Blog da Parábola Editorial

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Pode se falar de evolução da língua?

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Marcos Bagno

Há alguns dias, por ocasião do lançamento do livro A evolução das formas linguísticas, que reúne textos do linguista francês Antoine Meillet (1866-1936), uma pessoa me perguntou por que aparecia “evolução” no título em lugar de “mudança”, que é o conceito mais difundido na linguística contemporânea: a ideia de “evolução” não levaria a pensar que as formas linguísticas atuais são “melhores” ou “mais eficientes” que as mais antigas?

A resposta que dei foi: na palavra “evolução” não há nada que indique “melhora” ou “aperfeiçoamento”. Essas conotações positivas (ou teleológicas, melhor dizendo) derivam de uma série de distorções da qual tem sido vítima há mais de 150 anos a teoria da evolução proposta por Charles Darwin (1809-1882) em seu livro A origem das espécies (1859). Vamos tentar limpar esse terreno.

Nunca é demais enfatizar que a teoria da evolução de Darwin pressupõe variação, ao contrário de uma visão reducionista que apresenta uma mudança em linha reta, em que uma espécie anterior se transforma na sucessiva e assim por diante, como o famoso desenho do girino que se transforma paulatinamente em sapo. Por isso, a repetidíssima imagem da “evolução do homem” — a de um macaco que aos poucos se transforma em homem — é uma das mais equivocadas noções cristalizadas no senso comum, um erro sem tamanho! Na verdade, diversas variedades de seres humanos existiram num mesmo recorte temporal, e foram as mudanças causadas pelos mais variados fenômenos (geológicos, climáticos, ecológicos etc.) que levaram à sua extinção gradual e à sobrevivência da espécie atual. Por exemplo, os neandertalenses, os denivosanos e os sapiens modernos viveram no mesmo período, e tudo indica que houve intercruzamento genético entre as espécies. (Aqui vai um link para um esquema cientificamente embasado da verdadeira evolução da espécie humana: http://1.bp.blogspot.com/-yEUEavwMSCE/ULtMp3e_cVI/AAAAAAAAADQ/Y_JxBB5ag0s/s1600/familytree_page.tif). 

Repetindo: o termo evolução não implica jamais nenhum tipo de “aperfeiçoamento” ou “melhora” do que havia antes: evoluir significa simplesmente a passagem de um estágio a outro (de novo, por meio de variação), sem nenhum tipo de mudança para melhor — o mamute pré-histórico estava tão bem adaptado a seu ambiente e interagia tão adequadamente com ele quanto o elefante moderno. Evoluir significa adaptar-se a novas “condições de existência” (expressão usada por Darwin).

Pressupor uma cadeia sucessiva de espécies por meio daquela imagem “do macaco ao homem” é que fez se cristalizar a ideia toda errada de evolução como aperfeiçoamento: afinal, um homem moderno é inequivocamente mais “evoluído” que o macaco do qual ele supostamente se “originou”. Aqui também é importante ressaltar que Darwin nunca disse nem escreveu que “o homem vem do macaco” (acusação falsa lançada contra ele pelos defensores do relato bíblico). Na verdade, sua teoria postulava que homens e primatas tiveram um ancestral comum, cuja existência empírica ainda não foi comprovada por testemunho fóssil.

 

representação popular, mas totalmente equivocada, da evolução da espécie humana

 

A sociolinguística de William Labov também é (como a teoria da evolução darwiniana) variacionista, ou seja, pressupõe, num mesmo recorte temporal de uma língua, a concorrência entre formas variantes que, devido às dinâmicas sociais, acaba levando à substituição de uma forma mais antiga por outra, inovadora, sem que isso represente uma mudança para melhor nem para pior.

Por exemplo, numa fase antiga do que agora se chama português, a palavra que hoje é cor, monossílaba, derivada do latim colore-, se escrevia coor e se pronunciava [koor], dissílaba. Em dada época, uma geração nova de falantes passou a pronunciar [kor] (um fenômeno conhecido como crase: fusão de duas vogais iguais numa só), enquanto a mais antiga pronunciava [koor]: ou seja, [kor] e [koor] estiveram em circulação ao mesmo tempo. Com o desaparecimento da geração que dizia [koor] e a difusão por toda a sociedade da forma [kor], esta se tornou a predominante na língua, tanto que a ortografia convencionou cor. Como os processos de mudança nunca se interrompem, a pronúncia mais antiga [kor] sofreu no português brasileiro a concorrência de [koh], forma hoje mais difundida, com uma aspiração final. Esta forma [koh], porém, já sofre, por sua vez, a concorrência de [ko], sem consoante final. A implementação ou não dessa nova mudança vai depender das dinâmicas sociais ou, mais concretamente, da conquista ou não de prestígio social de quem pronuncia [ko]. As pronúncias [koor], [kor], [koh] e [ko] sempre estiveram perfeitamente “adaptadas”, em suas épocas, à necessidades dos falantes de designar a “propriedade de uma radiação eletromagnética, com comprimento de onda pertencente ao espectro visível, capaz de produzir no olho uma sensação característica” (Dicionário Houaiss).

A noção de mudança linguística vigente no século 19 se assemelhava ao modelo “do girino ao sapo”, tanto quanto a ideia corrente de “evolução” postula um modelo “do macaco ao homem”. Darwin já tinha mostrado que não é assim, mas no caso da evolução linguística foi preciso esperar até a década de 1960. A sociolinguística postula que se houve mudança é porque primeiro houve variação, um postulado que é idêntico ao da teoria darwiniana.

Os usos um tanto distorcidos feitos pelos linguistas do século 19 do modelo teórico de Darwin levaram a uma quase proibição, durante muito tempo, de qualquer tentativa de observar os fenômenos linguísticos por uma ótica evolucionista, como acabamos de fazer. Mais recentemente, entretanto, muitos pesquisadores vêm propondo, sim, explicações evolucionistas (ou, de forma mais restrita, pelo critério da adaptação) para diversos aspectos das línguas humanas, aspectos que apresentam ampla universalidade de ocorrência. Já não se trata agora, porém, de fazer como aqueles linguistas do passado e equiparar as línguas às espécies animais e vegetais, mas de considerar as línguas dentro dos processos de mudança e adaptação das culturas humanas.

Ao contrário de construtos teóricos (como o gerativismo chomskiano) que consideram a mudança linguística e os universais da linguagem como decorrentes de propriedades biológicas, inatas, as correntes que trabalham com a noção de evolução cultural preferem ver as línguas como complexos sistemas adaptativos modelados e remodelados pelos falantes por meio de suas interações com o meio ambiente em que vivem e com os demais membros de suas comunidades: é para dar respostas às necessidades advindas dessas interações que os falantes moldam e remoldam suas línguas, e não por causa de forças internas, inerentes às línguas. São muitos os nomes que poderíamos citar nesse campo de estudos, mas basta mencionar o mais conhecido deles, o do estadunidense Michael Tomasello, autor de diversos livros, um deles publicado no Brasil: As origens culturais da aquisição de conhecimento (2003).

No campo da língua, portanto, evolução é o mesmo que mudança e essa mudança nunca é para melhor nem (muito menos) para pior: é simplesmente a transformação das formas linguísticas devida a processos sociocognitivos característicos (e exclusivos) da espécie humana.

E joga no lixo aquela figura “do macaco ao homem”! É a mais antiga das fake news!

 

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