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Letramento como prática social

Letramento como prática social

 

Brian Street:  “Buscamos um letramento baseado no que as pessoas realmente fazem”

Entrevista com Brian Street realizada pela Universidade Federal de São João Del Rei.

 

 

Como você define os Novos Estudos sobre o Letramento (New Literacy Studies – NLS)?

BS: Os NLS mostram que o letramento varia nas diferentes culturas, nos diferentes espaços dentro de uma cultura, nas distintas instituições e contextos. Você pode escolher um tipo de letramento para atender a um objetivo, mas não significa que pode transferir esse tipo de letramento para outro contexto. Se você coloca um texto para alguém ler, talvez a pessoa pronuncie algumas palavras, ou entenda a ortografia, ou os significados, as interações sociais, as relações. Adquirir letramento no colégio não significa saber lidar com o letramento na Universidade. Adquirir um letramento associado à Geografia não significa poder usar esse letramento na Engenharia. Os alunos, particularmente aqueles de cursos multidisciplinares, lutam muito, pois os professores dizem:

 

“Se você não consegue ler direito, vá consertar isso. Eu ensino Geografia, eu ensino Engenharia, eu não tenho que ensinar letramento.” É o “Letramento”, com L maiúsculo.

 

O trabalho de campo feito no Irã pode ser um exemplo de como funciona o NLS nesse contexto de múltiplos letramentos?

BS: Quando fui pela primeira vez eu não estava indo estudar letramento. Estava interessado nos textos, na leitura e na escrita, e logo ficou aparente que as pessoas nos pequenos vilarejos no alto das montanhas estavam praticando muito letramento, mas os meus colegas na cidade e na Universidade ou na Unesco, que estava situada em Teerã naquela época, chegavam nos vilarejos e diziam que todos eram iletrados, analfabetos. E eu dizia: “Olhem, todos estão ocupados fazendo anotações para comprar e vender frutas, na mesquita com o Alcorão, na escola, estão muito ocupados com o letramento, só que não estamos vendo.” É um insight simples que percebi também em Uganda, na Etiópia, Índia, América do Norte. Nós pensamos numa única forma de letramento, então observamos as pessoas do local, que parecem não estar fazendo isso, e dizemos que elas não têm letramento. Portanto, a abordagem etnográfica diz:

 

“espere um momento, suspenda seu próprio julgamento, você pode achar que isso não é letramento, mas o que é que eles estão fazendo?”

 

Então eu me sentava numa cafeteria ou casa de chá e as pessoas passavam e paravam para conversar. Anotações, livros-textos, pilhas deles: havia todo esse letramento. Então, gradualmente, o que ficou visível é que eram letramentos diferentes – letramentos no plural. O que precisávamos era de um modelo de letramento diferente daquele que possuíamos. Então, comecei a descrever três tipos diferentes de letramento: o comercial, o do Alcorão (o uso da religião na escola) e o letramento escolar. Tinha uma escola nova, mas ela estava muito distante dos outros tipos de letramento: a escola está distante dos letramentos cotidianos com os quais as pessoas se engajam.

 

 

Essa distância entre a escola e os letramentos cotidianos é uma realidade mundial?

BS: Não só aqui, mas em outros países. Em Palmares [bairro de Belo Horizonte], você pode ver as pessoas fazendo uso do letramento para comprar e vender mercadorias, mas a gente olha os livros-textos das escolas e as duas coisas não interagem necessariamente. Sei que as pessoas estão trabalhando aqui e na UFMG para fazer essa interação. Esse me parece o trabalho a ser feito no próximo estágio [dos estudos] do letramento. Mas se tomarmos os Estados Unidos ou a Inglaterra como exemplos, veremos que a posição dos governos é ainda de adotar o modelo autônomo de letramento único. O governo dos EUA diz: “nenhuma criança ficará para trás”; o governo do Reino Unido diz: “a estratégia nacional de letramento”. Então, nas escolas, os professores sentam-se na frente das crianças que estão anotando e dizem “nós vamos ensinar vocês” e filmam tudo isso: a ortografia, os sinais, os sons, a escrita. Um monte de crianças não aprende. Mas, enquanto isso, na casa deles muito frequentemente o letramento acontece.

 

 

Como você tem percebido os letramentos em suas pesquisas ao redor do mundo?

BS: Os projetos nos quais eu tenho me envolvido têm tentado se construir a partir do conhecimento local. Estamos trabalhando na Etiópia, Índia, Uganda, África do Sul. A gente sai pelo bairro e pergunta: o que eles estão fazendo em termos de letramento? Na Etiópia, estão escrevendo poemas nas paredes da casa, passando bilhetinhos, mas as agências ainda os chamam de iletrados e dizem: “precisamos colocá-los na sala de aula em fila e ensinar-lhes”. O que acontece é que eles desistem. Aí tentamos o letramento para adultos. Na primeira noite podemos ter uma sala com uns 20 alunos; na segunda noite, aparecem 12; na terceira, nove. Para onde eles foram? Eles são burros, ignorantes, iletrados? Talvez do ponto de vista etnográfico eles estejam dizendo: “isso não tem nada a ver com a minha vida, esse professor de pé ali dizendo isso”. Portanto, buscamos programas de letramento baseados no que as pessoas realmente fazem. Em Uganda, os pescadores tomam nota do número de peixes que eles pegam de cada vez, então nós podemos discutir com eles assim: “ok, vocês estão escrevendo usando sinais, layout, números, portanto podemos ajudar a desenvolver um pouquinho mais, para você buscar um emprego com leite de coco, que requer um letramento diferente. Nós vamos te ajudar a conseguir.” A fábrica de leite de coco simplesmente diz que eles são analfabetos, precisam estudar. Nós preferimos começar de onde eles estão, com o letramento que possuem e como ele se relaciona com o letramento que a fábrica de leite de coco quer.

 

 

Como têm sido suas experiências no Brasil em relação ao contato com a população e seus espaços sociais?

BS: Estive no bairro Palmares, Belo Horizonte, com uma colega que fez seu mestrado lá há 20 anos e agora voltou a trabalhar com os filhos daquelas pessoas que na época eram crianças. Uma delas, Ilma, tinha cinco anos. Eu a conheci e ela hoje tem 25. Nós nos sentamos na mesa da casa dela em Palmares e olhamos os livros de escola enquanto seus filhos entravam e saíam. Mas ela nos mostrou também os livros que ela usava em sua época de escola e foi interessante ver como as coisas mudaram. Mas também o ambiente do letramento mudou. A gente andou pelas ruas que a minha colega havia fotografado antes, tudo bem vazio, sem muitas placas. Hoje, existem placas por todo lado. E a Ilma está lutando agora com o fato de que seus filhos estão entrando na internet. Ela é uma pessoa religiosa e teme que a internet vá minar os valores morais e as crenças das pessoas, portanto ela não está contente com esse mundo tomado pela internet. Então, com todas essas mudanças, a questão é:

 

como a escola lida com isso?

  

Um dos grandes educadores da história recente do Brasil, reconhecido mundialmente, é Paulo Freire. Há algum diálogo/interação de sua obra com a herança de Freire?

BS: Há um diálogo considerável, mas não concordamos sempre. Leslie Bartlett, que leciona numa faculdade em Nova York, trabalhou em São Paulo e em João Pessoa com programas de letramento para adultos, baseados na concepção de letramento de Freire. E o que ela descobriu, o que se aprende com a etnografia, é que o engajamento real das pessoas nos programas não se encaixa necessariamente à ideologia que Freire propõe. Para Freire, se você é analfabeto e o outro não é, esse outro pode te explorar. Ele vai vender e comprar coisas e te enganar. Se você for alfabetizado, sua vida vai melhorar. Com a alfabetização aprende-se mais sobre o mundo, torna-se mais socializado. Já o que a Leslie diz é: talvez sim, talvez não. Talvez você adquira letramento para explorar outra pessoa, assim como aquela pessoa fez antes com você. Portanto, o letramento não é necessariamente um bem positivo, enquanto que a posição freiriana assume que, se você adquire letramento, isso será bom; se você não o tem, é ruim; então, vamos dá-lo a você. Na África do Sul, onde alguns dos meus colegas trabalharam com alfabetização de adultos durante o tempo do apartheid, havia projetos de Freire. Pode ser que Freire não tivesse isso em mente, pode ser que seja a forma como as pessoas o representam, mas as pessoas o estavam utilizando para ajudar os negros pobres a adquirirem letramento, com a ideia de que, se você conseguisse isso, estaria tudo resolvido. Mas, obviamente, era preciso lutar contra o apartheid, não apenas contra a falta de letramento. O letramento não era a nossa primeira batalha política, mas Freire parecia dizer que era. Pode ser que haja um diálogo maior entre os NLS e Freire do que aparenta à primeira vista. Há muito espaço para diálogo e para concordância.

 

 

O que dizer ao estudante e ao pesquisador em Educação de São João del-Rei e do Brasil, em relação ao seu campo de pesquisa, às demandas e potenciais que os espaços sociais da cidade e do país apresentam?

BS: Há aqui um conjunto de conceitos e de métodos que podem ser diferentes daqueles com os quais você está familiarizado. Experimente-os. Estou dizendo para se engajar com os alunos, adotar essas ideias e métodos, ver o que acontece. Comunique os resultados. Poderá concluir que não funcionou, que induziu ao erro, que havia outras questões. Estamos constantemente aprendendo. E é isso que queremos fazer com os estudantes de São João e da UFMG. Eles viajam por um mês, seis semanas, fazem um trabalho, voltam e apresentam os resultados uns para os outros e para mim.

 

Brian Street foi professor do King’s College, onde integrou o grupo de pesquisadores do Centro de Linguagem, Discurso e Comunicação (Centre for Language, Discourse & Communication - LDC). Nos anos 1970, Brian realizou trabalhos antropológicos vinculados à teoria do letramento no Irã e lecionou antropologia social e cultural por 20 anos na University of Sussex, também na Inglaterra. Seus trabalhos sobre letramento buscaram relacionar as áreas de Linguagem, Educação e Antropologia, cujo foco principal é a perspectiva etnográfica do letramento e da alfabetização. Dentre as suas principais publicações, está Letramento em Teoria e Prática (Literacy in Theory and Practice), marco da tendência Novos Estudos em Letramento (New Literacy Studies (NLS) e Letramentos Sociais: abordagens críticas do letramento no desenvolvimento, na etnografia e na educacação  (Parábola Editorial, 2014). Atualmente morava em Belo Horizonte, MG. Bryan faleceu na madrugada do dia 22/06/2017.

 

Fonte: ASCOM, UFJF [Publicada em 13/09/2010]

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