Blog da Parábola Editorial

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Marcos Bagno é professor da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador associado do Instituto da Língua Galega, da Universidade de Santiago de Compostela. Escritor, poeta e tradutor, se dedica à pesquisa e à ação no campo da educação linguística, com interesse particular no impacto da sociolinguística sobre o ensino. Colabora em diversos...

Marcos Bagno é professor da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador associado do Instituto da Língua Galega, da Universidade de Santiago de Compostela. Escritor, poeta e tradutor, se dedica à pesquisa e à ação no campo da educação linguística, com interesse particular no impacto da sociolinguística sobre o ensino. Colabora em diversos meios de comunicação; é constantemente convidado a fazer conferências e a ministrar cursos no Brasil, na Argentina, no Uruguai, no Paraguai, na Espanha, na Itália, Colômbia e México. Tem diversos livros publicados, entre os quais se destacam A língua de Eulália – novela sociolinguística; Preconceito linguístico. – o que é, como se faz; Português ou brasileiro? Um convite à pesquisa; Língua materna – letramento, variação e ensino; A norma oculta – língua & poder na sociedade brasileira;Nada na língua é por acaso – por uma pedagogia da variação linguística; Não é errado falar assim – em defesa do português brasileiro;Gramática pedagógica do português brasileiro; Gramática de bolso do português brasileiro.

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'Você' e 'eu' não somos pronomes

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A história de qualquer área de conhecimento é a história de como seus termos e conceitos mudaram ao longo do tempo e continuam a mudar. Em livros das mais variadas ciências, encontramos com frequência afirmações do tipo: “Durante muito tempo se acreditou que X, mas essa tese já foi abandonada desde que Y comprovou que Z…”. Ou do tipo: “O termo P foi usado durante muito tempo para definir Q, mas atualmente o termo mais empregado é R”. Um exemplo conhecido é o dos termos que designam as partes do corpo humano. No final da década de 1990, vários desses termos da anatomia receberam uma reformulação: o sistema digestivo passou a ser aparelho digestivo; a trompa de Eustáquio passou a se chamar trompa auditiva; o ouvido — para surpresa de muita gente — agora é uma das partes da orelha; as conhecidas amígdalas (que arrancaram de mim quando criança) agora são tonsilas palatinas; a rótula se chama agora patela.

O que tem isso a ver com o título deste texto: “Eu e você não somos pronomes”? Tem muito a ver. Corre pelas redes digitais um meme (reproduzido aqui), em que um homem, na ilusão de ser amado, pergunta a uma mulher: “Você e eu somos o quê?”, ao que ela responde: “Pronomes”, para decepção do mancebo. Já vi esse mesmo meme em outras línguas, com a mesma ilustração e a mesma resposta. Tentei convencer algumas pessoas de que você (ou tu, dá no mesmo) e eu não são pronomes, mas em vão. A doutrina gramatical tradicional — com seus conceitos e termos — está de tal modo implantada no ADN da cultura linguística ocidental que é dificílimo fazer as pessoas aceitarem mudanças nela. (Eu aprendi que o ácido desoxirribonucleico se chama ADN, porque afinal a gente fala português, mas isso foi no milênio passado, quando o parasitismo linguístico do inglês não estava ainda no nível em que está hoje.)

Para entender por que designar eu e você (e seus plurais) como pronomes é inadequado, precisamos recorrer a dois termos de origem grega: dêixis e anáfora. A dêixis é a propriedade que os elementos linguísticos têm de apontar para a realidade empírica. Quando digo “Leva essa mesa pra ”, o advérbio tem propriedade dêitica: esse só pode ser compreendido dentro do contexto de interação da fala, num momento e lugar precisos. A anáfora, por sua vez, permite a retomada, por um elemento linguístico, de algo que foi dito antes, na fala ou na escrita: “Morei muitos anos no Recife, foi que aprendi a gostar de tapioca”. Agora, o advérbio não aponta para nada na realidade empírica, ele retoma a expressão no Recife, faz referência a algo dito antes. A dêixis aponta para algo que está no contexto, enquanto a anáfora retoma algo que foi enunciado anteriormente no texto.

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Não é mudança linguística. É tragédia social!

Não é mudança linguística. É tragédia social! Mudança linguística ou tragédia social?

De vez em quando, faço postagens em que critico determinados usos de palavras, expressões e construções gramaticais que me parecem ou descabidas ou pedantes ou decorrentes de um domínio insuficiente da escrita mais monitorada, quando não é tudo isso junto. Invariavelmente, aparece algum comentário do tipo “mas isso não é a língua que está mudando?”; “você, que luta contra o preconceito linguístico, não está sendo preconceituoso?”; “por que criticar a mudança linguística?” e por aí vai.

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Existe lógica na língua?

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Dia desses, publiquei uma postagem em que me queixava das pessoas que fazem legendas para filmes e seriados por tentarem evitar a tal “mistura de pronomes” — uma falácia total —– e escreverem coisas como “eu só queria ajudá-lo!” quando é um irmão falando para outro num momento de raiva. Escrevi que o mais natural e autêntico seria “eu só queria te ajudar!”. Eis senão quando uma pessoa argumentou nos comentários: “Pois parece a concordância mais lógica: tu-te, você-o...” Vamos deixar passar a “concordância” (porque não tem nada de “concordância” nesse caso, é correlação pronominal) para nos concentrarmos em lógica. Faz muitos séculos que se enraizou na cultura ocidental a ideia de que existe uma “lógica” na língua e que, por isso, é preciso submeter a língua a essa suposta lógica. A consequência dessa ideia é que, segundo ela, qualquer desvio com relação a essa lógica constitui um erro no uso da língua, língua que deveria ser como um relógio que nunca se atrasa (e na própria etimologia da palavra relógio — o grego horo·logion — está bem escondida a lógica, a “lógica das horas”).

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AS LÍNGUAS E OS NOMES DAS LÍNGUAS

banner_linguas_indigenas a própria ideia do que seja uma língua [...] é um construto cultural ocidental

Herdeiras que somos da assim chamada cultura ocidental (que é, no fundo, a cultura branca europeia de matriz judaico-cristã, forjada essencialmente por homens), temos sido habituadas a acreditar que existem entidades bem delimitadas designadas como línguas, coisas quase concretas, ou mesmo seres com vida própria (ideia cristalizada em frases como “a língua é um organismo vivo” ou em conceitos como “língua morta”). Por isso é tão difícil convencer a maioria das pessoas de que essa noção de língua nada tem de “natural”, porque é um produto intrinsecamente sociocultural e sociopolítico.

Na mesma visão de mundo de matriz europeia, o nome das línguas é sempre a substantivação de um adjetivo vinculado a um território, que pode ser o de um Estado soberano, independente (português, alemão, russo, estoniano, húngaro...) — o que confere à língua um status privilegiado, oficial —, ou ao de uma região dentro de um desses Estados (mirandês, galego, bretão, napolitano, lusácio...) — o que deixa as pessoas que as falam sempre em desvantagem sociopolítica, caso não dominem também a língua oficial. Só me ocorre um caso europeu em que não há esse vínculo território-língua: é o do romanche, falado (por bem pouca gente) na Suíça (numa região chamada Grisões), nome que deriva do latim romanice, isto é, “[falar] à moda de Roma”. Do outro lado da fronteira, no norte da Itália, fala-se o ladino (termo derivado de latino), aparentada ao romanche. Curiosamente, o romanche é a única língua propriamente “suíça”, já que as outras oficializadas no país têm nomes “estrangeiros”: francês, alemão e italiano.

No entanto, do ponto de vista histórico, esse vínculo entre língua e Estado — que, por causa daquele hábito cultural impregnado, nos parece evidente e com uma origem perdida nas brumas do tempo — é um construto sociopolítico relativamente recente, mal tem quinhentos anos. Se recuarmos até o século 5 da Era Comum, chegamos à época do desmantelamento do Império Romano do Ocidente, com a penetração de ondas migratórias de populações vindas de fora dos limites do império (as chamadas “invasões bárbaras”, como se as “conquistas” feitas pelos romanos para a constituição de seu império não tivessem sido também invasões!). A unidade imperial foi substituída por diversos reinos menores, cujas classes dirigentes provinham daquelas populações: godos, suevos, alamânicos, vândalos, francos etc. Com o passar do tempo, essas classes dirigentes adotaram a variedade de latim falada em suas terras, assim como adotaram o cristianismo. Onde o latim nunca tinha sido imposto, as populações dos reinos que se formaram mantiveram suas línguas próprias (caso da Alemanha, da Grã-Bretanha, da Hungria etc.), mas, por também terem adotado o cristianismo, o latim, língua oficial da igreja, se tornou ali a língua de cultura da elite, da justiça e do governo, tanto quanto nas antigas terras imperiais. E assim se passaram mil anos, um longo período que recebe o nome de Idade Média.

Na primeira fase da Idade Média, os reis atuavam como “administradores” de terras, os feudos, bem mais do que como governantes detentores de todo o poder — ao contrário, alguns senhores feudais eram mesmo mais ricos e poderosos que os reis. Naquele período, nem passava pela cabeça das pessoas a ideia de dar nomes a seus modos de falar. Somente o latim recebia o título de língua, e seu conhecimento estava restrito aos homens da igreja e a um punhado de letrados, numa época em que havia até reis analfabetos. As pessoas comuns, especialmente nas áreas onde o latim vinha passando por mudanças graduais, reconheciam uma origem compartilhada em seus modos de falar e praticavam espontaneamente o que chamamos de intercompreensão, ou seja, não viam (nem criavam) dificuldades em se fazer compreender e em compreender as outras, já que não existia o obstáculo simbólico das fronteiras estatais nem, muito menos, das línguas institucionalizadas. As variedades românicas constituíam um continuum dialetal, em que não se podia definir com precisão onde uma terminava e começava outra. Além disso, como a mobilidade da maioria era muito reduzida, as comunicações orais se faziam bem mais entre terras e aldeias próximas, cujas falas eram bastante semelhantes. Em contraposição ao latim, única língua digna do nome, essa pluralidade de falas recebeu mais adiante o nome genérico de romances (o que comprova a consciência que se tinha de serem continuações do latim) ou vulgares (isto é, “do povo”). Em Portugal, a língua da população era chamada linguagem ou nossa linguagem. A variação era considerada absolutamente normal, ao contrário de hoje, em que a variação é vista como “erro”, e a norma (artificialmente estabelecida), vista como a única forma “certa” de uso da língua.

O tempo foi passando e a situação política, econômica, social da Europa foi se transformando até começar a chamada Era Moderna. Foi sobretudo a partir do século 15, com a decadência do sistema feudal e o início do mercantilismo, que começou a se fortalecer o vínculo entre língua e território, território unificado e centralizado em torno da figura do rei (ou, em alguns poucos casos, da rainha), agora, sim, detentor do poder político. A tomada de Constantinopla pelos turcos (1453) e o consequente bloqueio das rotas que permitiam as trocas comerciais entre a Europa e o Oriente simbolizam o início da chamada era dos “descobrimentos” (mais um eufemismo para designar invasões, pilhagens, escravização e genocídios), quando Portugal, Espanha, França, Inglaterra e Holanda, a pretexto de encontrar o chamado “caminho para as Índias”, acabaram se apoderando de imensas extensões de terras mundo afora, iniciando o longuíssimo período colonial moderno — a primeira “conquista” de Portugal foi a cidade de Ceuta, no atual Marrocos, em 1415, enquanto a independência das colônias africanas e de Timor se deu em 1975, ou seja, 560 anos entre uma data e outra, com o “achamento” e a independência do Brasil de entremeio.

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Por que — e para quê — 'Uma história da linguística'?

Uma história da linguística, tomo 1 Uma história da linguística, tomo 2

O linguista romeno Eugeniu Coșeriu (1921-2002) escreveu, num artigo publicado em 1967:

A história da linguística teórica é uma história bem estranha: é muito frequentemente uma história sem continuidade, que só conhece seu passado recente e que ignora seu passado mais distante. Mesmo as teorias mais ou menos conhecidas e discutidas são, com frequência, desconhecidas em suas conexões históricas.

E cita explicitamente o caso de Ferdinand de Saussure (1857-1913), geralmente apresentado nos livros introdutórios à linguística e nos cursos universitários como um pensador em tudo original, que teria formulado uma série de conceitos até então inéditos. Um desses supostos ineditismos seria a definição do signo linguístico como uma entidade essencialmente arbitrária e também binária, por ser a combinação de um conceito (o significado) e de uma imagem acústica (o significante). Desse modo, por exemplo, o conceito {árvore}, que todo ser humano tem em seu arquivo mental, cria, na mente, uma imagem acústica que se exprime vocalmente como tree, para os falantes de inglês; Baum, para os de alemão; mbïra, para os de tupi; dérevo, para os de russo; zuhait, para os de basco etc. O conceito é o mesmo para todas as pessoas (uma ideia problemática, mas não vamos tratar disso aqui), mas ele se expressa de modo diferente em cada língua, o que comprova a arbitrariedade dos signos linguístico (ou seja, em última instância, das palavras).

Para começar a clarear as coisas, vamos ler a seguinte declaração:

Na língua, porém, os agentes fundamentais são seres inteligentes, o material não é apenas o som articulado — que poderia, em certo sentido, ser considerado um produto físico —, mas o som que se torna o significante do pensamento.

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Uma história da linguística, tomo 1

Bagno-BLOG

Uma história da linguística: tomo 1da Antiguidade ao Iluminismo é a primeira obra escrita em português que se propõe retraçar o longo caminho que os seres humanos têm percorrido desde os tempos mais remotos e em diferentes civilizações na busca por decifrar essa faculdade exclusiva da espécie que é a linguagem e sua manifestação, entre outras formas, no que se convencionou chamar língua, essa entidade tão entranhada em nós e ao mesmo tempo tão fugidia que escapa a qualquer definição satisfatória. Este primeiro volume parte da Mesopotâmia, onde se constituíram as primeiras sociedades urbanizadas da história, aborda as reflexões linguísticas empreendidas nas tradições hindu, islâmica e judaica para em seguida se fixar na Europa e nos desdobramentos das teses sobre a língua/linguagem desde a Antiguidade greco-romana até os séculos 17 e 18, depois de passar pela Idade Média e pelo Renascimento. Um segundo volume se dedicará inteiramente ao século 19 até alcançar as duas primeiras décadas do século 20, período em que a linguística vai se constituindo como disciplina autônoma, dotada de teorias e metodologias próprias, capazes de conferir a ela o ambicionado rótulo de ciência.

Pode-se dizer que as reflexões sobre língua e linguagem na tradição ocidental derivam essencialmente das tentativas de dar conta de três principais “problemas”:

(1) a origem (e a natureza) da linguagem e das línguas;

(2) a relação entre linguagem e pensamento;

(3) a mudança linguística.

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Ortografia não é língua!

blog18ABRIL Ortografia não é língua, ok. Mas é gramática?

Início de janeiro, uma amiga compartilhou um meme que dizia assim:

“Vamos parar de falar de política e falar de gramática? Aprenda a diferença entre

empoçado [um patriotário chafurdando na lama depois de um temporal] e empossado [Lula]”.

Por pura implicância jocosa (para isso servem as amigas), eu escrevi que era muito engraçado mesmo, só que não se tratava de gramática, mas de ortografia. Foi a deixa para que eu ficasse empoçado em comentários. Uma pessoa insistiu:

“A ortografia faz parte da gramática”.

Eu retruquei:

“Faz nada!”.

Ela revidou:

“Faz sim!”

Como não dá para explicar quase nada em comentários de rede social, aqui vai (espero) algum esclarecimento.

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LINGUAGEM NEUTRA E FASCISMO

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Num texto breve e de tom moderado (https://www1.folha.uol.com.br/colunas/lygia-maria/2023/02/o-sexo-das-palavras.shtml, Lygia Maria, apresentada como mestre em Jornalismo pela UFSC e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, aborda, pela enésima vez na imprensa só este ano, a questão da linguagem neutra. O título é pouco feliz (“O sexo das palavras”), porque as palavras não têm sexo, têm gênero — e a confusão entre sexo e gênero, como se sabe, é fonte de muitos equívocos ou, pior, de atitudes sociais que, hoje em dia, se vinculam a toda sorte de violência fascista (vide as ameaças de morte que as pessoas trans eleitas para cargos legislativos recebem da parte dos criminosos que se sentiram legitimados em sua ânsia assassina pela ascensão ao poder do maior delinquente da história do Brasil). Mas querer distinguir as duas coisas é cometer “ideologia de gênero”, outra estupidez semeada e regada por esses mesmos criminosos.  

Esses equívocos imperam até mesmo no (nada inocente) ensino de língua. Quantas vezes ouvimos dizer que vaca é o “feminino” de boi? Não é. A noção de gênero, na gramática, se relaciona com a morfologia, isto é, com a formação das palavras da língua (e não com o sexo dos animais). Gata é o feminino de gato, mas vaca não é o feminino de boi: é uma forma supletiva, não deriva da mesma raiz. A esse respeito (e para mostrar que as ideologias que circulam na sociedade estão devidamente impregnadas nos modos de abordar a língua), é interessante observar que, no Dicionário Houaiss, a primeira definição dada a vaca é “fêmea do boi”, enquanto para boi o que se encontra é “designação comum aos mamíferos artiodáctilos do gên. Bos, da fam. dos bovídeos...” etc. Não é curioso que o boi não seja definido como “macho da vaca”? O mesmo dicionário define mulher como “indivíduo do sexo feminino”, sem informar de que espécie (afinal, uma vaca também é um indivíduo do sexo feminino da família bovídea), enquanto homem é “mamífero da ordem dos primatas, único representante vivente do gên. Homo, da sp. Homo sapiens” etc.

Durante dois mil anos, todos os dicionários e gramáticas foram escritos por homens: não admira, portanto, que o masculino tenha sido considerado desde sempre como o básico, o princípio, o óbvio, o natural... a norma. O feminino é que constituía (constitui) um “ponto fora da curva”, um “desvio” ou qualquer coisa assim. O sexismo enraizado em praticamente todas as sociedades ao longo da história, e chancelado pelas grandes religiões, não podia deixar de comparecer no tratamento da linguagem. Já ouviram falar daquela oração dos judeus que começa assim: “Bendito sejas tu, eterno nosso Deus, rei do universo, que não me fizeste mulher”? Pois é... O próprio termo Deus, no masculino, é indício dessa antiquíssima misoginia.

O breve texto de Lygia Maria, sem dúvida bem-intencionado, tropeça em mais de uma concepção tradicional de língua, daquelas que, de tão repetidas, se cristalizaram como verdades quando, de fato, são construtos ideológicos. Afirma que a comunidade LGBTQIAPN+  considera a língua como manifestação simbólica de opressões sociais porque a língua segrega e ofende. Não se trata de “considerar”: a língua é, sim, instrumentalizada para oprimir, discriminar e violentar grupos sociais, etnias e até populações inteiras. A articulista provavelmente não gostaria de se ver apresentada como doutor em Comunicação e Semiótica, como constava até recentemente nos diplomas das mulheres. Foi Dilma Rousseff quem sancionou uma lei (em 2012) que obriga a flexão no feminino dos títulos acadêmicos e profissões. A mesma Dilma Rousseff em torno da qual circulou uma polêmica idiota acerca do uso do termo presidenta, documentado na língua desde 1812. Polêmica falsa porque, de fato, nunca esteve em jogo o tal “amor à língua portuguesa” (como disse, com ar boboca, a ministra Cármen Lúcia, ao se tornar presidenta do STF), mas a mais clara e límpida misoginia, aliada ao reacionarismo visceral da camada letrada da sociedade brasileira (uma mulher na presidência? Yahweh nos livre e guarde!). Misoginia que viceja, aliás, em boas porções da esquerda brasileira (majoritariamente masculina, branca e heterossexual).

Ainda segundo Lygia Maria, a ideia de que a língua segrega e ofende é uma visão apriorística [que] desconsidera os contextos de interação na produção de sentido. E complementa: A mera expressão ‘Bom dia a todos’ não me agride como mulher, já que o masculino no português é genérico. O sentimento de uma só pessoa deve servir de régua para todo o resto da sociedade? Se ela não se sente agredida, good for her! O curioso é que, depois de fazer essa declaração, ela escreve: A língua não gira em torno dos indivíduos. Oxente! Se não gira, por que foi que deu aquele depoimento, individualíssimo, sobre o que sente ou não? E questão principal: por que a forma no masculino tem sentido genérico em português e nas demais línguas românicas? Porque era assim em latim. Tá, mas por que era assim em latim? As estruturas de uma língua não brotam do chão nem caem do céu — são humanas, demasiadamente humanas. Basta lembrar que havia em latim as palavras vir (“ser humano do sexo masculino”, de onde o adjetivo viril e o substantivo virtude, que fala por si) e homo (“ser humano em geral”). Mas como o ser humano do sexo masculino logo foi identificado como o modelo, o protótipo e o arquétipo da espécie humana, o termo homo se generalizou para designar tanto o macho quanto a espécie humana (até na terminologia científica: Homo sapiens). Do acusativo dessa palavra, homine-, é que provém o português homem, e seus equivalentes em outras línguas românicas.

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Aprendi muito com você. Maravilha.
Domingo, 26 Março 2023 23:30
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ESPETACULAR!!!! Ocorre-me uma pergunta, apenas: a linguagem "neutra" não deveria ser chamada de linguagem "inclusiva", uma vez q... Leia Mais
Domingo, 09 Abril 2023 03:12
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Aurélio Buarque de Holanda "Bode (or. Incerta) 01. O macho da cabra" Nada mais a declarar
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 A COISA CELTA

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Marcos Bagno

 

Faz algum tempo, assistindo o noticiário da televisão francesa, ouvi a locutora dizer que o presidente Emmanuel Macron estava de partida para a residência oficial de verão em Brégançon. Esse nome imediatamente acendeu luzinhas na minha cabeça de nerd da geografia e da etimologia. Eu nunca tinha ouvido falar de Brégançon, mas logo deduzi que a semelhança entre Brégançon, na França, Bregenz, na Áustria, e Bragança, em Portugal, não podia ser mera coincidência. E de fato não era. Qualquer foto de Brégançon (como aquela acima, que ilustra este texto) mostra um rochedo à beira do Mediterrâneo, no alto do qual se encarapita um forte que circunda uma bela residência presidencial. Por ser um rochedo alto é que em seu nome aparece a palavra celta briga, que significa “altura, elevação” e daí “fortificação elevada”. Essa palavra celta, por sua vez, provém do indo-europeu *brhergh, “alto, elevado”, que também está na origem do alemão Berg, “montanha”. Como na antiguidade, por razões de defesa contra ataques inesperados, muitas povoações eram fortificadas e construídas em locais altos — colinas, montes, outeiros —, daquela mesma raiz indo-europeia derivam os termos Burg, do alemão, e borough e burgh, do inglês, que, inicialmente, designavam fortes e fortalezas e, mais tarde, “cidade”. O equivalente latino era o castrum, cujo diminutivo, castellum, nos deu castelo, palavra que, antes de designar a morada de um nobre, de um rei ou de uma princesa encantada, nomeava construções fortificadas no topo de alguma proeminência do terreno. O castrum romano está presente em muitíssimos topônimos (nomes de lugar) na Grã-Bretanha, nas formas -caster (Lancaster), -cester (Leicester) ou -chester (Winchester), testemunhos do período em que a ilha esteve sob domínio romano.

Aquela mesma raiz briga aparece em vários outros topônimos na Europa, incluindo localidades do norte da Itália (Briga, Briga Navarese, Briga Marittima e até uma redundante Briga Alta). Mas é na Península Ibérica que eles vão aparecer em maior abundância. A Bragança portuguesa era Brigantia em latim, e a linda cidade galega que hoje se chama Corunha (A Coruña, em galego), era Brigantium para os romanos. Mas é como sufixo que -briga pululava na Antiguidade ibérica: Conímbriga (de onde provém Coimbra), Cetóbriga (atual Setúbal), Lacóbriga (atual Lagos), Langóbriga (atual Logoivra), todas em Portugal; Nemetóbriga (na Galiza), Nertóbriga (na Espanha), Segóbriga (também na Espanha), para citar alguns poucos. 

Da noção concreta de “altura, elevação” derivou, como consequência naturalíssima, o conceito abstrato de “eminente, excelente, excelso, altaneiro” etc. Daí porque daquela mesma raiz celta deriva o nome da deusa Brígida (Brighid em celta), associada ao fogo, à fertilidade, à primavera, nome que está na origem de Bridget, Brigitte, Birgit etc. O nome se popularizou, não por causa da deusa celta, mas de uma santa católica, Brígida da Irlanda ou Brígida de Kildare (452-524), para quem, curiosamente, foram transferidos alguns dos mesmos atributos da deusa “pagã”. Também existiu uma tribo céltica chamada brigantes, que deixou marcas de sua passagem por vários lugares da Europa, desde a Áustria atual até a Inglaterra. Talvez se chamassem assim por se considerarem “altos, excelsos, eminentes” ou porque se estabeleciam em lugares elevados. 

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Visitantes — PATRICIA KONDER LINS E SILVA
Obrigada por tornar fascinante a origem das palavras. Adorei o artigo.
Domingo, 26 Março 2023 23:24
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Toda língua já foi segunda língua

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Marcos Bagno

 

Por que será que as línguas ditas românicas (ou neolatinas) apresentam semelhanças entre si, mas não são idênticas? Se todas são “derivadas do latim”, por que não “evoluíram” todas na mesma direção? O português e o espanhol, por exemplo, vivendo há centenas de séculos lado a lado na Península Ibérica, são tão parecidos e, ao mesmo tempo, apresentam diferenças marcantes — por quê? A resposta é: o português, o espanhol e as outras línguas românicas ganharam suas feições atuais porque foram, numa fase inicial de sua história, segundas línguas das comunidades em que surgiram. Uma segunda língua (ou L2), como o próprio rótulo sugere, não é a língua da socialização inicial de uma pessoa, é uma língua aprendida num período posterior ao da aquisição da chamada língua materna, que seria a primeira língua (ou L1) — vou me valer dessas classificações, embora esses conceitos venham sofrendo reformulações. 

No século 19, quando se firmou a linguística histórico-comparativa, os estudiosos (quase todos alemães) se apoiavam na tese de que as línguas se modificavam “de dentro para dentro”, como organismos vivos que nascem, crescem, amadurecem, decaem e morrem. Contra essa visão organicista (já escrevi sobre isso: https://bit.ly/3Ac48Fn), no final do mesmo século, alguns autores propuseram ver a mudança linguística também como efeito do contato de línguas, isto é, das relações que se estabelecem, por diversas vicissitudes históricas, entre falantes de línguas diferentes.

Poderíamos recuar nosso relato até a pré-história, mas vamos ficar no domínio das línguas românicas para não nos alongarmos além do necessário. Os romanos, em seu expansionismo imperial, levaram o latim para lugares muito distantes de seu Lácio natal. Uma vez conquistada uma região (e seus habitantes), ela recebia o nome de província. Roma enviava para lá um contingente de funcionários imperiais, responsáveis pela administração do território conquistado, guarnições militares, colonos que recebiam terras para cultivar, toda uma gente falante de latim que se estabelecia com suas famílias e servos. Também implantavam nas províncias as diversas instituições que geriam a vida sob o império — templos, tribunais, escolas etc. —, junto com os funcionários que se ocupavam da administração (questores, censores, cônsules, edis…). Construíam aquedutos, rasgavam estradas, fundavam cidades conformes à urbanização típica romana.

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Visitantes — Jacson Aguiar
Qual o nome q se dá ao ato de uma pessoa saber a grafia correta de determinadas palavras mas(proposital e colocadamente) as focali... Leia Mais
Quinta, 01 Setembro 2022 01:20
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Quarta, 14 Setembro 2022 15:14
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NOMENCLATURA, PRA QUE NOMENCLATURA?

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Faz muito tempo (talvez até tempo demais) que linguistas e educadoras lamentamos que o ensino de língua ainda insista nas práticas de classificação das palavras e de análise de frases soltas. Em seu livro Gramática na escola (de 1990, ou seja, 32 anos atrás!), Maria Helena de Moura Neves mostrou que quase 70% do tempo das aulas de português eram gastos com tarefas de análise morfológica e análise sintática, enquanto o desenvolvimento das habilidades fundamentais de leitura, escrita e reflexão linguística era deixado à margem. Essa situação decorre, entre outras causas, do fato de 70% das professoras e professores terem se formado em faculdades particulares, a maioria das quais oferece uma formação de baixa qualidade, pasteurizada, padronizada em apostilas que docentes com péssima remuneração têm que “aplicar” sob vigilância cerrada. No caso de língua portuguesa, não são poucos os cursos que se resumem a levar a pessoa em formação a decorar a tradição gramatical de forma acrítica para “ensiná-la” depois, ou seja, para ensinar “a matéria que ninguém aprende”, como disse Mário Perini em seu livro Sofrendo a gramática (de 1997), já que não serve para nada. 

Essa metodologia de ensino limitada à análise morfológica e à análise sintática remonta a pelo menos mil anos! Embora tivesse deixado de ser falado como língua materna, o latim permaneceu durante séculos como a única língua de cultura, a única que era objeto de estudo sistemático. Sem falantes reais e, principalmente, por ser um modelo artificial de língua literária (o chamado “latim clássico”), só era possível aprender latim pela identificação das classes gramaticais a que pertenciam as palavras e pelo papel que exerciam na sintaxe. Não era possível recorrer a ninguém que tivesse o latim como língua materna quando surgisse alguma dúvida (tal como fazemos hoje quando aprendemos alguma língua estrangeira viva). Não admira que, no período medieval, gramática fosse sinônimo de latim. Quando as línguas faladas nas diferentes regiões da Europa começaram a ser padronizadas, dicionarizadas e ortografizadas (acabei de inventar esse verbo!) e quando, já bem avançado o período moderno, começaram a ser ensinadas, a metodologia de estudo das línguas mortas (latim e grego clássicos) foi transferida tal e qual para o estudo das línguas vivas — um claro equívoco pedagógico que, infelizmente, se perpetua até hoje, e em vários lugares do mundo.

 “A fixação de uma nomenclatura gramatical tenta delimitar fronteiras para entidades que, de fato, circulam alegremente de um lado para o outro.”

O ensino de língua apegado à classificação das palavras, classificação que se faz por meio de uma nomenclatura gramatical, é muito problemático porque os termos empregados são confusos, inexatos quando não simplesmente errados. Além disso, a fixação de uma nomenclatura engessa a reflexão sobre o objeto em análise, tenta delimitar fronteiras para entidades que, de fato, circulam alegremente de um lado para o outro. A história de todas as áreas de conhecimento é, em boa parte, a história das críticas e das revisões das terminologias empregadas em cada especialidade. A definição de classe social, por exemplo, tem evoluído ao longo da história e depende da teoria sociológica em que o termo é empregado, às vezes até de formas conflitantes. No caso da análise linguística, podemos elencar diversos problemas na nomenclatura gramatical que até hoje norteia tanto o ensino de língua quanto a produção de livros didáticos. Vamos ver alguns.

Podemos começar com a definição clássica de substantivo como “palavra que designa os seres em geral”. Para entendermos essa definição necessitamos, previamente, de uma definição de ser — e faz quase três milênios que a filosofia se debate com essa definição. No dicionário Houaiss, por exemplo, aparece esta beleza no verbete ser: “O que existe realmente; aquilo que é”, uma definição que usa o próprio verbo ser (na forma é) para definir o ser. Ora, na frase “vou tomar um banho”, sabemos que banho é um substantivo – mas banho é um ser?

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Normatizar sem prescrever: a utopia do TAMBÉM

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Durante muito tempo nos estudos linguísticos se fez a oposição entre gramáticas normativo-prescritivas e gramáticas descritivas. Uma gramática normativo-prescritiva era aquela que delimitava um conjunto de regras (que constituíam uma norma) para impor essas regras (isto é, prescrevê-las) como as que deveriam ser ativadas pelos falantes da língua quando desejassem se exprimir de forma “correta” ou “elegante” (uma correção e uma elegância que, evidentemente, decorriam dos conceitos e preconceitos sociais do gramático). Essa norma-prescrição se dirigia (desde a Antiguidade) à produção de textos escritos, especialmente literários, ou de manifestações faladas que se “comportavam” como textos escritos (e que eram, quase sempre, oralizações de algum texto escrito previamente). A primeira gramática conhecida no Ocidente, a de Dionísio Trácio (170 aec-90 aec), se abre precisamente com estas palavras: “Gramática é o conhecimento prático do que é comumente expresso na obra dos poetas e prosadores” – ou seja, o vínculo com a produção de textos escritos com finalidades estéticas é assumido sem rodeios. Não por acaso, durante muito tempo se usou o termo língua literária para rotular a norma-prescrição dos compêndios gramaticais. Uma deformação social importante foi o entendimento de que essa língua literária devia servir de padrão de comportamento linguístico para toda e qualquer manifestação da língua, e assim é até hoje, com muitas pessoas criticando usos feitos por outras em situações informais, quase sempre faladas, e cobrando o emprego exclusivo das normas que foram prescritas pela tradição gramatical para a produção de textos escritos formais

Por seu lado, uma gramática descritiva seria obra de linguistas profissionais, que se empenhariam em observar os usos efetivos de uma língua em diferentes situações, descrevê-los e registrá-los, guiados pela pretensão de fazer um trabalho semelhante ao de cientistas como os geólogos, que examinam o universo mineral, descrevem o que encontram ali e documentam seus achados, sem jamais se perguntar se tal rocha que aparece em tal lugar está “certa” ou “errada” por estar ali. Essa pretensão poderia ser rotulada de ingênua porque uma língua é uma entidade de difícil delimitação (o que torna impossível, por exemplo, dizer quantas “línguas” existem no mundo), decorrente da evolução do cérebro humano ao longo dos milênios e enraizada profundamente na vida sociocultural de qualquer indivíduo e de qualquer grupo de indivíduos — ou seja, uma língua não é uma rocha que possa ser descrita com absoluta e total imparcialidade. O linguista é falante de uma ou mais línguas, pertence a uma comunidade de fala e, como tal, está impregnado das crenças, superstições, preconceitos e ideologias que configuram o meio social em que vive. As gramáticas descritivas são instrumentos preciosíssimos para o conhecimento de uma língua (ou de variedades específicas de uma língua) e se espera que sejam produzidas com metodologia rigorosa e com boa fundamentação teórica. Mas o próprio fato de optar por uma teoria ou outra já direciona aquilo que o linguista vai ou não descrever e o modo como vai (ou não) descrever. 

Com o passar do tempo, especialmente a partir da segunda metade do século 20, a dicotomia normativo-prescritiva e descritiva foi reavaliada, sobretudo com o desenvolvimento de disciplinas como a sociolinguística, a sociologia da linguagem, a análise do discurso, entre outras. O pesado estigma acadêmico que recaiu durante muito tempo sobre a gramática normativo-prescritiva começou a ser questionado. Uma das consequências desse movimento foi a separação do termo binário normativo-prescritiva em dois termos distintos: normativa vs. prescritivanormativa ou prescritiva. Embora muitas pessoas possam reivindicar uma liberdade geral e irrestrita para os usos da língua (tô eu aqui de mãozinha levantada), uma visão mais realista dos fatos sociais deixa claro que existe uma demanda social por normas linguísticas: a maioria das pessoas quer (ou querem) saber como se deve(m) comportar socialmente em termos de uso da língua (e o verbo comportar não é gratuito aqui porque a sociologia da linguagem define exatamente os usos da língua como um comportamento). Por exemplo: a maioria das pessoas quer ou queremdeve ou devem? É a esse tipo de pergunta que uma nova concepção de gramática normativa vem se dedicando e tentando oferecer respostas, e uma delas é precisamente sim, uma gramática normativa é algo positivo e necessário. No entanto, como escreveu o linguista francês Alain Rey já nos anos 1970: “Não se trata de rejeitar toda norma — nenhuma sociedade pode abrir mão delas —, mas sim de fiscalizar sua construção com a análise científica, e compreender a atividade normativa, isto é, modificá-la, como um setor da prática social menos inocente do que parece”. Traduzindo: precisamos de uma norma de comportamento linguístico desde que a base de sua elaboração seja o trabalho dos linguistas profissionais. E é aí que o normativo se conjuga com o descritivo: a partir do que se conhece sobre a língua — daquilo que tem sido descrito — é possível construir uma norma realista para responder às demandas sociais que visam o já citado comportamento linguístico.

Nesse sentido, normatizar seria reconhecer e até mesmo legitimar o que já é normal na língua, o que já circula na sociedade, inclusive nas manifestações escritas formais. Gosto sempre de usar como termo de comparação as práticas sociais relativas ao casamento. Durante longuíssimo tempo, o casamento era considerado indissolúvel (… até que a morte os separe…), mas muitos casais se separavam, mantinham as aparências do casamento, mas cada um levava vida independente (muitas vezes até vivendo sob o mesmo teto). Esse comportamento acabou por ser normatizado, isto é, reconhecido por lei, legalizado. O mesmo vale para as relações entre pessoas do mesmo sexo, que vão conquistando aos poucos uma normatização mais do que justa e necessária. 

Assim, por exemplo, uma gramática normativa, não prescritiva, do português brasileiro poderia (ou deveria?) registrar e definir como aceitável em todas as manifestações de uso da língua — incluindo a escrita mais formal — a concordância verbal que aparece nos exemplos abaixo (uma gota d’água no oceano de dados que venho coletando há muitos anos): 

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A distopia da língua única

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Marcos Bagno

Num livro publicado em 1875, o linguista estadunidense William Dwight Whitney (1827-1894) escreveu que o avanço do que ele chamava de “civilização” (leia-se, a de matriz branca ocidental judeu-cristã colonialista) tinha desalojado, ao longo do tempo, “a babel de dialetos discordantes”, de modo que “os homens começam a sonhar com um tempo em que uma língua poderá ser falada por toda a terra. E embora o sonho possa ser utópico, não há nele um só elemento de impossibilidade teórica: somente certa condição de circunstâncias históricas é necessária para torná-lo inevitável” (The Life and Growth of Language, cap. 9).  

Em 1875, os Estados Unidos ainda não eram a superpotência planetária que viriam a se tornar poucas décadas depois daquela publicação, ainda se recuperavam do trauma da Guerra Civil (1861-1865), e a nação mais poderosa era a Grã-Bretanha, cuja política imperialista tinha feito o inglês se expandir mundialmente a partir do final do século 17. O fato de uma potência de língua inglesa ter sido substituída por outra da mesma língua é o motivo por que nos encontramos hoje, nas primeiras décadas do século 21, total, completa e absolutamente subjugados a um imperialismo linguístico sem precedentes na história da humanidade.

"...subjugados a um imperialismo linguístico sem precedentes na história da humanidade."

Sim, a história da humanidade também pode ser contada da perspectiva das línguas que se ergueram acima de muitas outras e se sobrepuseram a elas. No chamado “berço da civilização”, a Mesopotâmia, a língua suméria, mesmo depois de ter deixado de ser falada por volta de 2000-1800 aec, permaneceu como língua literária, erudita e cerimonial da região até o século 1 ec, o que é de fato um longo período. Quando se formou o vasto império persa (550 aec), a língua aramaica passou a ser o veículo de comunicação entre os diferentes povos que o compunham (e assim permaneceu por muito tempo: Jesus Cristo pregou em aramaico). Mais adiante, em consequência dos empreendimentos militares de Alexandre Magno (356-323 aec), o grego se tornou a primeira língua europeia a se expandir para muito além de seu território original e adquiriu o status de idioma da cultura e da política no Egito, na Ásia Menor (atual Turquia) e em todo o Oriente Médio (o Novo Testamento, por exemplo, foi todo escrito em grego por judeus que se achavam sob o domínio político de Roma). Somente a partir do século 7 ec, com a expansão do islamismo, é que o grego perdeu aquele status, tendo sido substituído pelo árabe em todo o Norte da África e no Oriente Médio, enquanto o que sobrava do Império Romano do Oriente (com sede em Constantinopla, atual Istambul, antiga Bizâncio) ia sendo abocanhado progressivamente pelos turcos vindos das planícies da Ásia Central, até a derrota final dos bizantinos em 1453. O árabe, por ser a língua do Corão, exerceu enorme influência sobre as línguas de outros territórios islamizados como a Turquia, a Pérsia (Irã), o Afeganistão, o Paquistão e partes da Índia (o farsi — principal língua do Irã — e o urdu — principal língua do Paquistão —, por exemplo, que não têm nenhum parentesco com o árabe, são grafados com o sistema de escrita desta língua).

"...a história da humanidade também pode ser contada da perspectiva das línguas que se ergueram acima de muitas outras e se sobrepuseram a elas."

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Sobre livros, árvores & etimologias

FAIA Dois nomes diferentes para uma mesma árvore: faia e beech, fagus e *bokjon. Diferentes? Só na casca externa do tronco...

A leitura de um belíssimo livro — El infinito en el junco: la invención de los libros en el mundo antiguo (2020), da escritora espanhola Irene Vallejo — me fez recordar um fato muito interessante: os livros e o mundo vegetal têm relações antiquíssimas que vão muito além do papel de que eles são feitos. Vallejo parte do papiro como mote para reconstituir a história da escrita e da leitura na antiguidade, mas o que me deu vontade de contar é a história das palavras mesmas que designam o livro em diversas línguas. As palavras também têm raízes, quase sempre ocultas no solo profundo do uso cotidiano que a gente faz da língua, e o que vou mostrar, numa rápida jardinagem e com os instrumentos adequados, é de que modo as raízes de algumas palavras se enredam há milênios nas raízes de algumas plantas.

Existe uma árvore típica das terras frias do hemisfério norte chamada faia em português e beech em inglês. O nome faia provém do latim fagea, um adjetivo feminino derivado de fagus, o nome da árvore. Por sua vez, o beech do inglês descende de *bokjon, um termo do proto-germânico, uma língua hipotética da qual derivam todas as línguas do grupo a que pertencem o inglês, o alemão, o sueco, o islandês etc., e que deve ter sido falada mais ou menos a partir de 2000 antes da Era Comum (o asterisco em *bokjon indica que ele não é um termo atestado, documentado em alguma fonte, mas reconstruído por meio de uma metodologia desenvolvida por linguistas do século 19, da qual vou dar uma palhinha logo a seguir).

Dois nomes diferentes para uma mesma árvore: faia e beech, fagus e *bokjon. Diferentes? Só na casca externa do tronco porque, lá no fundo, nas raízes que a gente não vê, porque estão enterradas no solo do tempo, esses dois nomes são aparentados, primos-irmãos. A semelhança é percebida justamente por quem pratica a chamada linguística histórico-comparada, uma disciplina que floresceu no já mencionado século 19, especialmente em terras de língua alemã. O objetivo dos linguistas de então era estabelecer o parentesco entre as línguas que passaram a ser chamadas, naquela mesma época, de indo-europeias porque, como diz o nome, eram faladas desde a Índia até Portugal, no extremo ocidental da Europa (muitos séculos mais tarde, com a expansão colonialista, quatro dessas línguas seriam levadas para o resto do planeta e impostas literalmente a ferro e fogo a outros povos: português, espanhol, inglês, francês e neerlandês). A hipótese de base é a de que, por volta de 5000 antes da Era Comum, em algum lugar entre a Europa e a Ásia, provavelmente nas estepes entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, existiu uma língua que, por causa das diversas migrações de seus falantes em diferentes direções, acabou por se transformar em dezenas de outras. Essa língua pré-histórica foi chamada indo-europeu e sua reconstituição, graças ao método comparativo, dominou praticamente toda a linguística oitocentista.

Não dá para explicar o método histórico-comparativo aqui (quem tiver interesse pode ler com proveito o livro Linguística comparada e tipologia, de Giulia Bossaglia, https://www.parabolaeditorial.com.br/linguistica-comparada-e-tipologia), mas uma das muitas regularidades que os pesquisadores estabeleceram (regularidades que foram chamadas de “leis fonéticas”) é que de um *bh- inicial do indo-europeu pré-histórico deriva um b- nas línguas germânicas e um f- em latim. Três exemplos:

(1) da raiz indo-europeia *bheue- derivam o inglês be (‘ser’) e o latim fui (‘fui’, do verbo ser) e também o fu- de futurus (‘futuro’);

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Posso lhe falar sobre o "lhe"?

Capturar2 A palavra mágica aqui é

Marcos Bagno

Há pouco tempo vi uma postagem numa rede social em que um anjo perguntava a Deus se era possível castigar os seres humanos “sem causá-los muito mal”. Onde se esperaria um “lhes” (mas quem é esse “se” que esperaria?), causar-lhes, aparece um “los”, causá-los. A gente vê coisa semelhante quando as pessoas dizem e escrevem agradecê-lo pelo convite ou isso o permite fazer tal coisa. Para quem estuda a mudança linguística esse fenômeno é um prato cheio.

Uma coisa que diferencia radicalmente o português brasileiro do português europeu e, de resto, de todas as outras línguas românicas é o tratamento que damos aos chamados pronomes pessoais. Em tempo: quando nós linguistas empregamos o nome de uma língua sem outra especificação, como acabei de fazer, estamos nos referindo à língua falada habitualmente, em seus empregos mais espontâneos, menos monitorados (isto é, sem que a pessoa preste excessiva atenção ao que está dizendo e principalmente a como está falando). Na sociolinguística variacionista, essa variedade falada recebe o nome de vernáculo e é a menina dos olhos da pesquisa sobre mudança linguística. Por quê? Porque é na fala habitual, não monitorada, que nós, falantes, deixamos vir à tona tranquilamente as formas inovadoras, que representam estágios diferenciados da mudança.

O que faz surgir essas forças inovadoras? Uma série de fatores que não posso explicar aqui (mas, para quem se interessar, vêm explicados no meu livro Língua, linguagem, linguística: pondo os pingos nos ii, Parábola, 2014). O que interessa é saber que os processos de mudança ocorrem nesse vernáculo, nessa fala não monitorada. Foi falando sem parar que as pessoas, nas diferentes áreas do antigo império romano, remodelaram o latim, até ele ficar tão diferente em cada região que passou a receber outros nomes. Um latim, aliás, que era essencialmente falado e, portanto, muito diferente desse modelo de língua esculpido em mármore que é o que se ensinava antigamente nas escolas e ainda se ensina nas universidades. Um latim chamado vulgar que, como o próprio nome indica, era falado por pessoas comuns e não por poetas e oradores. Também, como toda língua humana, apresentava enorme variação de um lugar para o outro, de uma classe social para outra etc. Desse modo, é divertido ver que tanta gente que “defende o português” da “ruína” e da “corrupção”, que quer conservar a língua na sua “pureza”, não sabe (ou quando sabe, finge que esqueceu) que o português é a evolução de uma língua vulgar, repleta de “erros”, falada por gente simples, iletrada e que, em muitíssimos casos e nas primeiras gerações, falava o latim como segunda língua. Enquanto em latim “clássico” se dizia domus, equus, os, em latim “vulgar” se dizia casa, caballus, bucca, de onde provêm, obviamente, casa, cavalo e boca. Mas vamos voltar ao lhe.

 

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História política e gramatical dos pronomes

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Você sabe como se dizia ele e ela em latim clássico? Não se dizia. Isso mesmo, no latim clássico não existiam pronomes da chamada “terceira pessoa” (que é, na verdade, uma “não-pessoa”, já que não participa do discurso). De fato, mundo afora, existem centenas de línguas que não têm pronomes específicos para designar aquilo que é o “assunto” do qual a primeira e a segunda pessoa falam. A língua pré-histórica da qual deriva a maioria das línguas europeias, o chamado protoindo-europeu, não tinha pronomes para a não-pessoa. Justamente por não ser uma pessoa do discurso é que esses pronomes podem ser dispensados, além de poderem se referir a toda e qualquer coisa no mundo real ou imaginário, ao passo que eu e tu/vocêsó podem se referir a pessoas (ou a coisas personificadas). Eu e tu/você se atualizam no contexto de interação, enquanto ele/ela são elementos de um texto

Um fato muito interessante é que, em muitas e muitas línguas que apresentam pronomes de “terceira pessoa”, esses pronomes derivam de demonstrativos. Os pronomes he, she e it do inglês, por exemplo, remontam a demonstrativos indo-europeus, ou seja, significavam, lá por volta de 5.000 antes da Era Comum, “este”, “aquela”, “isso”. E o mesmo se dá com nossos ele/ela e seus plurais: derivam dos demonstrativos latinos ille/illa, que significavam originalmente “aquele”/“aquela”. É a mesma origem do romeno el/ea, do italiano egli/ella, do francês il/elle, do catalão el/ella, do espanhol él/ella, do galego ele/ela... A passagem de demonstrativo a pronome pessoal (um fenômeno chamado gramaticalização) é fácil de imaginar. Para deixar claro a quem (ou a que) estava se referindo, no discurso, a pessoa empregava o demonstrativo para dar ênfase a essa referência. Além disso, com as transformações sofridas pelo latim nos diferentes lugares onde, bem mais tarde, ele passaria a ser designado com outros nomes (galego, português, espanhol, francês etc.), o -t característico dos verbos da “terceira pessoa” (amat, amabat, amauit, amet etc.) desapareceu, de modo que uma forma amaba (“amava”) podia ser interpretada como “eu amava” ou “ele/ela amava” (porque também tinha caído o -m característico da primeira pessoa, amabam). Desse modo, razões de ordem discursivo-pragmática (enfatizar a referência ao que foi dito anteriormente e evitar ambiguidade nessa referência) acabaram enfraquecendo o caráter demonstrativo de ille/illa e transformando-os em pronomes pessoais. Veja que até hoje usamos este/esta e aquele/aquela para nos referirmos, sobretudo na escrita formal, ao que foi apresentado antes, em geral para evitar uma possível ambiguidade: “Na sexta-feira passada, a CPI do genocídio ouviu os irmãos Luís Cláudio e Luís Ricardo Miranda. Este, servidor concursado do Ministério da Saúde, forneceu mais uma prova de que o atual governo brasileiro é o mais corrupto e abjeto da história do país, disposto a obter lucros pessoais com a morte de centenas de milhares de pessoas”. 

Em resumo: nas variedades faladas do latim imperial (também chamado “latim vulgar”) surgiram pronomes pessoais para a chamada “terceira pessoa”, descendentes de ille  e illa que resultaram em ele ela, no caso do galego e de seu filho pródigo, o português. E como foi que surgiram? Surgiram porque as pessoas que falavam essas variedades sentiram a necessidade desses elementos gramaticais para levar adiante de forma satisfatória a interação social por meio da linguagem. Porque, nunca é demais repetir, não é “a língua” que se transforma, não é “a língua” que cria ou elimina o que quer que seja: são os indivíduos, as pessoas, as e os falantes que transformam a língua, que criam inovações ou eliminam o que já não lhes parece necessário. As gerações anteriores à nossa é que eliminaram o vós e criaram você/vocês. A geração mais nova que a minha está substituindo alegremente nós por a gente (não sou eu que “acho” isso: pesquisas feitas há cinquenta anos mostram essa transformação). Os pronomes oblíquos o/a/os/as não pertencem à nossa língua materna, deixaram de ser usados por aqui há bem dois séculos...

“não é “a língua” que se transforma, não é “a língua” que cria ou elimina o que quer que seja: são os indivíduos, as pessoas, as e os falantes que transformam a língua”

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Visitantes — Thais
Muito bom!! Encontrei o texto por uma busca no Google: "existem línguas com outros pronomes pessoais?" E encontrei esta maravilha!... Leia Mais
Quarta, 24 Mai 2023 15:36
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A língua não é um organismo vivo!

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Um argumento que aparece com frequência quando as pessoas querem criticar o discurso purista que vocifera contra as mudanças e as inovações na língua é dizer que a língua é um “organismo vivo” e, por isso, está sempre em transformação, “evoluindo”. A militância contra o purismo é sempre bem-vinda, até porque o reacionarismo linguístico é com frequência a face visível de uma concepção de sociedade em que os indivíduos ou os grupos sociais também são classificados como “certos” e “errados”, “bons” e “ruins”, “santos” e “pecadores” etc. No entanto, por mais bem intencionada, essa comparação da língua com um organismo vivo presta mais desserviço do que ajuda. Como sempre, um pouco de história faz bem.

Durante uns bons dois mil anos, desde a filosofia grega mais antiga, a maior parte das reflexões sobre as línguas no Ocidente se articularam em dois eixos: a gramática e a lógica. Os antigos acreditavam que o funcionamento da mente (psyche) estava refletido no funcionamento da língua (logos), que por sua vez refletia o funcionamento do mundo natural (physis), que refletia por fim a organização do universo (kosmos). Nossos antepassados gregos eram fãs da simetria (palavra grega, aliás), e tentavam encontrá-la em todos os aspectos da vida, do visível, do invisível, do falável e do pensável. Mas também tinham um grande apreço pela correção, pela forma justa e perfeita das coisas, uma ideia contida na palavra orthos (“reto, correto”) que encontramos em palavras como ortografia, ortodoxia, ortodontia etc. Desse modo, não interessava a eles estudar a língua e a mente em todas as suas modalidades de funcionamento, mas somente naquilo que fosse considerado correto, claro, bem definido etc. Daí surgiram as disciplinas chamadas gramática, que define o que é certo na língua, e lógica, que define o modo certo de raciocinar. A gramática seria então a lógica da língua, enquanto a lógica seria a gramática do raciocínio. Essa concepção das coisas é tão bonita, tão bem esculpida que a gente acaba se apaixonando por ela e esquecendo que é falsa. E é falsa justamente porque é normativa, isto é, não se interessa pelo que as coisas são, mas pelo que elas deveriam ser, segundo concepções muito restritas, condicionadas pelo lugar, pela época, pelas crenças, pelas divisões sociais etc.

Uma coisa interessante na palavra lógica é que ela deriva de logos, um termo cujos sentidos foram se complicando com o passar dos séculos, mas que, em sua origem mais original, mesclava pensamento e linguagem: o logos era “palavra”, mas também “razão”. De fato, já na Grécia clássica (séculos 5 a 3 antes da nossa era), logos era o “enunciado dotado de sentido” (e no grego bíblico se tornou nada menos que a Palavra divina, o Verbo divino). Aqui se vê bem a ideia de que língua e pensamento (logos e... logos) eram o verso e o reverso de uma mesma folha de papel. 

Essa associação gramática-lógica imperou durante muitos e muitos séculos. Foi abandonada na linguística moderna, mas suas raízes estão bem firmes no senso comum, contaminado pelo vírus da normatividade. Muita gente condena determinadas construções sintáticas porque estariam contrariando a “lógica” da língua. Eu não posso dizer “vou ir” porque isso fere essa tal lógica, afinal “vou” já tem em si a ideia de “ir”. Mas essa é uma análise furada, aliás nem análise é. O vou de “vou ir” é uma mera partícula indicadora de futuro, já se esvaziou semanticamente da ideia de “ir”. Engraçado é que ninguém vê como “ilógicas” construções como “vou voltar” ou “vou ficar”. Enfim, essa é a primeira definição equivocada de língua que se fixou no imaginário ocidental: a língua como um conjunto de “regras lógicas”. De resto, o importante linguista francês Émile Benveniste (1902-1972) mostrou que a lógica clássica era simplesmente uma transferência, para a análise do raciocínio, das categorias gramaticais da língua grega. Se Aristóteles falasse húngaro, tupi ou malaio, sua lógica seria completamente diferente!

Toda essa longa tradição vai ser abalada e abandonada em boa parte no século 19, quando nasce a ciência chamada linguística. A constatação definitiva de que a maioria das línguas faladas na Europa eram aparentadas entre si e também tinham vínculos genéticos com muitas línguas faladas no atual Irã e na Índia, entre outros lugares, revolucionou os estudos linguísticos. Uma ciência, pensavam os linguistas do século 19, tem que se interessar por tudo o que existiu e existe numa língua, independentemente de ser certo ou errado, bonito ou feio, “lógico” ou “ilógico” etc. Nisso tentaram acompanhar os outros cientistas, cuja áreas específicas começavam também a se constituir naquele período: um geólogo não vai estudar só as pedras preciosas ou as que ele considera mais bonitas, vai estudar todos os fenômenos que dizem respeito ao mundo mineral. Foi desse modo que a gramática foi substituída pela linguística, enquanto a antiga lógica clássica foi substituída pela psicologia, a ciência que se interessa por tudo o que se processa na mente humana, e não apenas pelos modos de raciocínio corretos, regrados etc. Mas a entrada em cena da psicologia como auxiliar da linguística só aconteceu no final do século 19, lá pelos anos 1870. Antes dela, quem fez um belo estrago na linguística foi a biologia ou, melhor, uma apropriação bem indevida da biologia...

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Visitantes — Jocilene
Excelente
Quarta, 21 Abril 2021 11:53
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Hermann Paul, pioneiro da linguística moderna

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A narrativa dos progressos científicos precisa ser periodicamente reavaliada, criticada e, se for o caso, refeita. Afinal, como diz o provérbio, quem conta um conto aumenta um ponto, e esse ponto vem sempre desenhado pela inescapável ideologia. E foi bem isso o que aconteceu na virada do século 19 para o 20. E, ao contrário do clássico de Marx e Engels, A ideologia alemã, aqui vamos falar de uma ideologia antialemã.

Em 1864, a Prússia (ancestral da Alemanha) promoveu uma guerra contra a Dinamarca, da qual saiu vitoriosa. Em 1866, venceu a Áustria em outra guerra. E em 1870-1871, foi a vez de combater a França, que se viu derrotada e humilhada com a ocupação de Paris. Mais adiante, a Alemanha, já unificada, promoveu a Primeira e, bem depois, a Segunda Guerra Mundial. Tudo isso fez surgir e crescer, na Europa ocidental, um forte sentimento antigermânico. Ora, o século 19 foi totalmente dominado, no campo dos estudos linguísticos, por estudiosos de língua alemã. Isso se deveu, em boa parte, ao desenvolvimento de um importante sistema universitário, que resultou na institucionalização de diversas áreas do conhecimento, entre elas a Sprachwissenschaft, “ciência da linguagem”, que em outros idiomas veio a se chamar linguística. Há exatos duzentos anos, em 1821, o grande pioneiro dos estudos histórico-comparatistas, Franz Bopp (1791-1867), se tornou o primeiro ocupante de uma cátedra de linguística numa instituição acadêmica, a recém-fundada Universidade de Berlim. Enquanto em outros países os intelectuais e cientistas tinham de se virar sozinhos para pesquisar e publicar seus trabalhos (pensemos, por exemplo, em Darwin, que nunca atuou numa universidade), em terras alemãs, a instituição universitária lhes garantia boas condições de trabalho e de subsistência. Assim, os nomes que brilharam na linguística do século 19 compõem uma lista quase toda de sobrenomes alemães: Schlegel (dois irmãos), BoppHumboldtSchleicherGrimm (dois irmãos), BenfeyPottMüllerSchuchardtOsthoffBrugmannCurtiusSieversPaul e por aí vai. Mesmo os não alemães que se destacaram nesse campo fizeram seus estudos na Alemanha, como o estadunidense William D. Whitney e, claro, o suíço Ferdinand de Saussure.

É fácil então levantar a hipótese (tão ideológica quanto qualquer outra) de que os estudiosos da linguagem, no início do século 20, queriam se desembaraçar do predomínio alemão, desejo que refletia o impregnado sentimento antigermânico que mencionei acima. Quando, em 1916, os alunos de Ferdinand de Saussure publicaram o Curso de linguística geral, aquele desejo pareceu milagrosamente satisfeito: quem melhor do que um recatado professor suíço (ou seja, da terra da “neutralidade”) de língua francesa para ser mitificado como o “pai da linguística moderna”, um pensador cuja (suposta) originalidade faria a linguística alemã do século anterior se tornar obsoleta e anacrônica da noite para o dia? Não admira que somente a partir da segunda edição do Curso, em 1922 (ou seja, no período entre as duas guerras mundiais), o livro que Saussure não escreveu tenha começado a ser visto como a bíblia da tal linguística moderna. E assim tem início a narrativa laudatória que até hoje todos escutamos (e reproduzimos) em nossas aulas de introdução à linguística de tantas e tantas universidades. No entanto...

No entanto, no subsolo do Curso de linguística geral se agitam, invisíveis, as verdadeiras fontes das teses apresentadas na obra como originais e inovadoras, fontes que, entretanto, nunca são mencionadas (o livro nem sequer traz uma bibliografia no final!). E uma das mais notáveis dessas fontes é a obra do linguista (surpresa!) alemão Hermann Paul (1846-1921), cujo centenário de morte se completa este ano. O livro que Paul, sim, escreveu e publicou em 1880, Prinzipien der Sprachgeschichte (“Princípios de história da língua”), foi, durante quarenta anos, a leitura obrigatória, o manual básico para qualquer pessoa que se aventurasse nos estudos linguísticos. Fosse para adotar a teoria ali exposta ou para rejeitá-la, a obra de Paul se tornou incontornável. O livro teve três edições posteriores (1886, 1898 e 1920), sempre com acréscimos e retificações, o que demonstra o desenvolvimento constante do pensamento do autor. 

Quando comparamos os Prinzipien de Paul com o Curso atribuído a Saussure, o que logo chama a atenção é a profundidade e a sofisticação das teses de Paul, que contrastam com a pobreza e a superficialidade de temas abordados no Curso. De fato, o Curso não vai além de uma linguística da palavra (o tal signo linguístico que, ao fim e ao cabo, a gente nunca sabe exatamente o que é), enquanto Paul dedica vários capítulos ao estudo da morfossintaxe, que é o núcleo duro do estudo do funcionamento das línguas humanas. A crítica textual acaba também por revelar, no Curso, um grande número de paráfrases, quando não de traduções literais do que aparece no livro de Paul publicado, é sempre bom lembrar, 36 anos antes. Vamos mostrar apenas algumas delas.

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Comentários Recentes neste post
Visitantes — Leandra Cristina De Oliveira
Impressionante a capacidade de trazer uma riqueza de informações em um texto suscinto, claro e atrativo. Grata!
Domingo, 28 Fevereiro 2021 14:03
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Norma culta para quem, cara-pálida?

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O debate em torno da norma linguística no Brasil está inevitavelmente vinculado ao tipo de sociedade que é a nossa, de modo que, na prática, fica impossível tratar de temas relacionados à língua sem tratar, junto com eles, de fatores socioeconômicos e, por tabela, políticos. Isso vale, claro, para todas as sociedades humanas, porque as línguas são, por sua própria natureza sociocultural, campos de batalhas permanentes, mas em cada uma delas os conflitos linguísticos assumem características próprias, específicas à formação histórica e à estrutura social de cada lugar. Num país marcado por alguns dos índices de desigualdade e injustiça mais perversos do planeta, o que vou chamar aqui de debate normativo (melhor talvez fosse embate, já que falei de campos de batalha) tem que se articular com o exame atento da nossa estrutura social.

Depois da assim chamada independência, em 1822, a reduzida elite intelectual — masculina, branca e escravagista — se divertiu com a chamada “questão da língua brasileira”, um jogo de salão que, por isso mesmo, nunca alterou de fato as relações sociolinguísticas do país: o padrão vigente em Portugal, de inspiração literária “clássica”, preservou seu estatuto de única forma de língua “certa” (ou “legítima”, conforme a definição de Pierre Bourdieu), de único objeto de ensino, até porque o ensino era privilégio daquela mesma reduzida elite. A ideia de que a imensa maioria da população brasileira falava “errado” não sofreu abalo — sobretudo porque essa imensa maioria era afrodescendente, o que já a relega(va) ao subsolo da pirâmide das classes sociais, e seus modos de falar eram considerados, logo (e literalmente) de cara, toscos e indignos do rótulo de “língua”.

Um século depois, com os modernistas, ressurgiu o desejo de valorizar o português brasileiro, principalmente em suas características “populares”. Não por acaso, o principal porta-voz desse desejo foi Mário de Andrade (1893-1945), mestiço e homossexual, minoria absoluta num meio intelectual, mais uma vez, essencialmente branco, heteronormativo e de classe média para alta. Mas foi um movimento de literatos, não de pessoas dedicadas especificamente ao estudo das línguas (aqui, de novo, se destaca Mário que, além de poeta, romancista e contista, também se dedicou a pesquisas etnográficas sobre as manifestações culturais brasileiras de todas as regiões, com destaque para as de matriz indígena e africana).

Dando um salto no tempo, chegamos ao final da década de 1960, muito importante para os estudos ditos “científicos” das línguas, uma vez que a disciplina Linguística foi introduzida nas principais universidades do país em 1961. Com isso, o debate normativo adquiriu um caráter novo, pois deixou de ser reservado aos filólogos de formação tradicional, aos gramáticos prescritivistas, e se abriu para discussões embasadas nas teorias linguísticas que vigoravam na época (estruturalismo clássico, bem consolidado, e estruturalismo gerativista e sociolinguística, em seus primórdios). Em 1969 tem início o Projeto NURC (Norma Urbana Culta) que visava descrever as variedades urbanas do português brasileiro, tendo como informantes as pessoas consideradas “cultas”, isto é, nascidas e criadas em grandes ambientes urbanos e com curso superior completo. O enorme volume de dados acumulados pelo NURC permitiu, décadas depois, a produção da Gramática do português culto falado no Brasil, um empreendimento monumental, levado a cabo por dezenas de linguistas de diferentes centros de pesquisa e de diversas filiações teóricas.

A verificação empírica das profundas diferenças existentes entre o padrão normativo convencional e a língua realmente empregada pelas pessoas cultas levou várias e vários linguistas a questionar a validade daquele padrão como objeto e objetivo do ensino de língua na escola. Se existe uma autêntica norma culta brasileira, por que não fazer dela a base de uma nova educação linguística no país, decerto mais democrática, uma vez que essa norma era bem menos “estrangeira” à cidadã e ao cidadão comuns do que o anacrônico padrão, tão apegado à língua literária e à fala portuguesa?

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Quem rege a regência verbal?

regência

AGRADECER E PERMITIR

Regência é um termo da doutrina gramatical que significa a dependência existente entre duas palavras numa construção, de modo que uma complementa a outra. Uma das palavras “manda” na outra, por isso se usa o verbo reger, que é o que fazem (ou faziam) os reis. Por exemplo, o verbo servir pode reger as preposições a (“ele serve à causa da milícia, à qual pertence”), de (“o presidente serve de pau-mandado ao empresariado que quer destruir os direitos trabalhistas”), para (“o atual presidente só serve para ser jogado no lixo da história”), ou preposição nenhuma (“ele serve mentiras e embustes a seu gado cativo, que zurra e aplaude”).

Os nomes e os adjetivos também regem preposições (opção por; suscetível de; compromisso com; dependência para com etc.), mas é a regência verbal a que sempre tem merecido mais atenção da parte da tradição gramatical e das instâncias normativo-prescritivas: qual é a gramática ou livro didático que não traz sua tabela de regências verbais “corretas”? Tabelas, aliás, que se repetem há décadas, prova evidente de que, se uma regra gramatical não encontra eco na intuição linguística das falantes, é porque a língua mudou, e não adianta tentar ressuscitar pterossauros fossilizados.

Sim, as regências verbais mudam, como muda tudo o que existe na língua com o passar do tempo, por obra e graça do uso intenso e ininterrupto que cada uma de nós e todas nós juntas fazemos dela. Muito tempo atrás, por exemplo, se dizia “resistir o inimigo” e não “resistir ao inimigo” como dizemos agora. O mesmo com “perguntar alguém”, “merecer de alguma coisa”, “jurar de alguma coisa” entre várias outras que hoje soam estranhíssimas aos nossos ouvidos.

Por que a língua muda? Porque não é a língua que muda: somos nós, falantes, que mudamos a língua. E por que mudamos a língua? Porque nós não falamos a língua simplesmente: o tempo todo, nós analisamos e reanalisamos a língua que falamos – sem ter consciência disso, é claro. Fazemos inferências, deduções, abduções, metáforas, metonímias, analogias, hipercorreções, gramaticalizações… toda uma coleção de processamentos cognitivos que são misteriosamente ativados e compartilhados por toda a comunidade falante. O que uma tradição empedernida insiste em chamar de “erro” é, de fato, o resultado de algum ou mais de um desses processamentos. E a água mole da mudança vai batendo tanto na pedra dura da norma-padrão (ou pedrão?) tradicional até que ela se fura e deixa escoar a novidade: os bons dicionários aceitam hoje em dia sem problema a regência “o artigo visa discutir o problema...” sem o a da regência mais antiga (“o artigo visa a discutir o problema...”), a regência implicar em, namorar com, e falta um fio de cabelo para aceitar de vez o assistir o filme (espero ainda estar no planeta para assistir esse espetáculo!).

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