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Português ou brasileiro? Português brasileiro!

Português ou brasileiro? Português brasileiro!

A definição da nossa língua: português ou brasileiro

 

Logo depois da Independência, em 1822, alguns intelectuais começaram a divulgar a ideia de que era preciso também proclamar a “independência linguística” do Brasil. Afinal, deveríamos chamar nossa língua de português ou brasileiro?

 

Um dos nomes mais conhecidos dessa fase é o do escritor José de Alencar (1829-1877), autor de Iracema e de O Guarani. O conceito era muito simples: já que o Brasil não pertencia mais a Portugal e era agora uma nação autônoma, independente, a língua também tinha que ser autônoma, independente. E muitas pessoas chegaram mesmo a propor o nome “brasileiro” ou “língua brasileira”.

 

O momento político coincidia com o florescimento do Romantismo, uma escola literária e uma ideologia que exaltavam o nacionalismo, a liberdade de pensamento e os movimentos de ruptura com as convenções do passado. A língua entrava aí meio de “contrabando”, sem nenhuma base sólida de pesquisa, de reflexão teórica, de discussão científica.

 

Por isso, o projeto de “independência linguística” dos românticos não teve sucesso, até porque mais adiante, já perto do final do século XIX, um pensamento linguístico extremamente conservador ganhou a dianteira e se impôs com força na mentalidade das camadas dominantes da sociedade.

Essas camadas dominantes, essencialmente brancas e abastadas, queriam se distanciar o máximo possível do resto da população, predominantemente negra e mestiça, e do modo de falar dessa grande maioria, um modo de falar visto como “estropiado”, “feio”, “errado” etc.

 

O racismo impregnado na nossa sociedade sempre teve sua face linguística bem visível. Esse desejo de se diferenciar do “populacho” levou as classes dominantes a buscar um ideal linguístico o mais próximo possível da fala dos portugueses ou, melhor, do que elas imaginavam que era a fala dos portugueses. Esse movimento reacionário se concretizou simbolicamente na fundação da Academia Brasileira de Letras, em 1897, uma instituição conservadora em todos os aspectos.

 

Nas primeiras décadas do século XX, um novo movimento intelectual surgiu, voltando a propor algumas das teses românticas: o Modernismo. Os escritores e outros artistas vinculados ao Modernismo, com destaque para o nome de Mário de Andrade (1893-1945), queriam valorizar a cultura popular: os ritmos musicais, as danças, as práticas religiosas, as tradições artesanais, o folclore, a literatura oral etc.

 

Mais uma vez, eles propuseram um rompimento com a noção conservadora de “língua certa”, inspirada nos usos literários de Portugal, e se esforçaram por escrever numa língua a mais “brasileira” possível.

 

O marco simbólico mais conhecido dessa fase é o poema No meio do caminho, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), publicado em 1925, com o famoso verso “No meio do caminho tinha uma pedra”, com o uso do verbo “ter” em lugar de “haver”, um uso condenado (até hoje!) pelos que se recusam a aceitar as características próprias da nossa língua.

 

Apesar dos “escândalos" propositais gerados pelos modernistas e da polêmica que se criou em torno deles, suas ideias sobre língua também careciam de boas reflexões teóricas e de pesquisa empírica consistente: eram muito mais guiadas pelo espírito da controvérsia, do nacionalismo etc.

 

Foi preciso esperar ainda quase meio século para que essa situação se transformasse. A ciência linguística só foi incorporada ao currículo das universidades brasileiras em 1961: até então, o estudo das línguas se fazia exclusivamente na perspectiva tradicional, normativa, com algum recurso à filologia histórica do século XIX.

 

Da mesma forma, a obra fundadora da linguística moderna, o Curso de linguística geral, publicado em 1916 sob o nome de Ferdinand de Saussure, só recebeu tradução brasileira em 1971.

  

Apesar desses atrasos, logo a pesquisa linguística tomou impulso no Brasil, e os resultados acumulados até hoje têm permitido um conhecimento cada vez mais amplo e melhor da realidade das línguas do nosso país (que são mais de duzentas!) e, principalmente, da língua majoritária da população.

 

Essa língua majoritária vem revelando surpresas e mais surpresas à medida que as investigações avançam. Existem fenômenos gramaticais no nosso português totalmente desconhecidos não só no português de Portugal como também nas outras línguas da família românica (línguas derivadas do latim).

O avanço da pesquisa nos permite dizer, com muita tranquilidade e sem nenhuma dúvida: nós, brasileiras e brasileiros, falamos uma língua diferente da que se fala em Portugal, muito aparentada ainda, é verdade, mas com traços distintivos suficientes para afirmar essa diferença.

 

As pessoas que não têm familiaridade com as teorias linguísticas acreditam, ingenuamente, que essas diferenças estão no nível fonológico (o famoso “sotaque”) e no nível lexical (as surradas listas de palavras: “fila” no Brasil é “bicha” em Portugal etc.).

 

Mas essas diferenças são superficiais, eu diria até “folclóricas”, muito menos importantes do que as que existem naquilo que é o “motor” da língua, a sua morfossintaxe ou, em termos leigos, a sua gramática. Nós, no Brasil, empregamos com a maior naturalidade construções gramaticais que não fazem nenhum sentido em Portugal.

 

Quando a gente diz, por exemplo, “Aqui vende uns docinhos deliciosos!”, uma declaração que não causa estranheza a ninguém, empregamos o verbo na 3ª pessoa do singular como índice de indeterminação, um emprego totalmente desconhecido em português europeu, onde é obrigatório o uso da partícula se e do verbo no plural: “Aqui se vendem uns docinhos deliciosos!”.

 

A propaganda do site Bom Negócio também seria impossível em Portugal: “A cada um minuto quatro coisas vendem”. O verbo vender, tradicionalmente, é classificado como transitivo direto, isto é, precisaríamos especificar o que está sendo vendido, e isso se faria, mais uma vez, com a partícula se (“A cada um minuto quatro coisas se vendem”), mas a gramática da nossa língua já dispensou essa partícula há muito tempo.

 

Esse é um exemplo mínimo das muitas e grandes diferenças gramaticais que existem entre a nossa língua e a língua falada em Portugal. Por isso, desde meados da década de 1980, em vez de chamar de português ou brasileiro, os linguistas daqui vêm insistindo na denominação português brasileiro para rotular nossa língua.

 

Esse rótulo é importante não só para delimitar a língua como objeto da pesquisa científica, mas também para marcar uma posição em termos de política linguística. Com isso, já se tornou cientificamente inviável a produção de “gramáticas da língua portuguesa” com esse título genérico, porque as mudanças profundas ocorridas nos últimos séculos na língua mais falada no Brasil exigem um tratamento específico, próprio, autônomo.

 

Só é possível produzir “gramáticas da língua portuguesa” no espírito tradicional, conservador, normativo e policialesco que quer impor como única forma “correta” uma língua imaginária, inspirada nos gostos pessoais do gramático, sem levar em conta a língua realmente falada e escrita nos dias de hoje por mais de duzentos milhões de pessoas.

 

O reconhecimento das características próprias e exclusivas da nossa língua se consolidou nas décadas finais do século XX. E agora, no século XXI, já temos à nossa disposição obras produzidas por linguistas, com teorias científicas consistentes, que recorrem aos usos autênticos que fazemos da nossa língua.

 

Obras que já trazem em seus títulos, sem nenhuma ambiguidade, o nome dessa língua, com um marcador que a distingue: Gramática do português brasileiro (Mário Perini, 2010); Nova gramática do português brasileiro (Ataliba T. de Castilho, 2010); Gramática pedagógica do português brasileiro (Marcos Bagno, 2012); Pequena gramática do português brasileiro (Ataliba T. de Castilho e Vanda M. Elias, 2011); Gramática de bolso do português brasileiro (Marcos Bagno, 2013).

 

Algumas pessoas gostariam que a língua já fosse chamada simplesmente de brasileiro. Mas o processo de nomeação das línguas é lento, complexo, depende de muitos fatores sociais, políticos, ideológicos etc.

 

O importante é reconhecer as diferenças, assumir que elas fazem parte incontornável da nossa língua materna, que é o elemento mais poderoso da nossa identidade individual e social, e lutar contra as forças conservadoras que, há tantos séculos, e especialmente agora, insistem em desprezar e condenar tudo o que é nosso, surgido e produzido aqui.

 

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