Blog da Parábola Editorial

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O dialeto caipira cem anos depois por Marcos Bagno

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Marcos BAGNO

Nas primeiras décadas do século 20 foram publicadas diversas monografias que descreviam variedades específicas do português brasileiro. Decerto sob influência da dialetologia, disciplina fundada na Europa no final do século anterior, estudiosos brasileiros nos deixaram testemunhos valiosos sobre os modos de falar de algumas regiões. Um desses clássicos da nossa literatura linguística é O dialeto caipira, publicado em 1920 por Amadeu Amaral (1875-1929), intelectual paulista que se dedicou a vários campos de investigação como o folclore e a filologia, bem como a uma produção literária que inclui poesia e ensaios de variada temática. Já na abertura do livro, Amaral declara que o “dialeto caipira” estava praticamente extinto no momento da publicação, devido ao progresso das comunicações e à expansão do ensino. Foi para deixar documentados os traços característicos daquela variedade que Amaral provavelmente decidiu empreender seu trabalho, que acaba de ganhar uma nova edição comemorativa.

O principal interesse de O dialeto caipira para o público leitor de hoje está, quase paradoxalmente, no fato de que quase todos os fenômenos apresentados ali como “dialetais”, isto é, próprios de uma variedade especíica, não se limitam ao interior do Estado de São Paulo, área estudada por Amadeu Amaral. Também de forma paradoxal, então, o dialeto que supostamente tinha desaparecido continuava (e continua) a existir, e o próprio autor reconhece, em diversos momentos do texto, que vários daqueles fenômenos ocorriam também em todo o Brasil, não só em falares de populações rurais sem acesso à educação formal, como também na atividade linguística de pessoas “cultas” da zona urbana. E suas percepções estavam corretas.

Outras publicações dialetológicas das primeiras décadas do século 20 foram se sucedendo, até que em 1950 o carioca Serafim da Silva Neto (1917-1960) lançou a sua Introdução ao estudo da língua portuguesa no Brasil, uma obra pioneira em sua tentativa de descrever o português brasileiro com os dados e a metodologia disponíveis na época. Nesse livro, Silva Neto mostra que muitos dos fenômenos linguísticos até então rotulados como exclusividades de falares locais específicas eram, na verdade, conforme escreveu, “pan-brasileiros”, isto é, encontráveis em praticamente todas as regiões do país, do extremo norte ao extremo sul, de leste a oeste. As incontáveis investigações dialetológicas e sociolinguísticas realizadas desde então vêm comprovando que as chamadas “variedades populares” do português brasileiro apresentam uma grande convergência de traços, sobretudo no que diz respeito à morfossintaxe, ou seja, à gramática propriamente dita. As particularidades se limitam quase sempre a características fonéticas e, claro, ao vocabulário, que é sempre um repositório da cultura local. E mesmo no campo da fonética, sabemos que pronúncias como broco, praca, ingrês (para “bloco”, “placa”, “inglês”) e trabaio, véio, paia (para “trabalho”, “velho”, “palha”) ocorrem em todas as regiões do Brasil, no campo ou na cidade. Desse modo, o que “sobra” do dialeto caipira, depois de bem peneirado, é praticamente um único traço fonético: a pronúncia retroflexa do “r” em travamento silábico de palavras como porta, verde, corpo, pronúncia que recebe precisamente o nome popular de “R caipira”.

Os principais aspectos morfossintáticos assinalados por Amadeu Amaral constituem, de fato, regras já há muito tempo bem assentadas na gramática do português brasileiro mais geral. São usos que ocorrem tanto na fala das pessoas das camadas sociais menos privilegiadas quanto na das pessoas ditas “cultas”, quando não estão policiando sua atividade linguística: a diferença é basicamente de frequência desses usos. E diversos desses aspectos gramaticais já têm se enraizado com firmeza também na escrita de gêneros textuais mais monitorados, o que comprova a tese de que a mudança linguística, inevitável, avança da fala mais espontânea até a escrita mais formal, a despeito de toda a luta normativa de tentar frear essa mudança.

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O dialeto caipira, de Amadeu Amaral

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O dialeto caipira, de Amadeu Amaral (a partir da leitura da obra e do imprescindível artigo de Vandersí Sant’Ana Castro, “Revisitando Amadeu Amaral”. In: Estudos Linguísticos XXXV, p. 1937-1944, 2006. [1937/1944])

O Dialeto Caipira, publicado há exatos 100 anos, é uma obra de referência na história da dialetologia brasileira e um marco na história da linguística no Brasil. Feito com método (pesquisa in loco, clareza, critério, objetividade e precisão), é a primeira obra que procura descrever de forma abrangente um falar regional brasileiro. Até então, os estudos de dialetos enfocavam quase que só o léxico do português do Brasil, em âmbito geral ou regional, constituindo-se em dicionários e vocabulários. Diferentemente, o estudo de Amaral revela uma preocupação mais ampla, procurando descrever o falar caipira em seus diferentes aspectos fonético, lexical, morfológico e sintático.

Nas palavras de Vandersí Sant’Anna:

Diz-nos o Autor que até mais ou menos a última década do século XIX, tivemos “um dialeto bem pronunciado, no território da antiga província de S. Paulo” o falar caipira , “bastante característico para ser notado pelos mais desprevenidos como um sistema distinto e inconfundível”. Esse falar “dominava em absoluto a grande maioria da população e estendia sua influência à própria minoria culta. (...) Ao tempo em que o célebre falar paulista reinava sem contraste sensível, o caipirismo não existia apenas na linguagem, mas em todas as manifestações da nossa vida provinciana” (Amaral, 1982: 41). Todavia, no correr do final do século XIX e início do século XX, por atuação de fatores que alteraram o meio social (libertação dos escravos, crescimento da população, imigração, ampliação das vias de comunicação e do comércio, extraordinário incremento da educação), os “genuínos caipiras, os roceiros ignorantes e atrasados”, e o caipirismo vão perdendo seu espaço de influência. De tal forma que, à época em que o Autor desenvolve sua pesquisa, o falar caipira se acha “acantoado em pequenas localidades” que ficaram à margem do progresso, subsistindo “na boca de pessoas idosas”, observando-se, entretanto, que “certos remanescentes de seu predomínio de outrora ainda flutuam na linguagem corrente de todo o Estado, em luta com outras tendências, criadas pelas novas condições” (Amaral, 1982: 41-42). É esse falar que Amadeu Amaral descreve, numa tentativa de documentá-lo antes que se perca.

O material linguístico observado por Amadeu Amaral refere-se predominantemente aos municípios de Capivari, Piracicaba, Tietê, Itu, Sorocaba e São Carlos, mas é interessante aprender com o autor que o dialeto caipira era muito usado em toda a província (o estado de São Paulo), pela maioria da população e também por uma minoria culta. Isso deu aos paulistas a fama de corromperem o vernáculo com seus vícios de linguagem.

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O dialeto Caipira de Amadeu Amaral completa 100 anos e ganha nova edição

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Em comemoração ao centenário da 1ª edição de O dialeto caipira, de Amadeu Amaral, a Parábola Editorial anuncia a edição comemorativa da obra, a ser lançada oficialmente  no dia 14 de março de 2020, das 19h às 20h, durante o I Seminário Internacional de Estudos em Linguística Popular que acontecerá na UFScar em São Carlos, SP, de 12 a 14 de março que tem Amadeu Amaral como homenageado em sua programação.

A edição comemorativa de O dialeto caipira se justifica por sua importância para a cultura brasileira. A obra foi um estudo pioneiro das características da língua portuguesa no interior do Estado de São Paulo e é referência obrigatória na história da dialetologia brasileira.

No entanto, apesar de sua importância, a obra de Amadeu Amaral, infelizmente, “ainda é pouco conhecida”, sobretudo dos “mais novos”.  Daí vem a importância de se republicar a obra que, depois de 100 anos, ainda é tão atual. A nova edição traz o texto original publicado em 1920 em um belo projeto gráfico, objetivando atrair a atenção dos leitores para um trabalho tão fundamental para pesquisa linguística no Brasil considerando as inovações que introduziu em nossos estudos dialetológicos, a contribuição que representa para o conhecimento do português brasileiro, as questões que suscitou e pode suscitar ainda hoje para novas pesquisas.

 

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Retrospectiva 2019

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Editar livros da área de Letras é cuidar da literatura científica brasileira, fomentar mais pesquisas e preocupar-se com a valorização deste patrimônio universal: a língua.

Você já parou para pensar que é um direito nosso, entre outros, conhecer a fonética e a fonologia do português brasileiro, nossa morfologia, sintaxe, prosódia, a história sociopolítica da língua, suas variedades e sua riqueza? E que isso também vale para Libras, inglês, línguas românicas etc.? Ou ainda, você já parou para pensar que a principal característica de um professor é a formação continuada e que a universidade vai para a escola e vice-versa pela difusão de ideias, de livros?

Nessa retrospectiva, (re)conhecemos nossos lançamentos do ano passado. Sem dúvidas, a Parábola Editorial se desenvolve junto com a qualificadíssima pesquisa linguística, literária e pedagógica de nossos doutores universitários e junto com vocês, mais que nosso público, nossos leitores críticos.

Fevereiro

Escrever na universidade 1: Fundamentos, de Carlos Alberto Faraco (UFPR) e Francisco Eduardo Vieira (UFPB);

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Educação Literária na Infância

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 Clecio Bunzen Jr (UFPE-CE)

 

Nos últimos dias, temos discutido a recente proposta do atual Ministério da Educação chamada de Política Nacional de Alfabetização (PNA). Por tal razão, iniciei, na minha página do Facebook, algumas postagens informais para indicar materiais gratuitos e de qualidade sobre a área da alfabetização no Brasil, assim como estudos no campo da educação linguística e da educação literária. O objetivo era mostrar que não deveríamos partir do “zero” ou negar todo o passado como faz o atual Ministério da Educação.

         Ao perceber uma boa recepção por parte dos(as) leitores(as) das postagens, pensei em transformá-las em algo mais sistemático e para um público um pouco maior. Surge assim uma lista com indicações e breves comentários sobre temáticas relacionadas ao ensino de língua e de literatura.

Na primeira postagem, indico cinco obras que podem auxiliar você a pensar a educação literária na infância. As obras são fruto de parceria das universidades com gestões anteriores do Ministério da Educação e/ou programas específicos de formação inicial ou continuadas de professores(as). Todas elas sugerem reflexões teórico-metodológicas para o trabalho com o texto literário na Educação Infantil ou na Educação Básica (especialmente, nos anos iniciais do ensino fundamental).

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Resenha do livro - História do Português

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  O livro História do Português, de Carlos Alberto Faraco, publicado pela Editora Parábola, aborda desde conceitos sociopolíticos a conceitos linguísticos.

Quem pensa ou acha que fatores sociais, culturais e políticos não se relacionam com a língua, está muito enganado. Todos esses fatores, principalmente o político, influenciaram na chamada língua portuguesa.

Acredita-se, ainda nos dias de hoje, que a língua é homogênea, inflexível, não suscetível à variação e à mudança. Porém, esse pensamento é uma falácia, visto que a língua participa de uma sociedade e esta, como afirma Faraco, é uma totalidade complexa, heterogênea, contraditória, simultaneamente integrada e em constante devir. Tais aspectos fazem com que a língua esteja em constante variação, resultando em uma mudança linguística. Viu como a língua não varia e muda aleatoriamente? Há fatores que impulsionam isso.

Entendida tal reflexão, partimos para a história da língua portuguesa.

Tudo começou no noroeste da Península Ibérica, numa região em que se encontram hoje os territórios da Galiza e do norte de Portugal, com os desdobramentos do latim, língua trazida pelos romanos.

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Dez presentes perfeitos para os amantes de livros de linguística e língua portuguesa

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A Parábola preparou uma lista de dez presentes perfeitos para você aproveitar a Black Week da Parábola e presentear os amantes da língua e da linguagem com livros de linguística e língua portuguesa.

 

 


1. Assinatura-presente Clube Parabólicos

Essa dica é a primeira porque vale ouro. Você pode dar de presente uma caixinha do nosso clube exclusivo com livros de linguística no mês de aniversário das pessoas de quem gosta. Nela são enviados: um lançamento da Parábola, um marcador magnético e um voucher de 30% de desconto para os produtos do nosso site. Quer arrasar com um presente diferentão? Esse é de arrasar!

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Resenha - Lutar com palavras: coesão e coerência.

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Neste livro, Irandé Antunes fala sobre os mecanismos de construção textual de modo acessível. O livro é didático, tem linguagem de fácil compreensão e muitos exemplos.
Num texto, tudo vem encadeado, e a é a “propriedade pela qual se cria e se sinaliza toda espécie de ligação que dá ao texto unidade de sentido ou unidade temática” (p. 47). Mas como fazer a coesão? Por meio das relações de reiteração, associação e conexão.

A REITERAÇÃO retoma informações do texto pelos procedimentos de repetição e substituição. Repetição mantém algum elemento e pode ser realizada por paráfrase (reiterar com nova formulação linguística), paralelismo (unidades semânticas similares correspondem a estruturas gramaticais similares) e repetição (marcar ênfase, contraste, continuidade do tema e quantificar). Substituição varia os termos constituintes do nexo textual e poder ser realizada por substituição gramatical (substituir um termo por classes gramaticais com função referencial), substituição lexical (usar uma palavra no lugar de outra que lhe seja textualmente semelhante) e elipse (ocultamento de um termo identificável pelo contexto). A ASSOCIAÇÃO atinge as relações semânticas. Tem como procedimento a seleção lexical, regida pelo tema do texto. Recorre à associação de palavras antônimas (urbano x rural) e à associação parte/todo (trânsito, veículo, motorista). Com tais recursos, selecionam-se palavras pertencentes ao mesmo campo semântico, contribuindo para a construção da unidade temática.
A CONEXÃO é operada por conectores em pontos determinados dos textos, com determinações sintáticas rígidas. Tem como procedimento o estabelecimento de relações sintático-semânticas, recorrendo às conjunções, às preposições e aos advérbios, podendo sinalizar muitos tipos de relação, como causalidade, condicionalidade, temporalidade, etc.
A autora destaca que o conhecimento estritamente gramatical é insuficiente para a escrita de um texto coeso e coerente, pois quando reiteramos informações, selecionamos o vocabulário e conectamos partes textuais, recorremos ao nosso conhecimento de mundo para constituirmos uma base significativa que sustente o texto.

Por: Comtextorevisoes

 

Lutar com palavras: coesão e coerência 
- Degustação da obra

 

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A IRRACIONALIDADE DA “PASSIVA SINTÉTICA”

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A imposição de uma norma-padrão anacrônica e sem fundamentação nas práticas linguísticas autênticas, mesmo das camadas mais letradas da população, tem o efeito pernicioso de levar as pessoas a desistir de empregar determinadas formulações sintáticas pelo medo de “errar”. Um dos exemplos mais visíveis dessa situação tem a ver com o uso do pronome “se”, que há duzentos anos vem assombrando as pessoas que falam e sobretudo escrevem em português.

 

Já em 1918, o grande filólogo brasileiro Manuel Said Ali chamava a atenção para a irracionalidade de se cobrar uma concordância plural do tipo “alugam-se estas salas” com a desculpa andrajosa, esfarrapada e maltrapilha de que equivale a “salas são alugadas”. E ele diz que se alguém colocar um cartaz dizendo “estas salas são alugadas” é mais do que justificado que se duvide de sua “sanidade mental” (palavras de Said Ali). Existe uma diferença semântico-pragmática escandalosa entre “aluga-se estas salas” e “estas salas são alugadas”.

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Do trabalho infantil à leitura

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O Príncipe do Reino do Pé-de-Manga

Ferrarezi

Criança pobre no interior de São Paulo, fui apresentado ao trabalho infantil aos 5 anos. A vida não era fácil. De domingo a sexta-feira, estudava pela manhã, trabalhava à tarde na construção civil ou na enxada e, à noite, cuidava de uma horta caseira que nos ajudava a melhorar o arroz ou o macarrão, muitas vezes, o prato único do dia. Meu momento de descanso era o sábado à tarde, dia em que meus pais dormiam para se aliviar da semana, dia em que não havia ninguém para me mandar fazer algo, dia de subir no pé-de-manga.

A mangueira que havia no fundo de nosso quintal era meu lugar de paz. Nesses dias de paz, eu nela subia até o “olho”, aquele ponto limite entre o mundo terreno e o mundo celestial – ponto mágico que toda criança que teve infância interiorana conhece – e em que é possível colocar a cabeça para fora das folhas mais altas da árvore. Havia um galho especialmente feito pelo Criador para eu sentar e olhar os detalhes do mundo: era meu trono de príncipe – o príncipe do Reino do Pé-de-Manga! Esse lugar onde eu me postava – senhor da Terra até onde meus olhos alcançavam – até já era liso, lustrado e limpo de tanto me sentar ali. E dali – só com a cabeça de fora – eu via os telhados da vizinhança, o horizonte que se estendia sobre um pasto enorme que subia – interminável! – num morro suave e se conectava com o céu bem diante de nosso bairro. Ali, eu aprendi que as folhas das mangueiras nascem levemente rosadas e, depois, vão ficando mais vermelhas para, finalmente, se tornarem magicamente verdes! Aprendi que as formigas que brigam ferozmente por um fiapo de manga eram iguais aos seres humanos brigando por fiapos de poder e sobre gafanhotos saltitantes que pulam aparentemente sem destino, mas que sabem bem o que vão destruir adiante. Me tornei “doutor” em telhas e em nuvens com formatos incompreensíveis que escondiam discos voadores e anjos da guarda que só eu podia ver. Me tornei íntimo conhecedor anônimo das histórias de vida que eu inventava para os passantes miúdos que se arrastavam sombrios e cansados pelas ruas ao redor, sumindo por detrás das casas e aparecendo novamente nos terrenos vazios para, uns passos adiante, tornar a sumir para sempre. Ali, aprendi a imaginar, sonhei meu mundo e construí minhas esperanças na segurança da solidão – até o iniciozinho da adolescência, quando tive de sair de casa para tentar a vida longe de meus pais. Dois anos depois da separação, “minha” mangueira foi cortada e uma casa fria foi construída no lugar. A despeito da tristeza, tudo bem: já não importava mais. Ela já fazia parte inseparável da minha alma e eu já estava longe demais para provar seu doce abraço semanal.

E foi depois de “cair no mundo” que descobri que todo mundo precisa de uma mangueira, de um trono, de um lugar de solidão – e isso com regularidade! Todo mundo precisa de um lugar de paz, de sonho e de imaginação para ficar a-sós-consigo no meio do mundo, olhando de cima cada detalhe e construindo cada momento da vida porvir, mesmo que essa vida nunca chegue, que seja só esperança, que seja só paixão. Foi então que descobri que os livros doravante seriam meu novo pé-de-manga, meu novo lugar de paz, meu novo posto avançado entre as nuvens, lugar em que construo meu pensamento mais profundo. Sim! É no mundo das nuvens que a mente é mais poderosa, pois é ali que o mundo não pesa sobre nossos ombros nem nos oprime! Descobri que as folhas dos livros eram tão aconchegantes quanto as folhas da minha mangueira e que eram folhas igualmente mágicas, que mudavam de cor com a luz dos meus olhos e com o carinho da minha respiração. Descobri o quanto os livros são aconchegantes e quanto há do mundo para descobrir neles. Ensinei isso a minha esposa e a meus filhos e cultivamos isso em casa até hoje. Mesmo que não seja de forma tão frequente quando desejaríamos, de vez em quando – pelo menos! – fugimos para o “olho da mangueira” nos escondendo a-sós-conosco em meio às folhas dos nossos livros. E quando me retiro hoje do mundo frio e estressante para o aconchego dos livros, sinto a mesma paz, a mesma curiosidade e o mesmo êxtase que sentia quando estava no “olho da mangueira”. Mas, quando fecho os livros e olho para os lados, me apavoro! Percebo que isso tudo tem sido roubado das pessoas pelas telas digitais!

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VARIAÇÃO LINGUÍSTICA, NOSSA VELHA (DES)CONHECIDA

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Texto por: Thi Zilio 

 

 “Perguntaram para a professora por que o Gaúcho falava diferente. A professora explicou que cada região tinha seu idioma, mas que as diferenças não eram tão grandes assim. Afinal, todos falavam português. Variava a pronúncia, mas a língua era uma só. E os alunos não achavam formidável que num país do tamanho do Brasil todos falassem a mesma língua, só com pequenas variações?”

O trecho acima faz parte da crônica Pechada, de Luís Fernando Veríssimo. Nela, o autor apresenta uma situação bastante comum em inúmeras salas de aula: a chegada de um aluno de outro estado e a reação (não muito amistosa) dos colegas de sala.

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ESQUEÇA A “LÓGICA” DA LÍNGUA!

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Marcos Bagno

Desde o surgimento da filosofia antiga na Grécia, circula na cultura ocidental o mito de que a língua se organiza numa gramática que seria um espelho da lógica que comanda os processamentos da mente/espírito/alma/razão. Desse modo, a gramática seria a “lógica” da língua, enquanto a lógica descreveria a “gramática” do pensamento. Essa concepção de língua e de mente como o espelho uma da outra, velha de 2.500 anos, se enraizou fundo e continua bastante viva até hoje, especialmente entre as pessoas que se esforçam por defender a “pureza” da língua contra os “abusos” e os “erros” cometidos pelos próprios falantes. Essas pessoas costumam argumentar que esses “abusos” e “erros” vão na contramão da “lógica da língua” que, supostamente, governa a gramática. Por exemplo, no enunciado “Descartes foi um dos filósofos que se ocupou do caráter universal da linguagem”, o verbo ocupar deveria estar no plural por motivos “lógicos”, o que se comprovaria com a inversão dos termos: “Um dos filósofos que se ocuparam do caráter universal da linguagem foi Descartes”. Não parece lógico? Só que não...

O grande equívoco dessa abordagem tradicional é acreditar que existe realmente uma identidade entre o funcionamento da língua e o funcionamento da mente. Querer encontrar na língua a mesma “lógica” que governa a mente é acreditar, em última instância, na tese de que “o homem é um animal racional”, formulada inicialmente por Aristóteles e repetida até hoje. Ora, essa suposta racionalidade do ser humano foi posta em cheque no início do século 20 pela psicanálise desenvolvida por Sigmund Freud (1856-1939), que enfatizou o papel fundamental do inconsciente no funcionamento da psique e nas ações concretas — desdobramentos mais recentes da neurociência e de outros campos de investigação empírica têm sugerido que mais de 90% das operações do nosso cérebro estão fora do nível da consciência.

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Produção textual na universidade

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O livro Produção textual na universidade, publicado em 2010, pela Parábola Editorial, nasceu no primeiro curso de “Redação Acadêmica” que ministrei, em 1994, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), sobre princípios básicos de leitura e escritura no contexto universitário.

Ao longo de 25 anos, o curso original transformou-se em seminários, minicursos e palestras, recebendo alunos e audiências de áreas tão diferentes – jornalismo, geografia, educação, agronomia, além de literatura e linguística, estimulando minha investigação sobre como cada campo de conhecimento concebe a comunicação escrita. As descrições detalhadas de cada aula viraram o livro didático Redação acadêmica: princípios básicos (UFSM), com informações e dados de pesquisa sobre produção textual em diferentes culturas disciplinares. As aulas foram sendo refeitas e reorganizadas com base na experiência amealhada a cada edição do curso, tanto na UFSM como em outras instituições, e também com base na investigação sobre discurso acadêmico, realizada por Graciela Rabuske Hendges, minha coautora, e por mim, há mais de duas décadas, no Grupo de Pesquisa “Linguagem como Prática Social”.

Portanto, Produção textual na universidade resulta da atividade em ensino e investigação sobre o contexto (atividades sociais escritas, papéis e relações sociais entre leitores e escritores) e o texto (conteúdo, estilo e forma) de gêneros acadêmicos centrais para o debate da ciência. Este volume mantém quase o mesmo formato do material original, com a maravilhosa programação visual do João Luiz Roth, que entendeu a proposta pedagógica dos primeiros materiais didáticos. Além disso, a participação de Graciela foi fundamental para qualificar e incrementar os capítulos com dados atualizados de pesquisa sobre o discurso da ciência em diferentes áreas. Nossos exemplos ilustrativos permitem comparações entre exemplares do mesmo gênero acadêmico, em várias disciplinas, para que os leitores se sintam representados e convidados a buscar problemas e temas relevantes, revisar discussões atuais, refletir sobre conceitos em voga em seus próprios campos do conhecimento.

Sempre tomei por referência os desafios do meu próprio percurso de aprendizagem de escrita na vida – tenho 60 anos – e especialmente na ciência – 35 anos como docente na universidade. Também observei os desafios enfrentados por alunos e as diversas estratégias para vencê-los. Quis fazer um livro didático que não fosse uma preleção sobre “como se deve fazer”, mas antes um estímulo para escritores menos experientes questionarem e investigarem, buscarem informação sobre o modo como as pessoas interagem sendo leitores e escritores em sua disciplina específica, para atuarem cada vez mais centralmente, por meio da produção textual, na rede de produção de conhecimento acadêmico.

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Curso de Linguística Geral

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O Curso de Linguística Geral, de Ferdinand de Saussure, é nada menos do que um clássico da Linguística. Isso porque consiste em uma obra que exerceu, e continua a exercer, uma profunda influência não apenas nesse campo de conhecimento em que foi gestada, mas também fora de suas fronteiras. A força e o alcance das ideias contidas no Curso se impuseram, ora de modo mais explícito, ora de maneira mais subterrânea, tanto porque compreendem propostas e constatações inovadoras para os estudos linguísticos quanto porque representam a consolidação de um objeto de análise e de sua abordagem. Embora Saussure não tenha sido o único a conceber a língua e a Linguística de maneira diferente daquela em vigor entre os estudiosos dedicados ao método histórico-comparativo, entre o final do século XIX e o começo do século XX, no Curso de Linguística Geral os contornos e as definições desse objeto e dessa abordagem se encontram particularmente concentrados.

Desde sua publicação, começou a se estabelecer a ideia de que os fatos e os fenômenos a serem estudados pela Linguística não mais se resumiriam às mudanças das formas da língua através do tempo. Eles deveriam compreender, antes, as unidades linguísticas, as relações entre elas e as regras que permitem ou interditam suas combinações na constituição de unidades maiores e mais complexas, no interior de um sistema, num certo estado de uma sociedade. Se as ideias fundamentais do Curso de Linguística Geral já surpreendem, a coesão e a interdependência entre elas produzem ainda mais entusiasmo. À medida que se difunde o pensamento saussuriano, consolidam-se estas ideias: a língua é uma forma e não uma substância; ela funciona como um sistema; é um fato social; suas unidades valem menos pelo que são do que por suas relações de identidade e de diferença; o laço que une o significante ao significado de um signo é arbitrário; para o falante, não existe sucessão dos fatos da língua no tempo.

Cada um desses princípios implica fundamentalmente os demais e suas mútuas dependências constituem um sólido sistema conceitual. Foram a difusão e a conservação, mas também as modificações dessas ideias que fizeram do CLG uma obra clássica da Linguística. Seus postulados e noções se estabilizaram e passaram a constituir as entranhas dos estudos linguísticos de diversos modos, ao passo que diferentes atores e fenômenos, em tempos e espaços diversos, concorreram para alterar mais profunda ou mais superficialmente seus sentidos. Assim, como tende a ocorrer com os clássicos, o Curso de Linguística Geral dá provas de sua condição extraordinária tanto pelo que traz em si quanto pelo que proporciona a outrem.

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PRECONCEITO LINGUÍSTICO – 20 ANOS DEPOIS

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Pouco depois de ter sido lançado, há exatos 20 anos, o livro Preconceito linguístico se tornou uma obra de referência na maioria dos cursos de Letras e Pedagogia do Brasil, além de outras áreas em que as questões de linguagem também são centrais, como o jornalismo, a fonoaudiologia, o serviço social etc. A própria noção de “preconceito linguístico”, até então restrita aos debates acadêmicos entre linguistas, ganhou espaço na mídia, no ambiente escolar, nos projetos de formação docente e em documentos oficiais de política educacional. Muitos livros didáticos de Língua Portuguesa passaram a incluir um capítulo ou uma seção sobre a discriminação social por meio da linguagem. Surgiu aos poucos uma percepção geral mais aguçada com relação a essa forma de exclusão social muito sutil e, por isso mesmo, perversa, até pelo fato de passar muitas vezes despercebida, diante de uma certa “naturalização” das noções de “falar errado” e “falar certo” que circulam na nossa cultura linguística. Preconceito linguístico mostra de forma clara e sem rodeios que essas noções são construções ideológicas, decorrem das dinâmicas socioculturais da sociedade brasileira, extremamente hierarquizada, umas das mais excludentes e desiguais do mundo. Na verdade, como diz Marcos Bagno, “o preconceito linguístico não existe: o que existe é um profundo preconceito social que usa a forma de falar das pessoas como desculpa para excluí-las dos bens e dos direitos que deveriam caber a elas”. Assim, o preconceito linguístico vem se juntar a tantas outras práticas de discriminação vigentes na sociedade como o racismo, o sexismo, a homofobia, ao chamado ódio de classe que se volta contra a maioria da população (pobre ou mesmo miserável), e às demais formas de violência simbólica que são exercidas contra a diversidade de opiniões, de crenças e de valores. A língua que uma pessoa fala é um dos componentes fundamentais de sua identidade individual e coletiva, nós somos o que falamos e falamos o que somos. Discriminar alguém por seu modo de falar é discriminar a pessoa naquilo que ela é, concretamente, em seu próprio corpo, e fere os princípios elementares da cidadania e da convivência democrática. Ao longo desses vinte anos, Bagno vêm recebendo mensagens de inúmeras pessoas que se reconhecem nas situações descritas no livro, pessoas de origem rural ou de camadas urbanas desfavorecidas que, tendo conseguido chegar ao ensino superior, encontraram em Preconceito linguístico os argumentos que buscavam para compreender as discriminações que sofriam e para criticá-las de forma bem fundamentada nos pressupostos da linguística e da sociologia da linguagem. Também têm sido muitos os depoimentos daquelas que, após a leitura do livro, se deram conta de suas próprias atitudes e práticas discriminatórias e passaram a compreender melhor a origem social e cultural do preconceito linguístico. Combater a discriminação pela linguagem não é, como muita gente desinformada supõe, defender um suposto “vale-tudo” no uso da língua, abandonar o ensino das formas prestigiadas de falar e escrever ou, pior, querer impor o uso das formas “erradas” como as únicas aceitáveis a partir de agora. As questões de educação linguística são muito mais complexas do que um binarismo fácil entre “sim” e “não” ou uma simples troca de “normas”. A multiplicidade dos usos da língua tem que ser respeitada, valorizada e defendida, e entre esses usos, evidentemente, estão, também, as formas de prestígio, faladas e escritas, que têm sido reservadas durante muito tempo a uma pequena parcela da população. Mas é esse também que causa tanto medo e apreensão, porque significa ampliar o acesso à cultura letrada num país injusto em que os bens e os direitos sociais têm sido reservados há séculos para muito pouca gente.

 

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Nurc - 50 anos

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Neste ano de 2019, a Linguística brasileira comemora os 50 anos de um dos seus mais significativos projetos – o NURC-Norma Linguística Urbana Culta. Para registrar e celebrar esse aniversário, a Parábola Editorial está lançando o livro NURC 50 anos: 1969-2019, organizado pelo Professor Miguel Oliveira Jr., atual presidente da Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN).

A obra reúne artigos que recuperam a história do Projeto e fazem um balanço dos inúmeros estudos realizados a partir dele, estudos que contribuíram não só para um melhor conhecimento do português brasileiro, como também para a formação de novos pesquisadores.

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5 livros para ler em 2019

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Já sabe quais são os melhores livros para você ler em 2019? É fundamental você reservar o  tempo necessário para a atualização e busca de novas perspectivas pedagógicas e enriquecer suas estratégias de ensino e aprendizagem.   

 

No artigo de hoje, separamos as melhores leituras para você intensificar os seus conhecimentos e orquestrar as melhores aulas em 2019. Confira! 

 

1. A linguística, o texto e o ensino da língua

O sucesso de qualquer empreendimento pedagógico depende de que os estudantes sejam aptos a ler e escrever com desenvoltura, competência a ser cultivada ao longo de toda a vida escolar.

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Como definir o tema do TCC em 5 dicas rápidas

Como definir o tema do TCC

 

 

Chegou o momento tão esperado por todos e temido por muitos: escrever o trabalho de conclusão de curso. O problema enfrentado por muitos é a indecisão na escolha do tema sobre o qual escrever. Está pass ando por esse momento? Então abriu o artigo certo. Listamos abaixo 5 dicas para ajudar você na definição do tema para a escrita do seu TCC. 

 

 

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3 dicas para montar a sua aula de português

3 dicas para montar sua aula

 

 

Professor(a), além de ensinar, você deseja surpreender os alunos com uma aula de português diferente que possa ajudá-los na fixação na matéria? Então confira abaixo 3 boas dicas.

 

 

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Variação Linguística – o que é, exemplos, dicas de leitura

Variação Linguística

É muito importante compreender a variação na língua. O entendimento da variação linguística evita o preconceito contra aqueles que falam diferentemente, além de nos proporcionar mais conhecimento e bagagem no que diz respeito a todos os aspectos da nossa história.

 

 

O que é variação linguística?

 

Como o nome já sugere, a variação linguística trata as mudanças da língua dentro do seu próprio sistema. A língua não é fixa, invariante, ela varia no decorrer de sua história, de sua localização social e cultural. Mesmo conhecer a “nomenclatura”, alguma vez na vida você já se deparou com variação, seja conversando com alguém, assistindo a programas de TV ou lendo textos regionais.

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