Blog da Parábola Editorial

Entrevista com o autor Marcos Bagno.

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 OBJETO LÍNGUA – Inéditos & revisitados

 

- Por que o título Objeto Língua?

MB: A inspiração para o título vem de uma frase do Curso de Linguística Geral de Saussure que ficou muito famosa: “é o ponto de vista que cria o objeto”. É toda uma filosofia da ciência que está embutida nessas poucas palavras. Um geólogo trabalha diretamente com algo que ele pode pegar, tocar, medir, pesar e analisar fisicamente, enquanto um linguista não tem acesso direto à linguagem, “escondida” dentro do funcionamento do cérebro de cada pessoa. Nós somos temos acesso a esses “barulhos” que saem pela boca de um, entram pelo ouvido do outro e, por alguma razão fascinante, fazem sentido, “dizem” alguma coisa. Desse modo, o linguista precisa primeiro “construir” seu objeto de estudo, a língua, porque ela é de natureza completamente diferente de uma pedra, e só depois é que vai poder estudá-la. Assim, se “o ponto de vista cria o objeto”, são muitos os pontos de vista a partir dos quais é possível considerar a língua.

 

- E que pontos de vista seriam esses?

MB: A língua pode ser vista exclusivamente do ponto de vista de seu funcionamento interno, seus sons, suas regras gramaticais, suas palavras e o significado delas. Mas também pode ser vista como um fenômeno intrinsecamente social, cultural, histórico e político. E é essa a perspectiva que adoto no livro. Esses dois pontos de vista, evidentemente, não se excluem, e é sempre mais produtivo estudar a língua como “sistema” mas sempre mergulhada nas dinâmicas sociais que vão reconfigurando esse sistema e sendo reconfiguradas por ele. No entanto, a linguística praticada na primeira metade do século 20 só se interessou pela “língua em si”, fazendo um enorme esforço para desconsiderar o social, o político, o histórico. Felizmente, a partir dos anos 1960, diversas correntes teóricas vieram resgatar o social: a sociolinguística, a análise do discurso, a pragmática, a etnografia da comunicação etc. E, mais recentemente, uma linha de estudos chamada glotopolítica, que recupera os sentidos já conhecidos de “política linguística” e os aprofunda para criar um instrumento de análise sociopolítica dos conflitos linguísticos presentes em toda e qualquer sociedade. Ao contrário do que muita gente ingenuamente acredita, a língua não serve apenas para “comunicar”, se é que serve: na maior parte do tempo, mesmo nas interações mais íntimas, a língua é palco de disputas, de conflitos, de lutas pelo poder-fazer e pelo poder-dizer. É por esse prisma que observo esse objeto que chamo “língua”.

 

- Por que o subtítulo “inéditos e revisitados”?

MB: Já faz pouco mais de vinte anos que comecei a publicar obras voltadas para as questões de língua, linguagem, ensino, política linguística etc. Decidi então fazer um balanço dessa produção, rever alguns textos publicados anteriormente em livros coletivos ou periódicos acadêmicos, difundidos em blogues e sites, reler esse material com olhar bem crítico e avaliar se ainda me reconhecia neles. O resultado foi uma reelaboração profunda desses textos, uma reescrita quase de ponta a ponta, com novas referências bibliográficas, discussão mais atualizada, às vezes até a fusão de dois textos num só, mais completo. Por isso, ao contrário do que se faz convencionalmente, não indico a procedência dos textos, apresento-os como material novo, porque de fato, em grande medida, têm muito mais a ver com o meu momento atual como pesquisador do que com fases mais distanciadas do meu percurso. Além disso, no tocante aos “inéditos”, aparecem impressas pela primeira vez algumas intervenções orais que fiz em congressos, seminários etc. Esses textos também foram muito retrabalhados, até mesmo para se encaixarem em algum gênero mais definido.

 

- Tendo origens tão diversas, os gêneros também devem ser variados, não é?

MB: Sem dúvida. Cada texto é independente, embora, inevitavelmente, alguns dialoguem entre si, já que certos temas se repetem, assim como (mais uma vez) o ponto de vista assumido na discussão. Por isso é que não usei o termo “capítulo” para identificar os textos. O livro se abre com uma provocação política sem disfarces: “A norma culta que se lasque!”. Publiquei esse texto num site jornalístico, e ele me rendeu uma enxurrada de apoios efusivos e de críticas ferrenhas. Pouco depois, participei de uma mesa-redonda na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, ao lado dos colegas linguistas Xoán Lagares e Dante Lucchesi, professores da casa, em que respondi àquelas críticas, uma fala que aparece impressa agora no livro com o título “Com as ferramentas do patrão? Até quando?”. O primeiro texto remete ao segundo, por isso aparecem nessa ordem no livro. Outro gênero presente é o da chamada divulgação científica. São textos curtos, sem muito recurso à terminologia especializada, que tratam de alguns temas que costumam despertar a curiosidade das pessoas, mas que em geral recebem tratamento muito inadequado da parte de quem não entende do assunto.

 

- Por exemplo?

MB: Tem um chamado “De alunos e de almas”, em que trato da etimologia das palavras “aluno” e “adolescente”, que são vítimas constantes de quem tira explicações do bolso do colete ou ouviu o galo cantar do outro lado do morro e achou que era papagaio. É essa bobajada de dizer que “aluno” significa “sem luz”. Outro texto se chama “Toda língua é um museu”, em que mostro que, apesar das mudanças ocorridas na língua durante séculos a fio, algumas coisas se preservam, resistem às transformações que atingem setores mais amplos do idioma, como por exemplo a palavra “conteúdo”, que guarda a terminação medieval dos particípios passados da 2ª conjugação (“sabudo”, “perdudo”, “recebudo” que depois viraram “sabido”, “perdido”, “recebido”), ou por que nas palavras “preamar” e “baixa-mar” o mar é tratado no feminino. Trato também da declaração de Roland Barthes, “a língua é fascista”, tentando desatar um emaranhado de ideias confusas e de interpretações meio bizarras que essa frase tem provocado. Mostro, em outro texto, o quanto de racismo e de visão colonialista se esconde por trás da ideia de que uma conjugação do tipo “eu falava, tu falava, nós falava, eles falava” é “língua de índio”, quando de fato é assim que falam dinamarqueses, suecos, noruegueses e todos os falantes de inglês.

 

- Em que partes do livro você trata especificamente de dar a sua definição do “objeto língua”?

MB: Primeiro, num texto chamado justamente “Que é uma língua?”, onde retomo da ideia do ponto de vista que cria o objeto e mostro por que é impossível separar, no fenômeno língua, o que é “natureza” e o que é “cultura”, o que é “sistêmico” e o que é “social”, e o quanto de ideologia política existe até mesmo (senão mais) nas correntes teóricas que tentam apagar o social e cuidar somente da “língua-em-si”. Faço um percurso histórico, chamando a atenção principalmente para a questão dos nomes que as línguas receberam ao longo do tempo e recebem ainda hoje. Por que modos tão diferentes de falar como o marroquino e o saudita, a ponto de impedir a intercompreensão de seus falantes, recebem o rótulo único de “árabe”? Ou por que, ao contrário, modos de falar praticamente idênticos, como o “híndi” (falado na Índia) e o “urdu” (falado no Paquistão), recebem nomes diferentes de cada lado da fronteira? Ou, ainda, porque uma língua que, para os linguistas, é uma coisa só, vem recebendo nomes como “croata”, “sérvio”, “bósnio” e “montenegrino”? E, é claro, por que o nome único de “português” é aplicado tanto à nossa língua majoritária quanto à língua dos portugueses? Em outro texto, “Quando surge uma língua nova?”, retomo essas discussões e mostro por que, na minha opinião, e com fundamentos linguísticos (fonéticos e morfossintáticos) que considero sólidos, já é possível dizer que brasileiros e portugueses falam duas línguas diferentes. Se esse ponto de vista teórico (e político) for assumido, quais políticas linguísticas deveriam ser traçadas tanto para o interior quanto para o exterior?

 

 

 

 

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LINGUÍSTICA E TRADIÇÃO GRAMATICAL
 

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