Blog da Parábola Editorial

Repensar o objeto de ensino de uma aula de português

Repensar o objeto de ensino de uma aula de português

 

Uma forma de inserir o aprendiz na cultura letrada

 

O linguista Marcos Bagno considera lamentável que a imagem da língua portuguesa tenha sido empobrecida e reduzida a uma nomenclatura profusa e confusa e a exercícios mecânicos de análise sintática e morfológica. Para ele, essas são “práticas que se revelam, ao fim e ao cabo, inúteis e irrelevantes para, de fato, levar alguém a se valer dos muitos recursos que a língua oferece”. Ganhador do Prêmio Jabuti, Bagno é professor da Universidade de Brasília (UnB), pesquisador associado do Instituto da Língua Galega – Universidade de Santiago de Compostela, e atua no campo da educação linguística. No livro Preconceito linguístico (Parábola Editorial, 2015), o escritor reitera seu discurso em favor de uma educação linguística voltada para a inclusão social, o reconhecimento e a valorização da diversidade cultural brasileira.

 


 

Bagno declara: “O ensino de língua portuguesa e de produção de texto é um fracasso”. O maior problema do Brasil é a deficiência de letramento, que atinge não só a maioria de nossa população (75% dos brasileiros são analfabetos funcionais), como também as pessoas que supostamente deveriam trabalhar para a inserção dos aprendizes na cultura letrada: as professoras e os professores de Português (e, por tabela, os das outras disciplinas). “A formação que se dá nos cursos de Pedagogia e de Letras em nosso país é péssima, anacrônica, ultrapassada”, critica. Acompanhe a seguir a entrevista com o autor.

 

O ensino de língua portuguesa e de produção de texto é um fracasso

 

Profissão Mestre: O ensino de língua portuguesa e de produção de texto está fracassando?

 

Bagno: O ensino de língua portuguesa e de produção de texto é um fracasso, e não que está fracassando. Nosso maior problema é a deficiência de letramento que atinge não só a maioria de nossa população (75% dos brasileiros são analfabetos funcionais), como também as pessoas que supostamente deveriam trabalhar para a inserção dos aprendizes na cultura letrada: as professoras e os professores de língua portuguesa (e, por tabela, os das outras disciplinas). A formação que se dá nos cursos de Pedagogia e de Letras em nosso país é péssima, anacrônica, ultrapassada. O próprio nome do curso de Letras revela um apego inconcebível a concepções de língua e de ensino de língua que vigoravam no século XIX, antes do surgimento da linguística moderna e das teorias pedagógicas mais avançadas. As pessoas que se formam hoje em dia como docentes vêm de camadas sociais desfavorecidas, de famílias com baixa instrução formal e, muitas vezes, com pais e mães analfabetos. Sem se dar conta disso, a universidade acolhe essas pessoas como se elas já fossem ótimas leitoras e produtoras de texto, quando na grande maioria dos casos vai ser ali, na universidade, que pela primeira vez elas terão de ler um livro completo, uma obra teórica, um romance de autor consagrado. O resultado é um desastre ecológico pior que as queimadas da Amazônia: as pessoas saem diplomadas sem habilidades mínimas de leitura e de escrita e depois vão ocupar as salas de aula, onde supostamente deveriam ensinar outras pessoas a ler e a escrever. Enquanto não houver uma implosão dos cursos de Letras e Pedagogia e a construção de novas estruturas acadêmicas realistas e honestas, capazes de formar docentes dignos desse nome, continuaremos a viver essa tragédia.

 

Profissão Mestre: É necessário repensar o ensino de língua portuguesa nas escolas brasileiras? Nesse caso, o que deve mudar?

 

Bagno: Tem havido muitas iniciativas oficiais louváveis nos últimos anos, com projetos bem direcionados à renovação do ensino nas escolas públicas. Um desses [projetos] é o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), que há mais de vinte anos adquire e distribui material didático de qualidade a todas as escolas do país. Livros didáticos melhores favorecem um ensino melhor. No entanto, não adianta entregar bons livros a docentes incapazes de interagir satisfatoriamente com eles. Não admira que os livros mais conservadores e menos exigentes sejam exatamente os mais escolhidos pelos docentes: sua formação deficiente não lhes permite fazer um uso autônomo, criativo e crítico das obras didáticas de ponta. Por isso é que insisto: antes de pensar em mudar o que acontece nas escolas, é preciso mudar o que acontece na formação docente.

 

Profissão Mestre: Há resistência em substituir os métodos tradicionais de ensino da língua portuguesa no Brasil?

 

Bagno: Sim, muita resistência. Ela se deve, principalmente, às horrendas condições de trabalho nas escolas públicas. A professora tem de enfrentar muitas vezes três turnos de aulas, com classes superlotadas, para receber um salário obsceno. Como exigir que possa preparar as aulas, pesquisar material interessante, discutir com colegas, ler etc.? Assim, é mais fácil e menos estafante dar as aulas de sempre, que já estão prontas há muito tempo ou já vêm preparadas no livro didático. Não é questão de preguiça: é questão de péssimas condições de trabalho. Muitas pessoas dedicadas à docência repetem que o salário, embora importante, conta menos que as condições de trabalho. Não adianta querer revolucionar o ensino sem garantir que essa revolução seja feita por pessoas bem pagas e bem preparadas. Outro problema é que, apesar de todos os avanços teóricos e metodológicos ocorridos nas ciências da linguagem e da educação nos últimos tempos, muita gente que ensina nas universidades ainda prega uma doutrina gramatical anacrônica, ultraconservadora, em consonância com uma ideologia política igualmente conservadora. É muito comum, por exemplo, que os estudantes, ao fazerem os estágios docentes coordenados por professores dos cursos de Pedagogia, escutem que “linguística é tudo bobagem, o que vale mesmo é a gramática tradicional”.

 

linguística é tudo bobagem, o que vale mesmo é a gramática tradicional

 

Profissão Mestre: A gramática tradicional é citada no livro como um instrumento de dominação e exclusão social. Como isso ocorre?

 

Bagno: Desde que a disciplina chamada Gramática surgiu, no século III a.C., na cultura de língua grega, seu objetivo foi determinar um modo supostamente “bonito” e “correto” de falar e, principalmente, de escrever. Para tanto, os gramáticos selecionaram como modelo dessa língua “correta” os usos de um grupo social muito restrito:

(a) homens (já que as mulheres eram vistas como socialmente inferiores);

(b) livres (já que a sociedade se baseava no trabalho escravo);

(c) pertencentes à oligarquia social (classe dominante);

(d) letrados (capazes de ler e escrever).

 

Fica fácil imaginar quantas pessoas, no mundo antigo, preenchiam todos esses critérios: uma ínfima minoria da população. Essa ideia de que a língua “bonita e boa” pertencia a uma elite continuou a vigorar durante os séculos seguintes. O primeiro gramático português, Fernão de Oliveira, escreveu que era preciso “aprender a falar melhor com os melhores” (1536). O gramático português João de Barros, no século XVI, dizia que a gramática se valia do “uso dos barões doutos”, isto é, dos homens (barões é uma forma antiga de varões) letrados. No século XVII, o aristocrata francês Vaugelas dizia que a língua exemplar era a da “parte mais sadia da Corte”, ou seja, da nata da aristocracia. Essa seleção implicou, desde sempre, na exclusão de todo o resto da sociedade: mulheres, classes sociais subalternas, pessoas sem educação formal etc. Como escreveram os linguistas brasileiros Rodolfo Ilari e Renato Basso, nunca existiu uma “gramática dos pobres”. Assim, tentar impor um modelo de língua altamente idealizado e elitizado para todo o resto da população é tentar, ao mesmo tempo, impor um modo de vida, uma visão de mundo, uma concepção de sociedade extremamente elitista e excludente. Por isso, as gramáticas de perfil tradicional, mesmo que não assumam explicitamente essa ideologia retrógrada, filiam-se a essas ideias a partir do momento em que só dão exemplos do “uso” da língua extraídos de obras literárias de autores consagrados, de preferência já bem mortos e enterrados. Por isso, é preciso libertar o ensino dessa ideologia e levar as pessoas a se apoderar de sua língua sob todos os seus aspectos e usos, e não somente visando ao domínio de um padrão irrealista, anacrônico e excludente.

 

Profissão Mestre: O professor deve ter consciência de que o domínio da norma culta tem implicações socioculturais? Esse entendimento pode contribuir para melhorar o ensino da língua portuguesa?

 

Bagno: A primeira grande questão aqui é terminológica. Existe uma confusão muito grande quando se fala de “norma culta”. As pessoas acham que sabem o que esse termo designa, mas na verdade não sabem. Na sociolinguística, chamamos de “norma culta” (ou, como eu prefiro, de “variedades urbanas de prestígio”) o conjunto das variedades autênticas realmente empregadas pelas pessoas rotuladas de cultas, isto é, com vivência urbana e curso superior completo. Gravando a fala real dessas pessoas, conseguimos identificar a verdadeira norma culta brasileira, que apresenta grandes traços gerais, mas também distinções regionais. Por outro lado, existe um modelo idealizado de “língua correta”, inspirado nas opções dos escritores consagrados do passado. Esse modelo é chamado de “norma-padrão". Essa norma-padrão é o que nos diz, por exemplo, que a conjugação verbal tem seis pessoas (eu, tu, ele, nós, vós, eles), sem levar em conta que o pronome tu, no Brasil, é de uso restrito a algumas regiões, e que o pronome vós deixou de ser usado na língua portuguesa há mais de 300 anos. Já na norma culta real encontramos um quadro de conjugação diferente: eu, tu/você, ele, nós/a gente, vocês, eles. É essa norma culta real que precisa ser conhecida e realmente ensinada. É nela que falam e escrevem as pessoas cultas do Brasil hoje. Ninguém usa a norma-padrão, a não ser em textos escritos altamente formais e, mesmo assim, cada vez mais raros. De toda maneira, tanto a norma culta real quanto a norma-padrão ideal precisam ser apresentadas na escola como entidades socioculturais sujeitas, como tudo na sociedade, ao impacto das ideologias, das concepções de mundo e da sociedade. Para isso, é preciso se libertar da dicotomia do “certo” e do “errado” como se fossem verdades eternas e questionar: “Certo” para quem? “Certo” onde? Quando? Para que classes sociais? Em que gêneros textuais?

 

Profissão Mestre: O senhor defende que usar a língua, tanto na modalidade oral como na escrita, é encontrar o ponto de equilíbrio entre dois eixos: o da adequabilidade e o da aceitabilidade. Como esse equilíbrio funciona na prática de ensino da língua portuguesa? É possível respeitar as características regionais da língua?

 

quem diz o quê, a quem, como, quando, onde, por que e visando a que efeito…

 

Bagno: Quando falamos (ou escrevemos), tendemos a nos adequar à situação de uso da língua em que nos encontramos: se é uma situação formal, tentaremos usar uma linguagem formal; se é uma situação descontraída, uma linguagem descontraída, e assim por diante. Essa nossa tentativa de adequação se baseia naquilo que consideramos ser o grau de aceitabilidade do que estamos dizendo por parte de nosso interlocutor ou interlocutores. É totalmente inadequado, por exemplo, fazer uma palestra num congresso científico usando gíria, expressões marcadamente regionais, palavrões etc. A plateia dificilmente aceitará isso. É claro que, se o objetivo do palestrante for precisamente chocar seus ouvintes, aquela linguagem será muito adequada… Não é adequado que um agrônomo se dirija a um lavrador analfabeto usando uma terminologia altamente técnica e especializada, a menos que queira não se fazer entender (e, se for esse seu objetivo, sua fala será plenamente “adequada” à sua intenção). Tudo sempre vai depender de quem diz o quê, a quem, como, quando, onde, por que e visando a que efeito… Evidentemente, a noção de adequado varia de pessoa para pessoa, de grupo social para grupo social, de uma cultura para outra. Os compositores de rap e funk das periferias pobres e marginalizadas, por exemplo, fazem absoluta questão de compor suas letras sem se preocupar se serão aceitas ou não pelas classes privilegiadas da sociedade, pelas “pessoas de bem” e pelas noções de “bom gosto” que elas impõem, ou tentam impor, às outras classes sociais. Isso, para eles, é mais que simplesmente “adequado”: é uma arma na luta deles contra os terríveis preconceitos sociais que pesam sobre a imensa maioria de nossa população. Assim, “adequar-se” não significa obrigatoriamente satisfazer as expectativas das camadas dominantes, que ditam as regras e as normas, que querem impor seu modo de vida e sua visão de mundo ao resto da sociedade. Pode significar precisamente o contrário!

 

Profissão Mestre: Por fim, qual deve ser o objeto de ensino nas aulas de língua portuguesa?

 

Bagno: Não se trata tanto de objeto, mas de objetivos de ensino de língua portuguesa. O principal, primordial, precípuo (e eu diria até exclusivo) objetivo da educação linguística é a inserção do aprendiz na cultura letrada. Somos um país de analfabetos funcionais. Só poderemos ter uma população realmente capaz de exercer seus direitos e seus deveres, ou seja, de exercer sua cidadania, quando a maioria dela dominar plenamente a leitura e a escrita. E, para isso, já está provado e comprovado, não adianta de nada saber o que é uma oração subordinada substantiva completiva objetiva direta reduzida de infinitivo. Essa nomenclatura é irrelevante, inútil, e só serve para provocar a repulsa das pessoas pelas aulas de português. O importante é saber usar esse mecanismo gramatical, saber fazer uso adequado dos recursos que a língua oferece e, para isso, só com muita leitura, muita releitura, muita rerreleitura, muita escrita, muita reescrita, muita rerreescrita. Enquanto se continuar achando que saber língua portuguesa é saber diferenciar um adjunto adnominal de um complemento nominal (diferença, aliás, que a linguística moderna contesta), as pessoas vão sair da escola sem saber ler, sem saber escrever e, claro, sem saber “gramática”, pois esse suposto saber não tem nenhuma serventia na vida dos cidadãos.

 

Texto reproduzido e adaptado da Revista Profissão Mestre escrito por Carolina Mainardes e originalmente publicado em 4 de maio de 2015.

 

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Prática de ensino de língua portuguesa
O ensino da leitura

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