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O médico e o monstro na web: um raôxis dos letramentos e da intolerância linguística

O médico e o monstro na web: um raôxis dos letramentos e da intolerância linguística

Caso de intolerância linguística entre médico e paciente reacendeu debate sobre os letramentos no Brasil

 

Todos sabemos que questões sociais e questões de linguagem estão ali, ó, juntinhas. Não é sem razão que o bafafá da última semana de julho, nas redes sociais e na web brasileira, tenha relação com um jovem médico que “debochou” de um paciente que “falava errado”. As aspas aqui têm mais de uma função, mas uma delas é retomar termos empregados por outros redatores. Uma pesquisa rápida no Google trará à sua tela diversas notícias, em veículos de imprensa maiores ou menores, relatando – mas não apenas isso – o caso de intolerância linguística ou de preconceito linguístico, para usar os termos respectivos de Marta Scherre e de Marcos Bagno, autores da Parábola.

 

Resumo da ópera
O resumo da ópera é o seguinte: o jovem médico Guilherme Capel Pasqua, formado pela Unesp, funcionário do Hospital Santa Rosa de Lima, na cidade de Serra Negra, interior de São Paulo, atendeu um cidadão pouco estudado, isto é, uma pessoa “simples”, na quarta-feira, dia 27 de julho.

 

Esses atributos, tanto do profissional quanto do paciente, são dados pelas notícias em jornais e blogs, segundo os quais o médico “debochou” do paciente ou “tirou sarro” da maneira como ele pronunciava as palavras “peleumonia” e “raôxis”.

 

Segundo as matérias, o deboche começou na hora da consulta, com as risadas do médico, e continuou vinte minutos depois, pelos corredores do hospital, quando Guilherme se deixou fotografar com uma folha de papel, onde aparecem transcritas as palavras pronunciadas pelo paciente – folhinha timbrada do hospital, com carimbo e número de inscrição no Conselho Regional de Medicina – CRM.

 

É de se notar que as palavras tenham passado por um esforço de transcrição, pela confecção de uma espécie de cartaz, pela pose e expressão facial propositadas do médico, pela manutenção de timbres, carimbos, jaleco impecável com nome bordado e o clichezíssimo estetoscópio pendurado no pescoço. A foto, propriamente, é uma composição conhecida nas redes sociais, uma espécie de “gênero fotográfico” de alta circulação. Só faltou o médico e seu assistente fotógrafo (não parece uma selfie) escreverem alguma hashtag (nem vou sugerir qual).

 

“Deu ruim” na ópera
É claro que Pasqua foi denunciado na web depois de postar sua arte no Facebook (e ter curtidas e compartilhamentos positivos). Também foi demitido do hospital, que divulgou uma nota em favor da dignidade dos pacientes ali atendidos.

 

Segundo os jornais, o médico foi “afastado”; segundo os leitores que comentam as matérias, Guilherme deveria ser preso, castigado, entre outras sanções do tipo “selvagem” que vemos pela internet (o discurso do ódio anda a toda).

 

O CRM informa que abrirá um processo de investigação sobre a atuação do profissional, que já tratou de apagar fotos, post e tudo do Facebook. Guilherme certamente não poderia imaginar essa repercussão, dificilmente buscaria estar na situação em que ficou, já ameaçou processar o autor da postagem (o que reduz sua intencionalidade na divulgação, mas não em se deixar fotografar em pose) e fez mais, ao pedir desculpas publicamente, visitar o paciente ofendido e até se oferecer para cuidar da saúde de toda a família dele.

 

Circulam ainda pela web os nomes completos de todos os envolvidos no caso, informações sobre o hospital, além de outros episódios que vieram à tona sobre pacientes desrespeitados por médicos em situações de consulta, especialmente estas sobre questões linguageiras.

 

O pêndulo oportunista do discurso
É claro que li com interesse as postagens sobre este fato que chegaram ao meu Facebook. Depois passei a procurar matérias para saber sobre os desdobramentos. Basicamente, os textos jornalísticos ou pseudojornalísticos são cópias uns dos outros. Quase nada de análise ou de contraponto. A foto do médico, os dados sobre as pessoas e lugares, o relato do ocorrido, sempre escolhendo o lado mais fraco da corda: o paciente.

 

O tom de todas as notícias que li é de julgamento do médico. O discurso da mídia (impressa, web, TV etc.) contra Guilherme descreve e ataca uma “elite”, jovens brancos e belos, supostamente bem formados, socialmente superiores, arrogantes e ignorantes em relação às questões sociais dos cidadãos que atendem. Insensíveis até.

 

Já o discurso sobre o paciente, o senhor José Mauro, de apenas 42 anos, mecânico de profissão, pouco escolarizado e responsável pai de família, trata de defendê-lo da intolerância linguística, transferindo a “culpa” de sua fala “errada” à pobreza e à falta de oportunidades que grassam em nosso país. São discursos, no entanto, generalistas e cheios de inconsistências.

 

Fiquei surpresa com a abordagem social e tolerante das matérias que, afinal, tratam de língua e linguagem, língua culta e língua popular. Geralmente, o que vemos são matérias sobre a “tragédia que se abate sobre a língua” quando a usamos, seja escrevendo, seja falando.

 

No entanto, não me surpreendi ao notar que o “falar errado” continue associado à pobreza, à falta de boa e longa escolarização e à “simplicidade”. O médico, que supus o tempo todo que fale e escreva um português castiço, não é avaliado nesse aspecto. O jogo do discurso faz as associações e as empurra ao leitor, que, na maioria das vezes, apenas as repassa.

 

Repensando a ópera
Não é novidade que as pessoas se julguem pela maneira como falam ou escrevem – isso em qualquer língua, mas fiquemos aqui pelas nossas redondezas. Também não é novidade que existem gramáticas, gramáticos e repetidores das tais “regras de português”, geralmente um conjunto vagamente representado ou conhecido, e inconsistentemente operacional.

 

Sabemos, faz tempo, que também existem linguistas e estudiosos da língua viva, da língua operante, dos falares diversos e da escrita como ela acontece, aqui e acolá. Geralmente, tratamos esses elementos como polos ou como incompatíveis, sendo que, de fato, eles compõem nosso cenário de múltiplas colorações.

 

Convenhamos: também não é novidade que médicos e inúmeros outros profissionais, dignos e detentores de prestígio social, “debochem” dos falares de pacientes, clientes, alunos etc. É curioso que não tenham sabido antes que atuariam diretamente com pessoas em pé de desigualdade. E que teriam de ouvi-las, compreendê-las, atendê-las e, eventualmente, resolver questões com elas, delas, para elas.

 

A “tiração de sarro” acontece, indiscriminadamente, em todas as faculdades de medicina, pelos corredores, nos plantões, nas conversas do almoço dos plantonistas. E em infinitas outras situações e profissões.

 

É amplamente sabido que nossa educação linguística falha, falta, se omite. Não estou falando de aula de gramática, de português no ensino médio, de análise sintática. Estou falando de sensibilidade às práticas sociais da linguagem, às correlações entre falares, fazeres, lugares – sociais, geográficos, entre outros –, escolarização, modulações, variação, mudança, respeito, intervenção.

 

Não estou dizendo que possamos nos omitir, politicamente, quando sabemos que um pai de família de 42 anos não conseguiu passar da etapa fundamental de ensino em nossa rede escolar. Isto é problema nosso. O médico protagonista desta cena não apenas se omite. Ele trata a questão com imperícia, com irresponsabilidade, como vários de seus colegas provavelmente fazem, diariamente, sem postar nas redes. Teve também uma péssima educação em linguagem, mesmo que tenha o 3º grau completo.

 

Representações e duas hashtags
No entanto, é bom ter em mente: #SomosTodosPeleumonia ou #PeleumoniaExisteSim. Porque as palavras são efetivamente faladas e fazem parte de um vocabulário tangível e operacional – veja-se “célebro”, que muita gente formada no ensino médio ou na graduação fala, para ficar apenas em um exemplinho de substantivo (deixemos de lado regências, concordâncias e outros detalhes).
 

 

 

 

 

E porque é falsa a associação exclusiva entre pobreza e “fala errada”. O desvio da norma está em nossos falares todos, mas apenas contra a difusa entidade chamada “norma”, e não necessariamente contra a comunicação, a expressão e a compreensão.

Não quero amenizar nada e nem dizer que possamos amortecer as questões escolares falhas em nosso país. Mas quero dizer que Guilherme também poderia ter alguma de suas falas, em outras circunstâncias, transcritas, anotadas em um cartaz e “zoadas”.
 
 

Mas isso não ocorrerá. Guilherme tem Facebook; José Mauro, não. Guilherme goza de prestígio social e profissional; José, não. Guilherme acha que está do lado “certo” da língua, enquanto julga que José não o alcance. Guilherme não sabe que também fala “errado” e que José Mauro pode aprender como “pneumonia” está registrada nos manuais de português. Guilherme publicou um pedido de desculpas, dizendo que não tinha a intenção de ofender ninguém. E agora, José? José já perdoou.

 

Diz a denunciante em um blog: “O povo serrano não tem culpa se não sabe falar direito. Ele é médico e não professor de português!”. Analisem só. Uma representação de “povo serrano”, uma assunção de que esse povo todo fala mesmo “errado”, de que exista uma fala correta, acessível a poucos, dentre os quais talvez esteja o médico, uma representação polarizada.

 

Estão aí a representação do médico e, é claro, a do professor de português, legítima autoridade para patrulhar, corrigir e resolver as questões linguísticas do paciente. Reparemos: o professor de português talvez pudesse “debochar” sem ser condenado. Precisamos rever essas associações. Precisamos abrir nossos ouvidos às nossas falas. Precisamos desfazer essas representações e esses links estranhos.

 

Letramento digital
O letramento digital precisa chegar à cena. Guilherme não sabe, mas os posts do Facebook e mesmo no WhatsApp circulam com muita facilidade, expõem as pessoas de uma maneira sem precedentes, transformam situações “de corredor” em casos nacionais e em linchamentos virtuais.

 

Logo isso será esquecido, porque as redes são rápidas, a memória é curta, mas é importante saber que não se apaga nada da web. Uma vez postada a foto, feito o comentário, pronto. Pode apagar, pode excluir, pode editar à vontade. Alguém compartilhou, alguém fez um printscreen, alguém retransmitiu por outro aplicativo, alguém vazou. Já era. Em alguns anos, quando Pasqua tiver outro jaleco bordado e outro timbre no papel, ainda será possível encontrar este triste episódio no buscador mais próximo.

 

A foto postada é intencional. Quero dizer: a existência da foto, a pose, o cartaz, a postagem, as risadas efusivas dos colegas, os outros comentários e tudo o que se seguiu até que as coisas saíssem do controle. Piadinha na rede tem preço. Faz fama e traz azar. A reversão disso foi prontamente providenciada, ainda no calor do episódio.

 

O afeto, a memória e a linguagem
Meu pai foi médico clínico. Aposentou-se faz tempo. Era do tipo que só usava jaleco dentro do local de trabalho. Tinha uma maleta preta cheia de instrumentos de trabalho e uma caneta Bic no bolso da camisa. Tinha ótima fama profissional. Nunca foi rico. Era filho primogênito de operário de fábrica e dona de casa, ambos de baixa escolaridade.

 

Trabalhou a vida inteira em um hospital sem grife, na região metropolitana de Belo Horizonte. Atendeu muitos mecânicos, pedreiros, faxineiras, entre outros profissionais. Sem ter como cobrar, às vezes levava para nossa casa queijos, postas de carne da roça, doces, cachaças e outras pagas. Vinha sereno.

 

O caso do jovem Pasqua foi assunto no lanche da nossa família. Alguém iniciou o comentário com aquele esperado “você viu aquele caso do…?”. E nossos olhares inquiriram meu pai, o velho médico aposentado, que ouviu atentamente. Disse-nos, sem mudar de tom: “Já atendi muito pedreiro ‘atômico’ – autônomo. Você conhece os pacientes, trata deles, precisa ter no mínimo bom senso. Esse menino – o médico – não teve”.

 

Bom senso, uma boa compreensão da profissão que escolheu, uma percepção razoável de nosso país e alguma educação linguística, vinda da base. Não é preciso ser professor de português para ajudar, oferecer opção, eventualmente escrever para o paciente – “pneumonia”, atuando como agência de letramento, este letramento de tipo prestigiado e escolarizado.

 

Médicos que lidam com pessoas, em sua diversidade, aprendem rápido o que seja um “joelho embodocado”, um “canço de uta” e muitas outras enfermidades que acometem a população, para muito além das palavras que encontramos para designar o que não podemos alcançar. A educação linguística dos profissionais que se ocupam de gente, qualquer um deles, deveria ser assunto sério.

 

O “falar errado” – e também o escrever errado – estão fortemente associados à pobreza e à má escolarização ou à falta completa dela. É possível entrever, no entanto, mais discriminação social do que propriamente linguística, na maioria dos casos semelhantes a este.

 

A graça das “pérolas do ENEM” é a mesma das pessoas acometidas por “peleumonia”. Acontece a zombaria em todo lugar, mas que país teríamos se puséssemos mais foco nos José Mauro, de qualquer profissão, cidade, estado ou formação, em vez de olhar apenas para a arrogância estrutural da turminha do jovem e desavisado Pasqua?

 

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