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Nossa língua e outras encrencas crônicas

Encrencas-Crnicas ... onde os gramáticos convencionais, com todas as suas limitações, reconheciam «falares», você identifica «línguas portuguesas»

 

 

Olá, Ana Elisa

 

Acabei há dias de ler o seu livro de crónicas Nossa Língua & outras Encrencas.

 

Há muito tempo que não lia com tanto interesse e tão depressa um livro fosse qual fosse o assunto… Tenho que reler, mas para já descobri nele uma infinidade de coisas interessantes, muitas das quais têm sido motivo constante de reflexão para mim.

 

Fiquei com a ideia de que o seu «mineirês» tem muitas raízes lusitanas, mais que a média no Brasil… Encontro palavras que nem em Portugal agora se usam com frequência, mas se usavam na minha infância; hoje, 70 anos passados, muito raramente. No que se refere a coloquialismos do português brasileiro, também encontrei alguns que não me lembro de ter ouvido quando residi e trabalhei no Brasil durante cinco anos (Rio de Janeiro, entre 1971 e 1981).  Alguns deles, você considera mineirismos, mas me parecem a mim autênticos lusitanismos…

 

Além do mais, o seu livro é divertidíssimo. Houve momentos em que me surpreendi num riso súbito e reconheci um lampejo de génio numa frase ou noutra. Por vezes há talvez excessiva mistura entre língua coloquial e língua erudita… E, paradoxalmente, o seu livro não pode ser lido facilmente por quem apenas saiba ler o brasileiro português coloquial ou mesmo o mineirês… Suponho que muitos terão dificuldade em acompanhar a parte mais erudita.

 

O livro fez-me lembrar conversas, com portugueses ou brasileiros, junto de quem tenho defendido que a língua portuguesa geral (incluindo todos os países de língua oficial portuguesa), uma espécie de crioulo erudito, académico, está a reforçar-se entre todos os estados lusófonos, e tenderá a reforçar-se cada vez mais. O que pode vir a cavar um fosso cada vez mais fundo entre a linguagem erudita e o coloquial popular. Por outro lado, é fatal que, em todos esses países, o grau de instrução vá aumentando sempre nas camadas populares, esbatendo a distância entre a língua popular e a língua académica, o que é já notório. Forçosamente, para o bem e para o mal, em todos esses países dos vários continentes a instrução pública, e com ela o domínio da língua oficial, vai tender a intensificar-se. Claro, essa homogeneização relativa será visível sobretudo na língua escrita; na língua oral, a verdadeira língua afinal, permanecerão grandes diferenças, o que é desejável e enriquecedor.

 

Resultado da sua luta, bem patente no livro, contra o prescritivismo e normativismo linguístico (ou seja, em última análise, contra o preconceito linguístico), vejo como um achado no seu livro a terminologia que você usa: português brasileiro, línguas portuguesas dos vários continentes e dentro de cada Estado lusófono, e dentro do próprio Brasil: onde os gramáticos convencionais, com todas as suas limitações, reconheciam «falares», você identifica «línguas portuguesas», assim mesmo no plural. Desse modo, deixa de fazer sentido a busca do português quintessencial tão frequente entre gramáticos, e abre-se caminho à valorização da pluralidade das línguas dentro do «crioulo geral» que é o português enquanto língua oficial da lusofonia, todas essas «línguas» se fecundando e enriquecendo mutuamente. E esbate-se também talvez o sonho do modernismo brasileiro da primeira metade do século XX de uma língua brasileira claramente emancipada do português «colonialista»…

 

Abraços

José Carlos Costa Marques, editor e tradutor

Águas Santas, Portugal

11 de julho de 2023

 

 

 

 

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