Blog da Parábola Editorial

VAMOS ESTUDAR BANTO?

palavras

 

Formação do português brasileiro

 

 

O destaque que as práticas religiosas de matriz iorubana adquiriram na cultura brasileira, especialmente na baiana, teve como consequência um desequilíbrio no interesse pelas línguas africanas que deram sua contribuição à formação do português brasileiro. Ocorreu uma supervalorização do iorubá e uma quase invisibilização das línguas do grupo banto (quimbundo, quicongo e umbundo), que tiveram um impacto muito mais profundo na nossa língua. Muitas pessoas, em busca das raízes africanas da nossa formação social e cultural, ou em busca de suas próprias raízes étnicas, se dedicam ao estudo do iorubá, considerado como o componente principal dessas raízes.

 

Aconteceu com as línguas africanas algo parecido com o que aconteceu com as línguas indígenas no nosso imaginário: muitas pessoas acreditam que a única língua falada pelos habitantes mais antigos do Brasil era o "tupi-guarani" (uma língua que nunca existiu, aliás, porque o termo tupi-guarani se aplica a uma família de línguas e não a uma língua única). Ora, até hoje, depois de séculos de genocídio sistemático, sobrevivem mais de 180 línguas indígenas, agrupadas em diferentes troncos linguísticos, tão diferentes entre si quanto o português e o japonês, por exemplo. Na verdade, calcula-se em mais de mil o número de línguas faladas pelos índios no momento da invasão portuguesa.

 

 

muitas pessoas acreditam que a única língua falada pelos habitantes mais antigos do Brasil era o "tupi-guarani"

 

 

O mesmo parece ocorrer quando as pessoas se referem às línguas africanas: falam do iorubá (que seria mais adequado chamar de ioruba, paroxítono) como se tivesse sido a única língua trazida pelas pessoas escravizadas. Mas a história não é bem assim. Milhões de falantes de línguas bantas foram escravizados e traficados para o Brasil quase duzentos anos antes dos falantes de ioruba. Vieram principalmente de Angola, onde até hoje o quimbundo, o quicongo e o umbundo são falados por milhões de pessoas, e de Moçambique. O ioruba pertence a outro grupo linguístico, chamado kwa, falado na Nigéria, no Benin e em outras áreas da África ocidental.

 

Além disso, os iorubanos foram concentrados em algumas áreas, com destaque para o Recôncavo Baiano, enquanto os bantos foram levados para quase todas as regiões sob domínio português no que viria a ser o Brasil. Sabemos que durante praticamente todo o período colonial as pessoas de origem africana representaram a maioria da população: no momento da chamada Independência, 75% da população tinha essa origem. E são também de origem banta 75% das palavras africanas que compõem o léxico brasileiro.

 

 

sabemos que durante praticamente todo o período colonial as pessoas de origem africana representaram a maioria da população

 

 

Os termos de origem ioruba se limitam, na maioria, à esfera da religião, como orixáaxé, babalaô etc., ou a alguns pratos característicos da culinária baiana: acarajé, abará, vatapá. No entanto, o termo candomblé, usado para designar os ritos iorubanos, é formado da junção do quimbundo candombe ("hábito, costume de negros" e, em seguida, "dança realizado ao som de atabaques") com o ioruba ilé, "casa". Um indício da importância do elemento banto até mesmo naquilo que é tido como mais caracteristicamente ioruba.

 

É muito fácil verificar a riqueza do vocabulário banto no português brasileiro. Um bom exemplo são os termos que empregamos para fazer referência a pessoas: caçula, candango, jagunço, moleque, curinga, dunga, careca, bamba (e seu reforço: bambambã), banguela, borocoxô, capanga, capenga, mucama, sacana. Na cozinha o banto está muito presente: canjica, farofa, mocotó, moqueca, moranga, mugunzá, fubá, quiabo, quindim, quitute, tutu, jiló, dendê e por aí vai. Objetos como caçamba, camburão, carimbo, moringa, quitanda, sunga, cachimbo têm nomes bantos. O quilombo e a senzala também, assim como bagunça, fofoca, muamba, miçanga, muvuca, muxoxo, marimbondo, cabaço, calango etc. O nosso verbo xingar, tão útil, vem do quimbundo, assim como cochilar. E, por fim, duas grandes preferências nacionais: o samba e a bunda. Como se vê, é difícil a gente passar um dia inteiro sem usar pelo menos uma palavra do quimbundo, do quicongo ou do umbundo.

 

 

O nosso verbo xingar, tão útil, vem do quimbundo, assim como cochilar

 

 

Além disso, cada vez mais a pesquisa linguística empreendida no Brasil vai revelando o forte impacto das estruturas gramaticais do banto sobre a sintaxe do português brasileiro, uma sintaxe que apresenta diversas construções desconhecidas não só no português europeu como também em outras línguas neolatinas.

 

É muito importante conhecer, preservar e difundir a contribuição dos iorubanos à nossa cultura, e em várias universidades encontramos cursos de língua iorubá. Mas também é fundamental reconhecer o papel decisivo desempenhado pelos falantes de línguas bantas, principalmente o quimbundo, em tudo o que diz respeito à nossa formação social, com destaque para a constituição de uma língua toda nossa, o português brasileiro.

 

 

INGEDORE KOCH
Língua portuguesa em pauta 

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