Blog da Parábola Editorial

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LINGUÍSTICA E TRADIÇÃO GRAMATICAL

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QUER QUE EU TE EXPLICO?

 

Poucas pessoas têm ideia do que significa ser um linguista e, mesmo entre elas, muitas costumam achar que os linguistas “combatem” a tradição gramatical e são a favor do “vale-tudo” na língua. Essa é uma concepção distorcida. Seria o mesmo que dizer que o geólogo “defende” os terremotos e as erupções vulcânicas pelo simples fato de estudar esses fenômenos. O antropólogo que estuda as diversas convenções culturais relacionadas à sexualidade (que incluem a poligamia, o incesto, o celibato forçado, a castração, a infibulação etc.) não está “defendendo” nenhuma delas, mas apenas registrando e analisando sua existência, sejam elas consideradas “certas” ou “erradas” pelo código moral da sociedade a que ele mesmo pertence. 

 

Costumam achar que os linguistas “combatem” a tradição gramatical e são a favor do “vale-tudo” na língua

 

O mesmo se pode dizer do linguista. Ao linguista interessa todo e qualquer fenômeno de linguagem, sem distinguir se ele faz parte ou não do que se considera convencionalmente “certo” ou “errado”. Quando determinado uso começa a se tornar muito frequente numa comunidade de falantes, o linguista vai analisar a novidade empregando ferramentas teóricas que lhe permitam entender o fenômeno. Vamos ver um exemplo.

 

Ao linguista interessa todo e qualquer fenômeno de linguagem, sem distinguir se ele faz parte ou não do que se considera convencionalmente “certo”

 

Em diversos lugares do Brasil, as pessoas têm abandonado o uso do subjuntivo, substituído pelo indicativo: em vez de perguntar “Você quer que eu te explique?”, elas perguntam “Você quer que eu te explico?”. Esse não uso do subjuntivo aparece até mesmo na fala de pessoas altamente letradas, em textos escritos formais, de modo que a atribuição do fenômeno à “baixa escolaridade” não explica lá muita coisa. 

 

A definição tradicional do subjuntivo é problemática. No Dicionário Houaiss, por exemplo, a gente lê: [modo verbal] que expressa a ação ou estado denotado pelo verbo como um fato irreal, ou simplesmente possível ou desejado, ou que emite sobre o fato real um julgamento”. Será mesmo assim? Quando digo “eu quero que você me ajude”, a forma verbal de ajude não indica nada de desejo, dúvida, probabilidade etc. O desejo está, de fato, em eu quero que, assim como a probabilidade está em é possível que, ou a dúvida em ela duvida que etc. 

 

Rever criticamente as definições convencionais é parte do trabalho de qualquer cientista

 

Rever criticamente as definições convencionais é parte do trabalho de qualquer cientista. A história de todas as áreas de conhecimento é a história dos conceitos usados nelas e dos termos que, ao longo do tempo, têm sido empregados para definir e redefinir esses conceitos. E a linguística, é claro, também entra nessa dança epistemológica. 

 

Voltando ao subjuntivo, quando se ensina esse modo verbal, é muito comum que o verbo seja conjugado precedido de uma conjunção: que eu fale, que tu fales, que ele fale, que nós falemos etc., ou então se eu falasse, se tu falasses; ou ainda quando eu falar, quando tu falares etc. Isso porque o subjuntivo, como o próprio nome indica (“unido por baixo”), só aparece em orações subordinadas (“ordenadas por baixo”), introduzidas precisamente por conjunções (que, se, quando). O verbo na oração subordinada assume uma forma especial simplesmente para enfatizar a ideia de desejo, dúvida, probabilidade etc. expressa na oração principal. Ou seja: o subjuntivo é um luxo morfossintático, e como todo luxo ele pode ser perfeitamente dispensado. E nós dispensamos luxos morfossintáticos o tempo todo. Usar o subjuntivo é como querer combinar a cor do cinto com a cor dos sapatos, mas essa combinação não tem nada de obrigatória: eu posso usar um cinto preto e sapatos brancos, e essa “descombinação” não vai impedir em nada que o cinto e os sapatos desempenhem suas funções.

 

Na nossa intuição linguística (que é inconsciente), existe uma “lei” que diz: “Evite redundâncias!”

 

Na nossa intuição linguística (que é inconsciente), existe uma “lei” que diz: “Evite redundâncias!”. É o que se chama de princípio da economia linguística. Para que marcar duas vezes uma noção se uma vez só já basta? Para que dizer as bananas podres se a ideia de plural já está dada em as banana podre? Para que usar tantas marcas diferentes para as pessoas dos tempos verbais se a conjugação nós falava, eles falava, vocês falava dá conta do recado? E para que marcar o verbo da subordinada com uma forma especial se as noções de desejo, dúvida, probabilidade etc. já estão no significado do verbo da oração principal?

 

É esse princípio da economia linguística que levou os falantes de inglês a simplificarem drasticamente a morfologia dos verbos da língua

 

É esse princípio da economia linguística que levou os falantes de inglês a simplificarem drasticamente a morfologia dos verbos da língua: no presente, só a 3ª pessoa do singular tem uma marca própria (he love-s), mas no passado nem isso, é love d e só para todas as pessoas.

 

Nós, falantes, reciclamos e reprocessamos a língua o tempo todo graças aos nossos dispositivos cognitivos e às interações sociais. E fazemos tudo isso, repito, inconscientemente. Por isso é tão divertido ver pessoas criticando usos novos que elas mesmas fazem sem se dar conta.

 

linguista está apenas dizendo que o fato existe, que tem explicação e que é inevitável que a mudança prossiga até alcançar todos os falantes da língua

 

Agora, atenção! O fato do linguista dar uma explicação satisfatória para o abandono do subjuntivo não significa que ele esteja “defendendo” esse abandono ou que esteja “propondo” que a partir de agora ninguém mais use o subjuntivo e a escola não ensine mais esse modo verbal. O linguista está apenas dizendo que o fato existe, que tem explicação e que é inevitável que a mudança prossiga até alcançar todos os falantes da língua. O que a sociedade vai fazer com esse fato é outra história, uma história que depende de fatores socioculturais e político-ideológicos. As sociedades de língua inglesa reconhecem hoje sem susto uma forma única (loved) para todas as pessoas verbais. A parte (reduzida) da sociedade brasileira que toma decisões capazes de afetar toda a população ainda não reconhece nós falava, vocês falava, eles falava

 

Quem sabe, daqui a quinhentos anos, quando o Brasil for uma democracia...

 

 

Entrevista com o autor Marcos Bagno.
5 livros para ler em 2019
 

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