Blog da Parábola Editorial

¡Portuñol, yo te hablaré!

portuñol

 

Espanhol e Português comparados

 

É sempre igual, começo me debatendo contra ele. Não contra o portunhol, mas contra o meu portunhol. A vergonha de me sentir um farsante falando uma língua que é uma farsa não me deixa me sentir à vontade falando minha língua na língua alheia assim tão descaradamente.


Ao descer do avião, me aferro ao português. Arrisco fórmulas de cortesia. Nas primeiras interações, peço:

 

— Posso falar em português? Yo comprendo muy bien el castellano pero no lo hablo bien.

 

Não se passam alguns minutos e já me vejo forçado a ajustar o léxico: auto, calle, dirección, e por aí afora. Pequenas frases vão se impondo:

 

— Por favor, señora, donde puedo tomar um táxi? Gracias.

 

Mas la vergüenza, el sentimiento de ser un farsante a hablar una lengua que es una farsa, me acompanha, me olha insistentemente e faz com que eu me veja como ela me vê. Acuso o golpe, mas vou cedendo ao papel:

 

— Muy linda la ciudad. No, no la conocíamos todavía. Este barrio, como elle se llama? Ah… Acá viven los ricos, puedo notar. Claro, comprendo.

 

— Mira, cambiamos de barrio.

 

— Como se llama este? Sí, si… Ah, nos quedaremos acá unos dias y después vamos a la playa. Claro, claro. Otro barrio. Siempre que llego a una cuidad pela primera vez, me gusta ver estes cambios de barrio y de grupos sociales (as marcas da separação e da segregação social, penso e não digo). Nos quedaremos acá, entonces? Muy rico. Llegamos. Listo. Gracias.

 

Instalado, rendo-me à inevitabilidade do portunhol. Vou aprendendo as pequenas expressões locais. As fórmulas de cortesia me encantam, essas pequenas delicadezas que nos acomodam em nossas interações.

 

— Que pasen lindo — essa eu trouxe na bagagem de mão.

 

Vou apurando o ouvido. Em um, dois dias, o que me escapa à compreensão mais e mais são nuances. Não compreendo algumas palavras, normalmente as mais ligadas ao cotidiano e à oralidade e não tão comuns no espanhol a que estou acostumado, o dos livros e jornais, e me custa entender o uso mais fino dos mecanismos responsáveis pela regulação das enunciações.

 

Melhor vai ficando o ouvido, mais la fuerza de la vergüenza afrouxa, mais me liberto de falar por imposição da necessidade, mais me entrego à vontade de hablar esta lengua que siento como la más vecina de mi lengua. Nada que elimine por inteiro a sensação de ser um farsante falando uma farsa, contudo. Brinco com minha falsa desenvoltura. Tiram sarro dela. Rimos e seguimos em portuñol.

 

Não escondo o alívio quando encontro interlocutores que compreendem o português. Um retorno a lo de Mauricio, chez moi. Alguns desses se dedicam a falar português, falam espanhol em português; ou, simplesmente: portuñol.

 

Não sei quando se dá a mudança, mas acabo por me entregar, desavergonhada e deliciosamente, a esse espaço instável e movediço de intercompreensão que só pode ser construído pelo esforço mútuo dos que nos movemos em direção ao outro com o que temos para levar: nossa língua e fragmentos da língua alheia. Que farsa, que nada. Que farsantes, o quê: estamos em busca do encontro. Adiós, vergüenza; portuñol, yo te hablaré.

 

Aqui e ali, chego a receber elogios ao “meu espanhol” e críticas aos brasileiros que, tendo saído de seu país, não se esforçam para se deslocar ao território linguístico estrangeiro. Contam-me histórias de interincompreensão e os desencontros e conflitos decorrentes.

 

Assumo o portuñol; la vergüneza partió, mas um certo recato ficou. Até o táxi em direção ao aeroporto. Na hora da despedida, a caminho do retorno, agarro-me ao portuñol e, estimulado pelo motorista tagarela e interessado em saber as impressões que levaríamos de seu país, o portunhol explode em livre manifestação. Desenfreadamente, deixo-me falar rápido, entusiasmado, aquilo que se fala em um táxi, contornando também aquilo que não se deve falar em um. Converso festivamente sobre a viagem, os locais conhecidos, o que se comeu, o que se bebeu, hábitos, futebol, comparações gerais entre países, cidades, nossos vizinhos comuns…

 

Fora do táxi, retorno a mim. Restabelecido, percebo a explosão catártica de mi portuñol. Surpreso, pergunto:

 

— Viu como desembestei a falar?

 

— Vi — recebo em monossilábica resposta.

 

Em silêncio, nos dedicamos à rotina. Sorrio a mim mesmo, contente com el portuñol. Aos poucos, os ritos do retorno vão me devolvendo ao português; a cada etapa vencida, mais me vejo cercado de brasileiros e mais meu entorno é recoberto por minha língua materna. Por não ter deixado de falar português na língua alheia, sinto voltar pra casa sem ter ido ao fim. É por essa fresta que la vergüenza sai de sua tocaia. Capitulo ao seu retorno: por mais bonito que possa ser o esforço de intercompreensão, isso não é língua e não dá pra sair falando feito doido esse troço que achamos que parece ser, mas não é, a língua do outro e que também já não é a nossa. Cruzamos a fronteira do esdrúxulo sem a consciência de tê-la cruzado e seguimos em frente, sorridentes e ignorantes de nossa ignorância.

 

Estaca zero? Nem tanto. Apenas a reacomodação da vergonha, em nova fase. De volta, o espanhol se instala ainda mais no meu cotidiano, por canções, a literatura, ensaios, textos científicos, jornais, rádios. A cada mergulho desses, a cada embate com la sensación de vergüenza de ser un farsante a hablar una farsa linguística, vuelvo a lo de Mauricio con el portuñol cada vez mejor, trayendo, más y más, em mi y em mi bagaje, o que o encontro propicia.

 

 

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