erudita o adjetivo vital. E a coisa não fica por aqui, pois muitos outros termos derivados dessa mesma raiz entraram na língua portuguesa por diferentes vias: viável, vitamina, vivaz, viveiro, vivíparo, vivenda, vianda, vivência, convivência. Todas essas palavras têm seus cognatos nas outras línguas da família. E por falar em famílias, a visão das línguas modernas como a “evolução” resultante de línguas precedentes, a classificação das línguas em árvores genealógicas com “mães”, “tias” e “irmãs”, as metáforas sobre o nascimento e a morte de uma língua procedem do século XIX, quando a teoria da evolução de Darwin revolucionava a área das ciências biológicas, e os linguistas tratavam de trazer aqueles mesmos princípios para a aplicação do método histórico-comparativo. De fato, foi o método histórico-comparativo que permitiu reconstruir a macrofamília das línguas indo-europeias mediante a comparação de línguas antigas bem documentadas como o grego, o latim, o sânscrito, o gótico, o antigo eslavo, o irlandês, o armênio etc. As leitoras e leitores devem ter notado que o latim é parte integrante da lista: a pergunta que surge, então, é se não seria possível mergulhar em águas mais profundas buscando a etimologia de VITA.

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A DEPRECIAÇÃO DO GÊNERO FEMININO

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Francisco Jardes Nobre de Araújo

 

Não é nenhuma novidade que termos usados sem nenhum valor depreciativo na designação de homens adquirem frequentemente sentido negativo referindo-se a mulheres. Basta pensarmos no emblemático par rapaz/rapariga no português de algumas áreas do Brasil para ilustrarmos o fato. Mas os exemplos não param por aí, nem o fenômeno é exclusivo da língua portuguesa, como já ouvi sugerirem alguns estudantes de inglês, que alegam ser esta língua “menos machista”, apoiando-se na ausência de flexão de gênero nos nomes ingleses.

Quem não é do Norte nem do Nordeste do Brasil talvez não saiba que rapariga, feminino derivacional de rapaz, converteu-se hoje em um insulto à mulher. É sinônimo de prostituta, meretriz, puta. Aliás, puta também passou pelo mesmo processo: cogita-se que o termo venha do latim vulgar putta, feminino de puttus, que significava simplesmente “rapazinho” e era cognato de puer, “menino”, tirado da raiz indo-europeia *pewH-, donde também saiu purus, “puro”. O masculino puto ainda é usado em Portugal com o sentido original (isto é, “menino”).

Outros correspondentes femininos de termos masculinos têm notadamente uma conotação negativa, geralmente associada à prostituição, como cortesã (no masculino, significa simplesmente “homem da corte” ou, até mesmo, “homem afável”), rameira (o masculino designa o homem que “arremata aos contratadores determinados ramos de um contrato”, segundo o Aurélio) e mulher da vida. Quando não é à prostituição, é à promiscuidade que se associam certos termos femininos: galinha, loba, vaca... Chamar um homem de touro é um elogio! Se cavalo e cachorro designam um homem, respectivamente, grosso e desleal, égua e cadela desqualificam completamente uma mulher. O que dizer do outro correspondente masculino de égua, que é garanhão? Vagabundo é homem desocupado, desempregado, malandro, mas vagabunda é uma mulher promíscua. Também se nota uma distinção de valor entre governante e governanta: enquanto o masculino designa o homem que governa, o feminino designa a mulher que administra a casa de outrem, uma subordinada. Enquanto patrono só contém sentidos honrosos, matrona adquiriu o sentido também de “mulher madura e corpulenta”.

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¡Resistiré! Canções contra o coronavírus

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Carlos Eduardo Deoclecio

No momento em que alguns governos europeus, como os da Alemanha, Itália, Espanha e de Portugal iniciam um processo de relaxamento da quarentena em função da pandemia do novo coronavírus, “resistir”, do latim resistĕre, e outras formas linguísticas daí derivadas ou com sentido aproximado têm sido usuais, em línguas diversas, nas manifestações discursivas de enfrentamento cotidiano. (Já abro parênteses iniciais: entre os falantes do espanhol peninsular, a palavra usada para relaxamento tem sido desescalada, que dia desses um debatedor de um programa do canal televisivo La Sexta disse não existir. Se ela é empregada, como não existe, hombre? Ah, não está dicionarizada… o que para muitos é correspondência direta da inexistência de uma forma linguística, mesmo que ela esteja em pleno uso e seja bem compreendida entre os pares da comunidade linguística.)

Voltemos a “resistir”. Uma das formas de resistência constatada tem sido a expressão musical, seja nas várias lives de artistas mundo afora, seja, ainda, na escolha de canções representativas para circular pelos diferentes espaços de isolamento social (ou não). Na França, La tendresse (“A ternura”), de 1963, foi a escolhida. Na Itália, Rinascerò, rinascerai (“Renascerei, renascerás”) tem sido propagada. A Espanha, de um modo geral, elegeu Resistiré como uma espécie de hino em meio a essa situação adversa. Ao lado dos aplausos, boa parte da população entoa ou reproduz em algum aparelho o sucesso de 1988 do Dúo Dinámico (Manuel de la Calva e Ramón Arcusa), nas sacadas, varandas e janelas de casas e prédios, às 20 horas, como homenagem e agradecimento ao duro trabalho cotidiano dos profissionais de saúde nas clínicas e nos hospitais, e também como expressão da esperança de um ansiado retorno à vida comum depois do fim da pandemia, ainda uma grande interrogação.

Inspirada no título do discurso do escritor galego Camilo José Cela ao receber o Prêmio Príncipe de Astúrias, em 1987 — “En España, el que resiste gana” (“Na Espanha, quem resiste, ganha/vence”) —, Resistiré tem música de Manuel de la Calva, membro do Dúo, e letra de Carlos Toro Montoro, que a dedicou ao pai, preso durante a ditadura franquista. Há quem diga que Resistiré seria uma versão em língua espanhola da canção I will survive, de 1978, largamente conhecida na voz da cantora norte-americana Gloria Gaynor. No entanto, faltam evidências de que tenha sido mesmo essa a origem de Resistiré, além de a música e a letra em língua inglesa não terem correspondência direta com o produto artístico que conhecemos em espanhol. Mesmo assim, a própria Gloria foi a intérprete da versão oficial de sua canção na lengua de Castilla, intitulada Sobreviviré.

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O MACHISMO NA LINGUAGEM

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Francisco Jardes Nobre de Araújo

 

Num mundo dominado por homens, a mulher é tratada como um ser diferenciado, que merece uma designação especial. Enquanto a expressão “o homem” pode equivaler a “o ser humano”, como na frase “O homem é mortal”, a expressão “a mulher” só se refere aos seres humanos do gênero feminino.  Ou seja, na mentalidade androcêntrica, o conceito de “homem” se confunde com o de “ser humano”, enquanto o de “mulher” não, e a primeira imagem de ser humano ou de qualquer outro animal que vem à cabeça é a de um espécime macho.

Desde as línguas mais antigas da grande família linguística indo-europeia, a mulher sempre recebeu uma denominação à parte, o que não aconteceria se ela fosse vista em pé de igualdade com os homens.

O substantivo latino homo designava tanto o ser humano em geral, quanto o ser humano do sexo masculino, que também podia ser designado por vir (daí viril), enquanto o ser humano do sexo feminino era femina.  Homo, em sua forma acusativa hominem, passou às línguas românicas homme (francês), home (galego, catalão), hombre (espanhol), uomo (italiano), om (romeno) etc. conservando a duplicidade semântica. Se a designação do ser humano do sexo masculino se faz por um termo pan-românico nas diferentes línguas românicas (embora a palavra romena om seja rara hoje com esse sentido), a do ser humano do sexo feminino se dá por substantivos de diversos étimos latinos: é femme em francês, donna em italiano, mujer em espanhol, mulher em português, femeie em romeno, dona em catalão etc.  O mesmo se dá nas línguas germânicas. O termo germânico para “homem” (mann) existe em todas as línguas da família (é Mann em alemão e em norueguês, mand em dinamarquês, man em inglês, sueco e holandês), mas essas línguas têm termos de origens diferentes para “mulher”: woman em inglês, Frau em alemão, kvinna em sueco etc.

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Visitantes — Marlon Oliveira
Olá! Muito ótimo o seu post. Super interesanate. Sou estudante de letras (8°), amante da linguística e AD. Eu sempre disse aos m... Leia Mais
Quarta, 13 Maio 2020 14:57
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ERRO DE PORTUGUÊS – DE ONDE VEM ESSA IDEIA?

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Marcos Bagno

Para se poder falar de “erro” é preciso ter um contraponto, algo para colocar no outro prato da balança, ou seja, aquilo que é “certo”. Só existe “erro” quando se tem o “certo” à espreita por trás do espelho. No nosso caso, o “certo” é o modelo de língua que vem descrito e prescrito nas obras chamadas gramáticas normativas, um modelo de língua que designamos como norma-padrão (que não deve ser confundida com “norma culta”, mas vamos falar disso outro dia).

A norma-padrão que ainda é objeto de descrição e prescrição das gramáticas normativas do português começou a ser codificada em meados do século 19 e se firmou nos finais do mesmo século. O início e a metade do século 19 foram dominados pela ideologia que passou à história com o nome de Romantismo, um movimento literário, musical, mas também filosófico e político. É por isso que, por exemplo, na conhecida gramática assinada pelo brasileiro Celso Cunha e pelo português Luís Felipe Lindley Cintra (Gramática do português contemporâneo, 1985), eles escrevem que vão trabalhar com “a língua como a têm utilizado os escritores portugueses, brasileiros e africanos do Romantismo para cá” — ou seja, língua apenas escrita (nada de estudar a fala), e escrita só por um grupo seleto de falantes.

Desse modo, a norma-padrão é uma entidade linguística congelada no tempo, no espaço e na hierarquia social: fora dela ficaram usos linguísticos anteriores ao século 19 e, claro, também posteriores a ele. Estão aí, portanto, duas das três chaves que nos permitem interpretar a noção de “erro” na língua. Vamos ver.

Uma primeira explicação para a ideia de “erro” se acha numa reação à mudança linguística. Apesar das tentativas e dos esforços dos gramáticos normativos, a língua está sempre em processo de transformação, e isso é inevitável, é da própria natureza das línguas: uma língua, enquanto tiver falantes que a mantenham viva, está sempre mudando (basta comparar a fala, por exemplo, de três gerações de uma mesma família: as transformações saltam aos olhos... ou melhor, aos ouvidos).

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Tudo o que fingimos (não) saber sobre tecnologias e educação

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Ana Elisa Ribeiro

 

Uma vez, anos atrás, respondi a uma entrevista de um jornal especializado em educação. A pergunta deles era sobre aquele lance de “laboratório de informática” na escola. Lembram? Salas resfriadas, cheias de máquinas cabeadas, regras, regulamentos, proibições, bloqueios preparados, softwares dedicados, senhas e modos de usar, geralmente administradas por um técnico sisudo — perdão pela caricatura — ou pelo(a) gestor(a) da instituição. Não lembro exatamente o que eu disse, mas já demonstrei ali minha desconfiança. Suspeitava, desde sempre, que a questão ia muito além do ter máquinas num determinado espaço físico. Antes e depois disso, sempre acompanhei as discussões sobre projetos de infraestrutura para escolas. Geralmente, o ensino público se ressente disso. Não foi por falta de ideia ou de tentar. Existiram projetos que davam notebooks simplificados para estudantes; projetos que entregavam “laboratórios” para escolas; projetos que entregavam tablets no ato da matrícula; projetos que entregavam plataformas ou softwares para atividades remotas etc. Nem sempre vi acontecer o que importa: projetos que mantenham a formação de professores e professoras, no século XXI e para o século XXI, e que, de quebra, reeduquem, também, as famílias quanto a isso. (Já vi escola recusar a compra de um e-book porque o tal livro indicado para leitura tinha de ser, não sei bem por quê... ou desconfio, impresso).

Às vezes me vem à cabeça uma analogia. Já houve incontáveis projetos assim com livros. Livros de papel, esse equipamento incrível, que também insiste em não chegar direito às mãos das pessoas. Há mil programas de incentivo, programas que dão livros às bibliotecas escolares, projetos que montam bibliotecas onde não há, projetos que entregam “cestas básicas” com livros para levar para casa, projetos que facilitam a possibilidade de um acervo familiar. Nos dois casos, algo acontece de errado no caminho, e as coisas acabam ficando distorcidas. Por mais que haja casos, aqui e acolá, bem-sucedidos, fora da curva etc., há um imenso elenco de casos de insucesso, de desprezo, de abandono. Muitos desses livros distribuídos foram vendidos aos sebos pelas famílias que os deveriam ler; outras obras jamais chegaram às mãos dos(as) leitores(as). Houve, do mesmo modo, escolas que trancaram seus computadores novos em salas fechadas e os deixaram lá, até que rapidamente ficassem obsoletos. Houve gestores(as) que amarraram tablets nas mesas de um ambiente fechado a chave; houve escolas que regularam excessivamente o uso das máquinas, alegando que computadores estragados não serão consertados. De fato, conheci situações em que um técnico em informática passava pelas redondezas, quando muito, de seis em seis meses. Os “laboratórios” iam caducando, caducando, até virarem lenda. Uma amiga viu pilhas de gabinetes de computadores de mesa virarem ninho de pombo em escolas que jamais os tiraram direito das embalagens. Houve escolas que receberam máquinas recauchutadas, que mal podiam ligar. E houve quem achasse tudo isso uma grande “moda”. Também houve a briga pelo software livre, muito justa. E outras tantas impertinências sobre máquinas e seus possíveis usos pedagógicos. Até hoje, neste exato instante, debate-se ou simplesmente veta-se o uso de celular em sala de aula. O problema não é ele, é o que fazer com ele. Aliás, a questão vale para quase tudo. Não foi, reitero, falta de ideia. Nem de tentativa.

Estive pensando, por estes dias, diante do surto de insensatez pelo qual o ecossistema escolar está passando: não me lembro de ter trabalhado em alguma escola que desse acesso irrestrito a máquinas e à web aos(às) estudantes. Fui docente em escolas privadas, grandes e pequenas; e fui/sou docente de escola pública grande e de prestígio. Nunca tive à disposição um “laboratório” um-por-um, isto é, cada cadeirinha... um(a) estudante. Era sempre complicado ir, complicado ligar, complicado ficar, complicado acessar, complicado produzir, complicado obter os softwares especializados, complicado confiar que a máquina e a produção estariam lá quando voltássemos, complicado disputar o espaço com colegas, complicado atender a trios-por-máquina, complicado, complicado. Tão complicado que a gente desiste. Os parcos 50 minutos de aula não foram feitos para essa era digital.

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Visitantes — Adailza Conceição Barbosa
Uau! Texto maravilhoso e digno de ser lido por diversas pessoas. Ao lê-lo conseguir viajar no tempo em que eu era aluna e me tran... Leia Mais
Quinta, 23 Abril 2020 11:48
Visitantes — ANA PAULA AZARIAS DA FONSECA
Ana, gostei muito de teu texto. É sóbrio, elegante, bem escrito e expõe inúmeras fragilidades de nosso sistema educacional frente ... Leia Mais
Terça, 28 Abril 2020 02:10
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A PARÁBOLA EDITORIAL NÃO PARA NEM DIANTE DO CORONAVÍRUS

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Marcos Marcionilo

Talvez vocês não tenham percebido, mas, durante esses tempos de quarentena para controle da covid-19, a Parábola Editorial tem feito todos os esforços para manter presença no cotidiano de cada um[a] de nossos[as] leitores[as]. Para falar francamente, nunca trabalhamos tanto quanto nesses tempos de parada. Até parece um paradoxo, não é? Mas não é! Na Parábola Editorial, todos sabemos que a hora da crise é a hora da definição de quem está com quem. E nós [a começar de nossas autoras e autores] escolhemos estar com vocês.

Estar juntos seria impossível sem a colaboração generosa de nossos autores e autoras:

Ana Elisa Ribeiro [CEFT-MG]

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“O” Covid-19 ou “A” Covid-19? Fatos linguísticos em tempos de pandemia

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A intuição linguística não é um recurso valioso somente para aqueles que lidam cientificamente com os fatos da língua, os linguistas, como também para os usuários em geral. Exemplo disso é o tratamento que damos, especialistas ou não, ao gênero gramatical dos substantivos da língua que crescemos falando ou mesmo de uma língua estrangeira. Em línguas românicas como o português, o espanhol e o galego, impera a tendência geral de que palavras terminadas em -o são masculinas, o livro, el libro, o libro, e as terminadas em -a são femininas, a casa, la casa, a casa, respectivamente. Há, certamente, casos nas línguas que não seguem essa tendência, pois existem nomes com tais terminações que podem pertencer aos dois gêneros ou ser de gêneros opostos ao que se espera. Além disso, não vou entrar aqui no pormenor de -o ser vogal temática e -a ser desinência de gênero, porque não é o objetivo. Por outro lado, os substantivos terminados em outras vogais e em consoantes podem ser de um ou de outro gênero — a ponte, el puente, a ponte / o sol, el sol, o sol — ou, ainda, de ambos.

 

Voltando à questão da intuição, na região de onde sou, no norte do estado do Espírito Santo, e acredito que em muitas outras partes do Brasil também, é muito comum ouvir “o alface de hoje tá murcho”, ou “o couve ficou muito bom”, quando nos dicionários, nas gramáticas e na escola aprendemos que essas palavras terminadas em -e são femininas. Depois dessa informação, muitos de nós adotamos o gênero dado como oficial, ou passamos a variar entre uma forma e outra, ou, ainda, podemos manter o uso anterior ao da escolarização. Um caso interessante é o da palavra caçula (o/a filho/a mais novo/a), que, apesar de também dicionarizada como caçulo, conforme o Houaiss e o Aurélio (pressão do uso?), tem sido considerada a forma padronizada e pode ser empregada para os dois gêneros, sem a alteração da vogal final, com a mudança do artigo que a antecede: o caçula /a caçula, o filho caçula / a filha caçula. Sou o filho mais novo dos sete que meus pais tiveram, e minha mãe, com apenas quatro anos de escolarização, mas dotada de intuição e sentimentos linguísticos como qualquer um de nós, sempre diz que sou “o caçulo”, porque na cabeça dela o homem é o caçulo, e a mulher é a caçula.

 

Fiz essa breve introdução porque, dado o contexto de pandemia que estamos vivendo, tem me deixado curioso o gênero gramatical atribuído a Covid-19, principalmente nos usos feitos por órgãos oficiais e imprensa, falada e escrita. Covid-19 é uma sigla em inglês para a doença causada pelo vírus Sars-CoV-2 (também uma sigla vinda do inglês), que desdobrada significa Coronavirus disease 2019, isto é, uma doença causada pelo coronavírus descoberto no ano de 2019. No momento, estou na Espanha, mais precisamente na Galiza, em Santiago de Compostela. Naturalmente, tenho ouvido e lido as notícias sobre o novo vírus e suas “peripécias” em galego e em espanhol, as duas línguas oficiais da Comunidade galega. Por isso, se tornaram comuns aos meus ouvidos e olhos as formas o Covid-19 (galego) e el Covid-19 (espanhol), ambas tratadas como masculinas, portanto.

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Visitantes — Pedro Silva
Por acaso, o autor teve curiosidade em saber como se diz e escreve em português de Portugal? Estranhamente, nenhuma referência no ... Leia Mais
Terça, 07 Abril 2020 15:06
Visitantes — Mauricio
Muito prolixo! Sem poder de síntese
Sexta, 08 Maio 2020 13:04
Visitantes — Aline
Gostei da análise, obrigada! Eu tenho costume de falar "o Covid-19". Por hora fico com "o".
Quinta, 28 Maio 2020 12:32
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“ELA TESTOU POSITIVO”: QUE SINTAXE É ESSA?

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“ELA TESTOU POSITIVO”: QUE SINTAXE É ESSA?

Marcos Bagno

Junto com a disseminação planetária do novo coronavírus, também está se difundindo uma construção sintática que vem sendo usada em várias línguas: testar positivo, como em “ela testou positivo”. Muitas pessoas estão se perguntando de onde vem e se está “de acordo” com a gramática do português. Vamos aproveitar o tempo do nosso necessário, imperativo e incontornável confinamento para refletir um pouco sobre isso.

Trata-se do que a gente chama em linguística de decalque, isto é, a tradução literal de um termo ou construção de uma língua-fonte para uma língua-alvo. Um exemplo seria a locução “ter lugar” (“a reunião teve lugar na última sexta-feira”), decalcada do francês “avoir lieu”, com o sentido de “ocorrer, acontecer” etc.

A construção testar positivo, portanto, é um decalque do inglês to test positive. Esta é uma propriedade sintática da língua inglesa chamada construção resultativa. É uma construção que permite formular uma frase que condensa uma informação a respeito do resultado obtido pela ação desempenhada pelo sujeito. Por exemplo: Peter hammed the can flat. Literalmente: “Peter martelou a lata chata”, mas o que realmente está dito ali é: “Peter martelou a lata até ela ficar achatada”. A construção resultativa tem esse nome justamente porque, repito, expressa o resultado da ação: o resultado de martelar a lata foi ela ficar achatada. Aqui temos um verbo transitivo, isto é, que se complementa com um objeto: martelar a lata. Mas a construção resultativa também pode ter um verbo intransitivo: The lake froze solid, ou seja, “o lago congelou a ponto de ficar sólido”. E é precisamente desse tipo a construção “She tested positive”: “Ela se submeteu a um teste que resultou positivo”. A construção resultativa do inglês, como se vê, permite sintetizar a informação numa frase simples com sujeito+verbo+adjetivo: she + tested + positive.

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Comentários Recentes
Visitantes — Matheus Chaud
Bravo, caro Marcos Bagno! Belíssimo texto. Leitura agradável e muito interessante!
Quarta, 01 Abril 2020 00:52
Visitantes — Sérgio Santana
Gente, simplesmente maravilhoso! Parabéns, professor. Bela reflexão!
Quarta, 01 Abril 2020 13:56
Visitantes — Luana De Conto
Oi, professor! Gostei da sua análise mas acho que discordo da afirmação de que "positivo" seja predicativo do sujeito. Como vc mes... Leia Mais
Quarta, 01 Abril 2020 21:40
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O dialeto caipira cem anos depois por Marcos Bagno

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Marcos BAGNO

Nas primeiras décadas do século 20 foram publicadas diversas monografias que descreviam variedades específicas do português brasileiro. Decerto sob influência da dialetologia, disciplina fundada na Europa no final do século anterior, estudiosos brasileiros nos deixaram testemunhos valiosos sobre os modos de falar de algumas regiões. Um desses clássicos da nossa literatura linguística é O dialeto caipira, publicado em 1920 por Amadeu Amaral (1875-1929), intelectual paulista que se dedicou a vários campos de investigação como o folclore e a filologia, bem como a uma produção literária que inclui poesia e ensaios de variada temática. Já na abertura do livro, Amaral declara que o “dialeto caipira” estava praticamente extinto no momento da publicação, devido ao progresso das comunicações e à expansão do ensino. Foi para deixar documentados os traços característicos daquela variedade que Amaral provavelmente decidiu empreender seu trabalho, que acaba de ganhar uma nova edição comemorativa.

O principal interesse de O dialeto caipira para o público leitor de hoje está, quase paradoxalmente, no fato de que quase todos os fenômenos apresentados ali como “dialetais”, isto é, próprios de uma variedade especíica, não se limitam ao interior do Estado de São Paulo, área estudada por Amadeu Amaral. Também de forma paradoxal, então, o dialeto que supostamente tinha desaparecido continuava (e continua) a existir, e o próprio autor reconhece, em diversos momentos do texto, que vários daqueles fenômenos ocorriam também em todo o Brasil, não só em falares de populações rurais sem acesso à educação formal, como também na atividade linguística de pessoas “cultas” da zona urbana. E suas percepções estavam corretas.

Outras publicações dialetológicas das primeiras décadas do século 20 foram se sucedendo, até que em 1950 o carioca Serafim da Silva Neto (1917-1960) lançou a sua Introdução ao estudo da língua portuguesa no Brasil, uma obra pioneira em sua tentativa de descrever o português brasileiro com os dados e a metodologia disponíveis na época. Nesse livro, Silva Neto mostra que muitos dos fenômenos linguísticos até então rotulados como exclusividades de falares locais específicas eram, na verdade, conforme escreveu, “pan-brasileiros”, isto é, encontráveis em praticamente todas as regiões do país, do extremo norte ao extremo sul, de leste a oeste. As incontáveis investigações dialetológicas e sociolinguísticas realizadas desde então vêm comprovando que as chamadas “variedades populares” do português brasileiro apresentam uma grande convergência de traços, sobretudo no que diz respeito à morfossintaxe, ou seja, à gramática propriamente dita. As particularidades se limitam quase sempre a características fonéticas e, claro, ao vocabulário, que é sempre um repositório da cultura local. E mesmo no campo da fonética, sabemos que pronúncias como broco, praca, ingrês (para “bloco”, “placa”, “inglês”) e trabaio, véio, paia (para “trabalho”, “velho”, “palha”) ocorrem em todas as regiões do Brasil, no campo ou na cidade. Desse modo, o que “sobra” do dialeto caipira, depois de bem peneirado, é praticamente um único traço fonético: a pronúncia retroflexa do “r” em travamento silábico de palavras como porta, verde, corpo, pronúncia que recebe precisamente o nome popular de “R caipira”.

Os principais aspectos morfossintáticos assinalados por Amadeu Amaral constituem, de fato, regras já há muito tempo bem assentadas na gramática do português brasileiro mais geral. São usos que ocorrem tanto na fala das pessoas das camadas sociais menos privilegiadas quanto na das pessoas ditas “cultas”, quando não estão policiando sua atividade linguística: a diferença é basicamente de frequência desses usos. E diversos desses aspectos gramaticais já têm se enraizado com firmeza também na escrita de gêneros textuais mais monitorados, o que comprova a tese de que a mudança linguística, inevitável, avança da fala mais espontânea até a escrita mais formal, a despeito de toda a luta normativa de tentar frear essa mudança.

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O dialeto caipira, de Amadeu Amaral

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O dialeto caipira, de Amadeu Amaral (a partir da leitura da obra e do imprescindível artigo de Vandersí Sant’Ana Castro, “Revisitando Amadeu Amaral”. In: Estudos Linguísticos XXXV, p. 1937-1944, 2006. [1937/1944])

O Dialeto Caipira, publicado há exatos 100 anos, é uma obra de referência na história da dialetologia brasileira e um marco na história da linguística no Brasil. Feito com método (pesquisa in loco, clareza, critério, objetividade e precisão), é a primeira obra que procura descrever de forma abrangente um falar regional brasileiro. Até então, os estudos de dialetos enfocavam quase que só o léxico do português do Brasil, em âmbito geral ou regional, constituindo-se em dicionários e vocabulários. Diferentemente, o estudo de Amaral revela uma preocupação mais ampla, procurando descrever o falar caipira em seus diferentes aspectos fonético, lexical, morfológico e sintático.

Nas palavras de Vandersí Sant’Anna:

Diz-nos o Autor que até mais ou menos a última década do século XIX, tivemos “um dialeto bem pronunciado, no território da antiga província de S. Paulo” o falar caipira , “bastante característico para ser notado pelos mais desprevenidos como um sistema distinto e inconfundível”. Esse falar “dominava em absoluto a grande maioria da população e estendia sua influência à própria minoria culta. (...) Ao tempo em que o célebre falar paulista reinava sem contraste sensível, o caipirismo não existia apenas na linguagem, mas em todas as manifestações da nossa vida provinciana” (Amaral, 1982: 41). Todavia, no correr do final do século XIX e início do século XX, por atuação de fatores que alteraram o meio social (libertação dos escravos, crescimento da população, imigração, ampliação das vias de comunicação e do comércio, extraordinário incremento da educação), os “genuínos caipiras, os roceiros ignorantes e atrasados”, e o caipirismo vão perdendo seu espaço de influência. De tal forma que, à época em que o Autor desenvolve sua pesquisa, o falar caipira se acha “acantoado em pequenas localidades” que ficaram à margem do progresso, subsistindo “na boca de pessoas idosas”, observando-se, entretanto, que “certos remanescentes de seu predomínio de outrora ainda flutuam na linguagem corrente de todo o Estado, em luta com outras tendências, criadas pelas novas condições” (Amaral, 1982: 41-42). É esse falar que Amadeu Amaral descreve, numa tentativa de documentá-lo antes que se perca.

O material linguístico observado por Amadeu Amaral refere-se predominantemente aos municípios de Capivari, Piracicaba, Tietê, Itu, Sorocaba e São Carlos, mas é interessante aprender com o autor que o dialeto caipira era muito usado em toda a província (o estado de São Paulo), pela maioria da população e também por uma minoria culta. Isso deu aos paulistas a fama de corromperem o vernáculo com seus vícios de linguagem.

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O dialeto Caipira de Amadeu Amaral completa 100 anos e ganha nova edição

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Em comemoração ao centenário da 1ª edição de O dialeto caipira, de Amadeu Amaral, a Parábola Editorial anuncia a edição comemorativa da obra, a ser lançada oficialmente  no dia 14 de março de 2020, das 19h às 20h, durante o I Seminário Internacional de Estudos em Linguística Popular que acontecerá na UFScar em São Carlos, SP, de 12 a 14 de março que tem Amadeu Amaral como homenageado em sua programação.

A edição comemorativa de O dialeto caipira se justifica por sua importância para a cultura brasileira. A obra foi um estudo pioneiro das características da língua portuguesa no interior do Estado de São Paulo e é referência obrigatória na história da dialetologia brasileira.

No entanto, apesar de sua importância, a obra de Amadeu Amaral, infelizmente, “ainda é pouco conhecida”, sobretudo dos “mais novos”.  Daí vem a importância de se republicar a obra que, depois de 100 anos, ainda é tão atual. A nova edição traz o texto original publicado em 1920 em um belo projeto gráfico, objetivando atrair a atenção dos leitores para um trabalho tão fundamental para pesquisa linguística no Brasil considerando as inovações que introduziu em nossos estudos dialetológicos, a contribuição que representa para o conhecimento do português brasileiro, as questões que suscitou e pode suscitar ainda hoje para novas pesquisas.

 

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O PROFESSOR, O RELÓGIO E A LIÇÃO DE VIDA

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Em muitos anos não li uma história assim. Acaba de ser-me enviada por um amigo. Tudo o que fiz foi torná-la graficamente mais fácil de ler [Fernando Venâncio, Mértola, Alentejo, Portugal].

*

Um jovem encontra um senhor de idade e lhe pergunta:

— Se lembra de mim?

E o velho diz 'não'.

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Retrospectiva 2019

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Editar livros da área de Letras é cuidar da literatura científica brasileira, fomentar mais pesquisas e preocupar-se com a valorização deste patrimônio universal: a língua.

Você já parou para pensar que é um direito nosso, entre outros, conhecer a fonética e a fonologia do português brasileiro, nossa morfologia, sintaxe, prosódia, a história sociopolítica da língua, suas variedades e sua riqueza? E que isso também vale para Libras, inglês, línguas românicas etc.? Ou ainda, você já parou para pensar que a principal característica de um professor é a formação continuada e que a universidade vai para a escola e vice-versa pela difusão de ideias, de livros?

Nessa retrospectiva, (re)conhecemos nossos lançamentos do ano passado. Sem dúvidas, a Parábola Editorial se desenvolve junto com a qualificadíssima pesquisa linguística, literária e pedagógica de nossos doutores universitários e junto com vocês, mais que nosso público, nossos leitores críticos.

Fevereiro

Escrever na universidade 1: Fundamentos, de Carlos Alberto Faraco (UFPR) e Francisco Eduardo Vieira (UFPB);

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Educação Literária na Infância

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 Clecio Bunzen Jr (UFPE-CE)

 

Nos últimos dias, temos discutido a recente proposta do atual Ministério da Educação chamada de Política Nacional de Alfabetização (PNA). Por tal razão, iniciei, na minha página do Facebook, algumas postagens informais para indicar materiais gratuitos e de qualidade sobre a área da alfabetização no Brasil, assim como estudos no campo da educação linguística e da educação literária. O objetivo era mostrar que não deveríamos partir do “zero” ou negar todo o passado como faz o atual Ministério da Educação.

         Ao perceber uma boa recepção por parte dos(as) leitores(as) das postagens, pensei em transformá-las em algo mais sistemático e para um público um pouco maior. Surge assim uma lista com indicações e breves comentários sobre temáticas relacionadas ao ensino de língua e de literatura.

Na primeira postagem, indico cinco obras que podem auxiliar você a pensar a educação literária na infância. As obras são fruto de parceria das universidades com gestões anteriores do Ministério da Educação e/ou programas específicos de formação inicial ou continuadas de professores(as). Todas elas sugerem reflexões teórico-metodológicas para o trabalho com o texto literário na Educação Infantil ou na Educação Básica (especialmente, nos anos iniciais do ensino fundamental).

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Resenha do livro - História do Português

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  O livro História do Português, de Carlos Alberto Faraco, publicado pela Editora Parábola, aborda desde conceitos sociopolíticos a conceitos linguísticos.

Quem pensa ou acha que fatores sociais, culturais e políticos não se relacionam com a língua, está muito enganado. Todos esses fatores, principalmente o político, influenciaram na chamada língua portuguesa.

Acredita-se, ainda nos dias de hoje, que a língua é homogênea, inflexível, não suscetível à variação e à mudança. Porém, esse pensamento é uma falácia, visto que a língua participa de uma sociedade e esta, como afirma Faraco, é uma totalidade complexa, heterogênea, contraditória, simultaneamente integrada e em constante devir. Tais aspectos fazem com que a língua esteja em constante variação, resultando em uma mudança linguística. Viu como a língua não varia e muda aleatoriamente? Há fatores que impulsionam isso.

Entendida tal reflexão, partimos para a história da língua portuguesa.

Tudo começou no noroeste da Península Ibérica, numa região em que se encontram hoje os territórios da Galiza e do norte de Portugal, com os desdobramentos do latim, língua trazida pelos romanos.

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QUAL É A SUA CONTRIBUIÇÃO? Ou A FALTA QUE LER FAZ

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Ana Elisa Ribeiro

 

Fim de ano, safras de trabalhos de conclusão de curso, mestrados e doutorados sendo concluídos, leituras para as férias e eu me pego lamentando que ler esteja tão fora de moda na academia. Há pouco, li um artigo claramente derivado de uma tese. Pelo tema já batido, esperei encontrar nele referência a alguns/mas pesquisadores/as conhecidos/as e só me frustrei. Nada. Nem um toque de Fulana ou Beltrano que vêm trabalhando no assunto há uma, duas, duas décadas e meia, ininterruptamente. Como pode? Ou, como diriam os/as mais digitais: #comofaz?

Há vários anos, quando participo de bancas de mestrado, mas principalmente de doutorado, aponto, quando é o caso, a falta de uma revisão sistemática da literatura da área (geralmente, linguística aplicada ou edição, dependendo do que me chama). Infelizmente, é comum que eu aponte. Há sempre muito o que ler, os prazos são apertados, mas considero imprescindível — para o/a próprio/a pesquisador/a — que ele/ela faça essa revisão, ainda que recorte um período bem recente e não remonte ao século XVIII. Tendo feito isso, minimamente, além de tomar pé do que tem sido pesquisado e produzido, é possível justificar a existência da própria dissertação ou tese. Os trabalhos monográficos deixam de ser um exercício quase de autossuperação ou para o/a orientador/a (uma pequena banca ou a Capes etc.) e passam a ser algo mais: uma contribuição à ciência na área de conhecimento X ou Y.

Pois bem. Lamento que essas revisões estejam meio sumidas dos trabalhos monográficos, mesmo dos extensos. Vejo aqui e ali textos que tratam adamicamente das coisas, como se nada tivesse sido feito, pensado e discutido antes. Em alguns trabalhos, flagro afirmações que seriam facilmente evitadas — de tão ingênuas ou injustas, às vezes bobas — com meia dúzia de leituras relevantes de colegas, às vezes do mesmo programa de pós! E há muitas explicações para isso: o excesso de disciplinas a serem cumpridas nos programas, os prazos da Capes, a nota isto ou aquilo, o sanduíche para a internacionalização do programa etc. Mas nada me convence de que a leitura, esta sim, seja uma das principais e mais necessárias etapas de uma pesquisa.

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Por que é errado rir das expressões faciais dos intérpretes de LIBRAS?

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Por que é errado rir das expressões faciais dos intérpretes de LIBRAS?”

Anderson Almeida da Silva

 

Assim que me foi proposto escrever sobre esta temática, me veio à mente a apresentação da cantora sul-africana Miriam Makeba em que ela entoa uma canção chamada de “A canção dos cliques”. A cantora é falante nativa da língua xhosa, língua conhecida por possuir em seu sistema fonológico sons que não são produzidos com o auxílio do ar dos pulmões, mas pela articulação da língua em vários pontos da boca. Esses sons se assemelham a “estalos” e são tipologicamente raros. No vídeo abaixo, a cantora fala que por onde ela andava as pessoas a questionavam: - mas, como você faz este barulho (os cliques)? E ela costumava se ofender e respondia que os cliques não eram barulhos, mas eram parte de sua própria língua. Ou seja, os cliques fazem parte da língua xhosa e não são apenas um efeito estilístico realizado à vontade dos falantes.

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Dez presentes perfeitos para os amantes de livros de linguística e língua portuguesa

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A Parábola preparou uma lista de dez presentes perfeitos para você aproveitar a Black Week da Parábola e presentear os amantes da língua e da linguagem com livros de linguística e língua portuguesa.

 

 


1. Assinatura-presente Clube Parabólicos

Essa dica é a primeira porque vale ouro. Você pode dar de presente uma caixinha do nosso clube exclusivo com livros de linguística no mês de aniversário das pessoas de quem gosta. Nela são enviados: um lançamento da Parábola, um marcador magnético e um voucher de 30% de desconto para os produtos do nosso site. Quer arrasar com um presente diferentão? Esse é de arrasar!

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