Blog da Parábola Editorial

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Por que — e para quê — 'Uma história da linguística'?

Uma história da linguística, tomo 1 Uma história da linguística, tomo 2

O linguista romeno Eugeniu Coșeriu (1921-2002) escreveu, num artigo publicado em 1967:

A história da linguística teórica é uma história bem estranha: é muito frequentemente uma história sem continuidade, que só conhece seu passado recente e que ignora seu passado mais distante. Mesmo as teorias mais ou menos conhecidas e discutidas são, com frequência, desconhecidas em suas conexões históricas.

E cita explicitamente o caso de Ferdinand de Saussure (1857-1913), geralmente apresentado nos livros introdutórios à linguística e nos cursos universitários como um pensador em tudo original, que teria formulado uma série de conceitos até então inéditos. Um desses supostos ineditismos seria a definição do signo linguístico como uma entidade essencialmente arbitrária e também binária, por ser a combinação de um conceito (o significado) e de uma imagem acústica (o significante). Desse modo, por exemplo, o conceito {árvore}, que todo ser humano tem em seu arquivo mental, cria, na mente, uma imagem acústica que se exprime vocalmente como tree, para os falantes de inglês; Baum, para os de alemão; mbïra, para os de tupi; dérevo, para os de russo; zuhait, para os de basco etc. O conceito é o mesmo para todas as pessoas (uma ideia problemática, mas não vamos tratar disso aqui), mas ele se expressa de modo diferente em cada língua, o que comprova a arbitrariedade dos signos linguístico (ou seja, em última instância, das palavras).

Para começar a clarear as coisas, vamos ler a seguinte declaração:

Na língua, porém, os agentes fundamentais são seres inteligentes, o material não é apenas o som articulado — que poderia, em certo sentido, ser considerado um produto físico —, mas o som que se torna o significante do pensamento.

Essas palavras caberiam perfeitamente no Curso de linguística geral, publicado em 1916 sob o nome de Saussure, até mesmo pela presença do termo significante. Elas estão impressas, no entanto, no livro The Life and Growth of Language, publicado em 1875 pelo estadunidense William Dwight Whitney (1827-1894), autor (sumariamente) citado no Curso de linguística geral, mas deixado de lado nos manuais introdutórios da disciplina, que se concentram obsessivamente nas dicotomias “saussurianas” (língua/fala, significante/significado, relações sintagmáticas/relações associativas, sincronia/diacronia), que, nas palavras do mesmo Coșeriu, são “distinções todas que Saussure encontrou na tradição” e que, portanto, “ele não foi o primeiro a formular”. Pergunte a qualquer pessoa formada em Letras se já ouviu falar de Saussure: a resposta, provavelmente, será positiva em cem por cento dos casos. Pergunte se já ouviu falar de Whitney: a resposta positiva será tão rara (se existir) que nem vai conseguir aparecer na curva estatística.

Isso demonstra claramente a necessidade de conhecer o percurso das ideias sobre língua e linguagem ao longo dos séculos, ou seja, a necessidade de conhecer a História da linguística. A tese da arbitrariedade do signo é um caso exemplar. Consultando um site chamado Glottopedia (http://www.glottopedia.org/index.php/Arbitrariness_of_the_sign), que tem como subtítulo “Discovering Linguistics” (“Descobrindo a linguística”), encontrei a seguinte formulação no verbete “arbitrariness of the sign”, que aqui traduzo:

A arbitrariedade do signo é uma propriedade central da linguagem natural (quando vista como um sistema de signos) enfatizada pelo estruturalismo europeu inicial, especialmente por Ferdinand de Saussure. Os signos linguísticos são arbitrários na medida em que não existe nenhum vínculo direto entre a forma (signifiant) e o sentido (signifié) de um signo.

Aparece o nome de Saussure e uma referência ao estruturalismo inicial, supostamente inaugurado por ele, mas nenhuma remissão à tradição mencionada por Coșeriu. Para explicitar esse problema, vamos acompanhar essa tradição em cronologia reversa, isto é, de 1916 para trás, começando justamente por Whitney, fonte imediata de muitos conceitos atribuídos a Saussure.

Whitney publicou dois livros de divulgação científica: Language and the Study of Language (1867) e o já citado The Life and Growth of Language (1875). No primeiro livro, o adjetivo arbitrary (‘arbitrário’) aparece trinta vezes, quase sempre em relação a sign (‘signo’), enquanto no segundo livro são treze vezes. Um exemplo entre muitos, da primeira obra:

Toda forma existente de fala humana é um corpo de signos arbitrários e convencionais para o pensamento, transmitido pela tradição.

Para Whitney, a língua só existe “nas mentes e bocas daqueles que a usam”, uma conceitualização binária em que “mente” está para significado assim como “boca” está para significante.

Se de Saussure “pulamos” para Whitney, qual será a próxima parada nessa história contada em marcha a ré? Whitney, como autor de língua inglesa (ao contrário da imensa maioria dos linguistas importantes do século 19, que eram alemães, sendo ele o único nome de destaque do lado de cá do Atlântico), sofreu forte influência do filósofo inglês John Locke (1632-1704), um dos principais representantes da corrente filosófica chamada empirismo, que se opunha ao racionalismo. Em seu famoso Ensaio acerca do entendimento humano (1689), Locke dedica todo um capítulo à linguagem, e é ali que se pode ler:

Mas, na medida em que as palavras são de uso e significado, na medida em que há uma conexão constante entre o som e a ideia, e uma designação de que um significa a outra, sem isto a aplicação delas [das palavras] nada mais seria que ruído sem significado. Seu significado, perfeitamente arbitrário, não é consequência de uma conexão natural.

O vínculo entre Whitney e Locke, portanto, é claríssimo e, de novo, temos o par som/ideia, entidades que se conectam de modo arbitrário.

Mas a discussão sobre a arbitrariedade (ou não) do signo linguístico é ainda mais antiga. Em seu pequeno tratado De vulgari eloquentia (“Sobre a eloquência em língua vulgar”), escrito entre 1302 e 1305, o poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321) afirma:

Exatamente esse signo é o nobre tema de que falamos: ele é sensível enquanto som e racional enquanto significa algo de maneira convencional.

Novamente, temos a dupla face do signo linguístico: o som e o significado, cujo vínculo se faz de maneira convencional, isto é, mais uma vez, arbitrária. O som é “sensível”, ou seja, depende de um dos nossos sentidos (a audição), enquanto o significado é “racional”, depende da razão, do entendimento.

Saltando para trás quase mil anos, topamos com santo Agostinho (354-430), considerado o último grande filósofo da Antiguidade, figura de transição entre o paganismo e o cristianismo. Em suas reflexões semióticas (isto é, sobre os signos), Agostinho faz uma divisão entre verbum e vox, uma divisão de fundo teológico, que não vamos abordar aqui. O importante é que, para ele, verbum (que é a tradução latina do grego lógos, um termo que remete imediatamente a lógica, isto é, às operações do pensamento) é o conteúdo, o significado, enquanto vox (‘voz’) é apenas “ruído”. A vox só se transforma em signo pleno quando é portadora de verbum, de sentido, portanto. Para Agostinho, o verbum é sempre o mesmo, mas se eu tiver de expressá-lo para um grego, um romano ou um cartaginês, vou usar voces (plural de vox) diferentes, diferença que decorre da arbitrariedade do vínculo entre as duas entidades. No típico dualismo cristão (importado, como se sabe, do platonismo), Agostinho compara o significado, o verbum, à alma (e por isso ele é universal, porque dado por Deus), enquanto a vox, o som, é comparável ao corpo, imperfeito e perecível. Não nos esqueçamos de que Verbum, o Verbo, é sinônimo de Deus nas primeiras palavras do Evangelho de João: “No princípio era o Verbo...”, e é nelas que Agostinho se inspira.

Agostinho se converteu ao cristianismo já adulto, de modo que sua teologia exibe forte dependência para com a tradição filosófica grega. É nessa tradição que vamos encontrar — em mais um recuo cronológico — a figura de Aristóteles (384-322 a.C.), um dos mais influentes pensadores de todos os tempos. Segundo Aristóteles, as coisas do mundo provocam em nós “impressões na alma”, que assumem, nela, a forma de representações (ou conceitos), que, por sua vez, são expressos na forma de palavras escritas ou faladas (para os antigos, e durante séculos, não havia diferença entre letra e som). Assim como as palavras escritas diferem entre os povos que têm escrita, também as palavras faladas diferem entre os povos — as representações mentais, no entanto, são as mesmas. De novo: se há conceitos idênticos e palavras diferentes, é porque a relação entre conceitos e palavras é arbitrária. Aristóteles resolve desse modo o dilema enunciado por seu mestre Platão, como vamos ver logo abaixo.

Platão (428/427-348/347 a.C.) é provavelmente o filósofo mais influente da história do pensamento ocidental. É autor do diálogo Crátilo, a primeira obra a tratar da linguagem nessa tradição de pensamento. Esse diálogo põe em cena as duas grandes correntes teóricas daquela época: a de que os nomes derivam da própria natureza das coisas (o que se poderia deduzir a partir dos próprios sons das palavras: a palavra pedra traz em si a dureza da coisa que ela representa) e a tese de que os nomes são convenções, arbitrários portanto. Enquanto o filósofo Crátilo defende a primeira tese, seu opositor, Hermógenes, defende a segunda. O debate é mediado por Sócrates, o mestre de Platão. Depois de muita discussão, Sócrates acaba demonstrando que nenhuma das duas teses tem validade, porque a linguagem é o instrumento mais débil e menos apropriado para se atingir a verdade, que tem de ser alcançada por outros meios e que é o objetivo final do conhecimento. É por isso que se pode dizer que o Crátilo é, de fato, uma obra contra a linguagem.

Vemos então, entre o Curso de linguística geral (que não é obra de Saussure, apesar de trazer seu nome na capa) e o Crátilo de Platão, uma corrente contínua de quase 2.500 anos, ao longo da qual a tese da arbitrariedade do signo linguístico, em seu caráter binário, vem sendo debatida e, na maioria dos casos, defendida por muitos (eu diria até a maioria) dos que se dedicaram a refletir sobre ela. Apresentá-la como uma ideia formulada por Saussure implica, portanto, apagar toda essa longuíssima tradição e criar uma ilusão de ineditismo.

Um dos mais importantes estudiosos da historiografia da linguística, E. F. K. Koerner (1939-2022) escreveu, num texto publicado em 2020:

Há um tipo de escrita da história que emerge numa época em que uma geração particular, ou um indivíduo que representa de modo significativo as ideias, crenças e compromissos de sua geração, está persuadida de que foi alcançada uma meta desejada — uma espécie de ‘platô’ [...]. Essas narrativas supõem que o arcabouço teórico já foi suficientemente mapeado para que qualquer membro da comunidade científica conduza suas investigações, e que já não há mais nenhuma necessidade de qualquer revisão significativa da metodologia ou da abordagem do objeto sob análise.

Ao longo da história da linguística, houve vários momentos em que, para se firmar, uma geração de teóricos se empenhou em marginalizar a geração anterior. Para ficarmos só num período recente, temos, nas décadas de 1960-70, o esforço dos adeptos da teoria chomskiana por desacreditar o trabalho dos estruturalistas anteriores, especialmente o de Leonard Bloomfield (1887-1949), que dominou o cenário da linguística estadunidense durante décadas. Os estruturalistas pioneiros, europeus, se empenharam, por sua vez, em lançar para a sombra o volumoso trabalho dos comparatistas do século 19, dedicados primordialmente à linguística histórica, ao trabalho com a diacronia, enquanto os estruturalistas assumiam uma verdadeira obsessão sincrônica. Já a geração final dos comparatistas, os chamados Jovens Gramáticos (ou “neogramáticos” numa tradução equivocada), no final do século 19, imbuídos de positivismo, transformaram em seu alvo de ataque a geração anterior, representada sobretudo por August Schleicher (1821-1868), partidário da visão organicista da língua (isto é, a de que a língua é um “organismo vivo”).

Uma abordagem mais saudável e produtiva das ciências da linguagem deve apresentar, criticamente, esses embates para deixar claro que, como diz a máxima latina, “ex nihilo nihil”, ou seja, nada vem de nada, tudo vem de alguma coisa, tem uma origem que deve ser buscada e conhecida. Por isso, e para isso, é que a história da linguística, narrada por muitas e muitos, e desde variadas perspectivas, deve ser um componente essencial da nossa formação.

 

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