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Inglês como “língua franca” na publicação de periódicos acadêmicos

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Uma crítica

 

A tendência para publicar em inglês é resultante de políticas neoliberais que afetam os objetivos, as atividades e as condições de trabalho no ensino superior.

Tradução: Raquel Salek FiadFlávia Danielle Sordi Silva Miranda

 

 

Sua primeira língua é o inglês? Se sim, imagine que agora você é obrigado a escrever sobre sua pesquisa usando apenas espanhol ou japonês. Muitos acadêmicos em todo o mundo estão enfrentando uma situação paralela, com pressões crescentes nas duas últimas décadas para publicarem seus trabalhos em inglês. Na verdade, muitas pessoas estão assumindo que o inglês é a língua global da publicação acadêmica.

 

Essa ideia é geralmente baseada na evidência de um universo limitado de cerca de 27.000 periódicos incluídos em índices da Web of Science (WoS) – mais notavelmente, o Índice de Citação Científica, a maior parte dos quais publica em inglês. Entretanto, mais de 9.000 periódicos acadêmicos com revisão por pares têm sido publicados em outras línguas, como francês (3.500), alemão (2.700), espanhol (2.300) e chinês (1.400), contribuindo para o crescimento dos números. A maioria desses periódicos são excluídos dos índices de periódicos de prestígio, perpetuando a ideologia de que o inglês é a língua franca acadêmica global.

 

A pressão para publicar em periódicos listados nos índices de prestígio tem se tornado uma tendência global, atingindo, mais recentemente, a América Latina e a África. Alguns acadêmicos multilíngues veem o uso do inglês como um meio para alcançar um público acadêmico maior do que é possível em seu contexto local, língua ou comunidade científica. Mas, depois de examinarmos melhor os efeitos dessa tendência nos acadêmicos por quase duas décadas, vimos que tem sido dada pouca atenção ao que se perde com esse enfoque no inglês. As consequências dessa grande mudança na criação e distribuição do conhecimento acadêmico, bem como das obrigações que ela cria – mesmo para os acadêmicos que aceitam isso – precisam ser avaliadas mais cuidadosamente.

 

 

Sua primeira língua é o inglês? Se sim, imagine que agora você é obrigado a escrever sobre sua pesquisa usando apenas espanhol ou japonês.”

 

 

A tendência para publicar em inglês é resultante de políticas neoliberais que afetam os objetivos, as atividades e as condições de trabalho no ensino superior. As publicações em inglês mostram a “internacionalização” das instituições de ensino superior, já que as métricas de publicação são os critérios mais importantes para a classificação global das universidades. No entanto, para conseguirem publicar em inglês, muitos acadêmicos multilíngues ficam sobrecarregados de trabalho. Eles não podem simplesmente traduzir seus artigos – mesmo que consigam verbas para traduções (que são caras), é praticamente impossível para a maior parte dos acadêmicos encontrarem tradutores que tenham bom nível de inglês acadêmico e que dominem o conteúdo disciplinar e as convenções retóricas dos artigos de periódicos acadêmicos.

 

Além disso, os administradores e definidores de políticas acadêmicas geralmente não compreendem o que é necessário para a publicação em inglês: recursos financeiros para fazer as pesquisas e para participar de congressos com objetivo de compartilhar o conhecimento e construir redes de pesquisa; tempo para escrever; ajuda financeira para pagar revisores para a produção do texto em inglês.

 

 

A pressão para publicar em periódicos listados nos índices de prestígio tem se tornado uma tendência global, atingindo, mais recentemente, a América Latina e a África.”

 

 

Outra consequência da pressão global para publicar as pesquisas em inglês é a perda da divulgação local do conhecimento produzido, já que esse conhecimento pode não se tornar acessível nas línguas locais, visto que existe o tabu contra a “publicação dupla” de pesquisas.

 

Outra consequência da pressão global para publicar as pesquisas em inglês é a perda da divulgação local do conhecimento produzido, já que esse conhecimento pode não se tornar acessível nas línguas locais, visto que existe o tabu contra a “publicação dupla” de pesquisas. Nem todos os pesquisadores ou estudantes falam ou leem em inglês e a exportação da pesquisa produzida em contextos locais para públicos globais falantes de inglês pode prejudicar o desenvolvimento de sociedades e culturas locais de pesquisa de maneira ampla. Enquanto o inglês tem sido a língua dominante (mas não única) de periódicos científicos por um bom tempo, as pressões para uso do inglês estão atingindo agora acadêmicos das ciências sociais e das humanidades. Como resultado, pesquisadores que escrevem, por exemplo, sobre história húngara, estão sendo pressionados para publicar em inglês mesmo que a maior parte da sua comunidade científica seja local ou regional.

 

 

A tendência para publicar em inglês é resultante de políticas neoliberais que afetam os objetivos, as atividades e as condições de trabalho no ensino superior.”

 

 

Quando os acadêmicos são avaliados com base em métricas de publicação centradas no fator de impacto, o índice-h, ou com base na classificação de periódicos nos índices WoS ou SCOPUS, esses regimes deixam de lado discussões fundamentais sobre quais tópicos e questões de pesquisa são válidos e para quem são.

 

As políticas institucionais que defendem uma agenda de publicação em inglês tanto de modo implícito como explícito contribuem com o problema. Implicitamente, a inserção do inglês em muitas métricas utilizadas para avaliar o trabalho de acadêmicos, incluindo os índices de citação e os periódicos mais bem conceituados publicados pela Elsevier, Springer e outras editoras europeias e norte-americanas, retira da pauta questões sobre qual língua usar – o inglês passa a ser um requisito assumido. Explicitamente, as orientações para avaliações que privilegiam a publicação em inglês ignoram outros critérios de avaliação da qualidade das pesquisas. Quando os acadêmicos são avaliados com base em métricas de publicação centradas no fator de impacto, o índice-h, ou com base na classificação de periódicos nos índices WoS ou SCOPUS, esses regimes deixam de lado discussões fundamentais sobre quais tópicos e questões de pesquisa são válidos e para quem são.

 

 

Outra consequência da pressão global para publicar as pesquisas em inglês é a perda da divulgação local do conhecimento produzido.”

 

 

Embora o inglês continue a se espalhar como a principal língua para a produção do conhecimento acadêmico, não é tarde para considerarmos mudanças de algumas práticas de distribuição do conhecimento, que podem beneficiar os acadêmicos ao redor do mundo, suas comunidades de pesquisa e seus contextos geopolíticos.

 

Em primeiro lugar, os administradores e definidores de políticas acadêmicas precisam compreender que a divulgação de pesquisas em inglês é, acima de tudo e em primeiro lugar, uma questão que depende de recursos para os pesquisadores terem tempo e dinheiro para fazer a pesquisa, ir a congressos e ter ajuda para escrever em inglês. Em segundo lugar, os pesquisadores e editores anglófonos – que são a maioria dos editores e revisores – também precisam considerar as condições de produção de conhecimento de seus colegas no resto do mundo. Os pareceristas de periódicos precisam ter mais compreensão ao avaliar e rever textos (por exemplo, mais tolerância com variedades não-padrão do inglês) e os periódicos precisam encontrar modos de ajudar os colegas multilíngues. Finalmente, essa mesma comunidade de publicação anglófona deve reconsiderar a proibição da “publicação dupla” para possibilitar que os mesmos resultados de pesquisas sejam publicados nas línguas locais para beneficiar as comunidades locais e em inglês para uma audiência mais ampla.

 

Texto originalmente publicado em inglês, no dia 13 de março de 2018, em Inside Higher Education. Esta tradução é aqui publicada com a autorização de Miguel Oliveira Jr., presidente da Associação Brasileira de Linguística, a quem agradecemos  a oportunidade de levar a nosso(a)s leitore(a)s essa discussão.

 

 

Texto e feminismo
INGEDORE KOCH

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Quinta, 13 Dezembro 2018
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