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O PORTUGUÊS BRASILEIRO E O PORTUGUÊS EUROPEU

O PORTUGUÊS BRASILEIRO E O PORTUGUÊS EUROPEU

 

Quando nasce uma língua nova?

 

A grande maioria das pessoas acredita que definir o que seja uma “língua” é algo fácil e cômodo, e que os linguistas sabem com precisão onde termina uma língua e onde começa outra. Nada mais distante da verdade! Isso porque a definição de “língua” escapa das mãos dos linguistas — que há séculos confessam ser impossível enunciá-la — e vai pousar no terreno pantanoso daquilo que se chama ideologia. Sim, a definição do que é uma “língua” tem muitíssimo mais a ver com questões políticas, religiosas, identitárias etc. do que com questões propriamente linguísticas, isto é, fonético-fonológicas, morfossintáticas, lexicais etc.

 

Sim, a definição do que é uma “língua” tem muitíssimo mais a ver com questões políticas, religiosas, identitárias etc

 

Basta ver o que acontece mundo afora. Muitos modos de falar exatamente iguais recebem nomes diferentes por razões ideológicas profundas. Os linguistas sempre reconheceram a existência de uma língua chamada servo-croata, com um mesmo sistema fonológico e gramatical. Mas depois da sangrenta demolição da Iugoslávia, essa língua passou a receber nada menos do que quatro nomes diferentes: sérvio, croata, bósnio e montenegrino. Cada novo Estado surgido do desmonte da antiga federação faz questão agora de ter sua língua própria, com nome próprio. As antigas e fundas rivalidades étnicas e religiosas impedem qualquer unidade na designação das “línguas”.

 

Por outro lado, modos de falar totalmente diferentes podem receber o mesmo nome. O caso clássico é o do “árabe”. Um falante do árabe marroquino praticamente não entenderá o que um falante do árabe saudita tentar lhe dizer. É o mesmo que acontece, por exemplo, se um brasileiro e um italiano tentarem se comunicar cada um na sua língua. No entanto, todos os modos de falar dos países chamados “árabes” recebem o mesmo nome (“árabe”, é claro), apesar de profundas diferenças. É que a única língua digna de estudo nesses países é o chamado “árabe clássico”, a língua em que foi escrito o Corão, no século VII. Usando esse “árabe clássico”, pessoas letradas dos diferentes países “árabes” conseguem se entender.

 

Por isso, os debates que existem no Brasil, desde a independência, sobre a língua que falamos não poderiam ser nada mais nada menos do que ideológicos também. O mais importante é assumir esse caráter ideológico, em vez de tentar recorrer a supostas explicações linguísticas para defender a “unidade” da língua portuguesa ou a “autonomia” do português brasileiro com relação ao português europeu. Eu defendo claramente essa autonomia e procuro demonstrar, com argumentos fonético-fonológicos e morfossintáticos, que Brasil e Portugal têm duas línguas diferentes, muito aparentadas, é claro, mas diferentes. Mas tenho plena consciência de que a espinha dorsal desse debate é político-ideológica.

 

O debate sobre a diferença entre o português brasileiro e o português europeu tem que se centrar na história das relações entre Portugal e Brasil, e só nela

 

Não me interessam nem um pouco os argumentos dos que tentam invalidar minha posição dizendo que, se for assim, então o espanhol de cada país latino-americano teria de ser considerado uma língua diferente do espanhol da Espanha, ou que o inglês americano e o inglês britânico também deveriam ser vistos como línguas distintas. Não estou nem aí. Principalmente porque a história de cada país hispanófono latino-americano, a história do Brasil, a história de Portugal, a história dos Estados Unidos e a história do Reino Unido são tremendissimamente diferentes umas das outras em muitos e variados aspectos. A colonização do Brasil não foi igual à dos Estados Unidos, como esta não foi igual à do México, à da Bolívia, à do Chile, à do Uruguai etc. A formação social, étnica e econômica de cada país também foi muitíssimo diferente. O debate sobre a diferença entre o português brasileiro e o português europeu tem que se centrar na história das relações entre Portugal e Brasil, e só nela. É o que eu, ideologicamente, sustento.

 

Nos Estados Unidos não se desenvolveu o fenômeno das chamadas “línguas gerais”, de base indígena, como se desenvolveu no Brasil e no México, por exemplo. No Brasil, essas línguas foram amplamente usadas durante a maior parte do período colonial, e só no século XVIII, com a descoberta do ouro em Minas Gerais, é que o português começou a se tornar língua hegemônica por aqui. Nenhum outro país recebeu o número monstruoso de 4.000.000 de africanos escravizados ao longo de trezentos anos nem recebeu, na formação de sua língua majoritária, o mesmo impacto que o português recebeu ao ter de ser aprendido aos trancos e barrancos por esses seres humanos tratados como objetos. Cada vez mais se descobre o quanto o português brasileiro deve às línguas africanas trazidas para cá, sobretudo às do grupo banto. E não é só no vocabulário: é nas profundezas mais íntimas da gramática.

 

O mais importante linguista português da atualidade, Ivo Castro, escreveu as seguintes palavras: “A minha opinião de que a separação estrutural entre a língua de Portugal e a do Brasil é um fenômeno lento e de águas profundas, que é fácil e, a muitos, desejável não observar assenta no convencimento de que a fractura do sistema linguístico existe, mas não é aparente a todos os observadores, nem é agradável a alguns saudosistas”. Ivo Castro é um respeitável senhor de 70 anos, reconhecido mundialmente como um grande pesquisador e teórico das questões de linguagem, justamente homenageado este ano num grande congresso internacional de linguística histórica realizado em Portugal. Não é um pseudoespecialista desses que propagam sua absoluta falta de conhecimento na televisão, no rádio, na internet e em colunas de jornal Brasil afora e Brasil adentro.

 

Pois esse mesmo Ivo Castro também escreveu: “Um dos principais problemas da linguística do português consiste em determinar se as diferenças que se detectam entre as variedades portuguesa e brasileira devem ser encaradas a nível da norma ou a nível de sistema, ou seja, se devem ser consideradas como variedades de um mesmo sistema, ou se pelo contrário constituem sistemas separados e, portanto, línguas diferentes”.

 

A minha opinião de que a separação estrutural entre a língua de Portugal e a do Brasil é um fenômeno lento e de águas profundas

 

Concordo com essas palavras, mas faço uma pequena retificação. Não se trata de um problema “da linguística” porque a definição de “língua”, me repito, simplesmente escapa das mãos dos linguistas. Trata-se de um problema dos falantes, especialmente dos falantes do português brasileiro. Nós é que temos de decidir se a língua que falamos é a mesma ou não que a língua que falam os portugueses.

 

Assim, para responder à pergunta do subtítulo deste texto — “quando nasce uma língua nova?” — a única resposta é: quando as dinâmicas de poder dentro de uma sociedade assim decidem!

 

Infelizmente, as dinâmicas de poder hoje, no Brasil, estão dominadas pelo que existe de mais sórdido, corrupto e inescrupuloso na sociedade. Decisões como a definição de uma língua precisam ser tomadas num ambiente minimamente democrático, coisa que esse país triste está muito, mas muito longe mesmo de saber o que é.

 


  

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