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COESÃO E COERÊNCIA TEXTUAL

COESÃO E COERÊNCIA TEXTUAL

 

5 coisas que você não pode esquecer

 

1. Coesão e coerência: aspectos da textualidade

 

Você deve saber que a coesão e a coerência são dois aspectos da textualidade, quer dizer, são elas que garantem que um enunciado seja percebido como um texto e não como um bloco aleatório de frases ou um amontoado de palavras desconectadas.

 

um texto coeso tem as palavras certas no lugar certo, certo?!

 

A coesão, portanto, tem a ver com o aspecto formal do texto: as palavras se conectam, se relacionam umas com as outras no interior do texto, conferindo-lhe um aspecto de unidade, de totalidade e não de fragmento ou de algo incompleto. Como costumo dizer, um texto coeso tem as palavras certas no lugar certo, certo?!

 

Já a coerência é a parte conceitual do texto. Ou seja, um texto coerente é percebido pelos interlocutores como algo que faz sentido, entende?! Dito de outro modo, um texto coerente forma um conjunto de informações que o leitor/ouvinte compreende. O texto é sentido como uma unidade temática, e não uma bagunça, do tipo que a cada instante se fala de uma coisa que não tem absolutamente nada a ver com a outra.

 

2. Coesão e coerência têm a ver com habilidades de leitura

 

Um dos primeiros livros a tratar do tema no país, provavelmente, foi A coesão textual, de Koch (1996). Obra que desbravou o caminho a ser percorrido por linguistas do texto no Brasil. Nesse livro, o conceito de coesão textual é apresentado pela autora que analisa os principais mecanismos coesivos, dentre os quais destaca a coesão referencial e também a sequenciação.

 

Um aspecto interessante da coesão textual é que esse nível de análise é contemplado nas matrizes de referência de habilidades de leitura utilizadas nas avaliações do governo brasileiro. Isso significa que compreender a natureza das relações coesivas nos textos é fator imprescindível na compreensão, além de ser objeto de aferição da competência leitora.

 

Na Matriz de Referência das Habilidades de Leitura do SAEB, há um bloco de descritores que correspondem a habilidades específicas relacionadas a operações envolvidas na leitura, a partir de aspectos da coesão e da coerência de textos. Veja:

 

COERÊNCIA E COESÃO NO PROCESSAMENTO DO TEXTO

D2

Estabelecer relações entre partes de um texto, identificando repetições ou substituições que contribuem para a continuidade de um texto.

D7

Identificar a tese de um texto.

D8

Estabelecer relação entre a tese e os argumentos oferecidos para sustentá-la.

D9

Diferenciar as partes principais das secundárias em um texto.

D10

Identificar o conflito gerador do enredo e os elementos que constroem a narrativa.

D11

Estabelecer a relação causa/consequência entre as partes e elementos do texto.

D15

Estabelecer relações lógico-discursivas presentes no texto, marcadas por conjunções, advérbios etc.

Fragmento extraído de BRASIL. Ministério da Educação. PDE: Plano de Desenvolvimento da Educação: SAEB: ensino médio: matrizes de referência, tópicos e descritores. Brasília: MEC, SEB; Inep, 2008, p. 22.

 

Os descritores D2, D11 e D15 referem-se a aspectos da conexão entre os constituintes internos do texto, ou seja, a coesão. Os demais têm a ver com o funcionamento do texto do ponto de vista da construção dos sentidos, isto é, a coerência.

 

A referência, a substituição, a elipse, a conjunção e outros elementos (expressos nos descritores de habilidades destacados acima) compõem um conjunto que chamamos de coesão referencial. Koch e Travaglia (1989) dizem que esse conjunto de elementos são “dados” pelo texto. Tais elementos são objeto de avaliação (a partir da matriz que mencionei há pouco) e existem itens (questões) específicos(as) de prova (Prova Brasil, Encceja, Enem etc.) para verificar como os estudantes processam a compreensão do texto que está baseada nesses recursos coesivos.

 

Mas, não é só isso, ou melhor, a coesão e a coerência não se resumem a uma tabela de descritores de habilidades.

 

3. Coerência e a construção de sentidos

 

Para ser coerente, um texto precisa “fazer sentido”! Isso quer dizer que o leitor/ouvinte, sempre se coloca em posição de colaboração ao ler/ouvir um texto, para buscar sentido naquilo que lê/ouve. Veja um exemplo: lembre-se de algum texto que você leu e, chegando num determinado ponto você percebe que o texto parece não fazer mais sentido. Parece que você não está mais entendendo o texto. Isso já deve ter ocorrido com você, não é mesmo?! Pois é! E o que as pessoas geralmente fazem, nesse caso? Voltam um pouco (linhas ou parágrafos) e reiniciam a leitura, mas agora com mais cuidado e atenção. Por que isso ocorre? Porque as pessoas não esperam que o texto tenha algum problema. Sempre acham que elas é que não leram direito ou perderam algum detalhe. Essa estratégia quase sempre funciona. Aí se compreende o que antes pareceu incoerente. Isso quer dizer que, como a maioria dos textos funciona, faz sentido para nós, sempre vamos preferir achar que nós é que não entendemos direito, sempre vamos achar que o texto está certinho, coerente!

 

Para ser coerente, um texto precisa “fazer sentido”!

 

Isso também acontece quando alguém nos diz algo que nos soa incoerente ou incompreensível. Só que aí, não se “volta” ao texto, mas se interrompe quem fala e se pede que a pessoa repita o que disse. O ouvinte acredita que vai ouvir um texto coerente, um texto que faça sentido.

 

Um texto coerente será aquele através do qual os interlocutores captam ou identificam as relações de sentido que se manifestam entre os enunciados. Trata-se de uma capacidade de compreensão global e construção do(s) sentido(s) do texto.

 

Enquanto a coesão é visível ou perceptível no material textual (palavras faladas ou escritas), a coerência se realiza por meio da ligação entre os chamados “tópicos discursivos”, permitindo ao interlocutor vislumbrar a continuidade de sentido no texto.

 

4. Coesão, coerência e a continuidade textual: a noção de unidade

 

Como lembra Costa Val (1991: 6): “A coesão é a manifestação linguística da coerência (...). Responsável pela unidade formal do texto, constrói-se através de mecanismos gramaticais e lexicais. (...) pronomes anafóricos, os artigos, a elipse, a concordância (...), as conjunções”.

 

A coesão é a manifestação linguística da coerência

 

Assim, a coesão assegura a continuidade do texto dando-lhe o aspecto de unidade, de um todo. Portanto, se você bem percebeu, a coesão é um aspecto da construção do texto que põe em foco os elementos linguísticos que o compõem e se ocupa das relações de ligação e interdependência entre tais elementos linguísticos. Por isso é que se fala em “elementos coesivos”.

 

A concordância verbal e nominal, o uso de pronomes, conjunções, advérbios, preposições, a pontuação são exemplos de elementos coesivos, pois são utilizados com o intuito de “amarrar” as palavras e frases num texto, para que ele seja sentido como uma unidade. Em alguns casos, até mesmo a ausência de alguns desses termos, segundo algumas regras específicas também funciona para tornar o texto coeso e coerente.

 

Para Marcuschi (2008: 119), “há uma distinção bastante clara entre a coesão como a continuidade baseada na forma e a coerência como a continuidade baseada no sentido”. E isso é muito interessante.

 

Quando pensamos na continuidade da forma, estamos pensando no encadeamento linguístico, isto é, as palavras em sequência combinando entre si, outras sendo “ligadas” por meio de conectivos etc.

 

Continuidade baseada no sentido está para a progressão temática, ou seja, no campo das ideias apresentadas pelo texto, espera-se uma evolução, espera-se que haja um encadeamento, só que agora, de ideias, conceitos, temas etc. Pense num romance, numa crônica ou conto, só para termos um exemplo. Além de esperarmos um texto cujas palavras estejam relacionadas de modo a nos favorecer a compreensão, também esperamos encontrar uma evolução na temática abordada por aquele texto. Por isso é que, nas narrativas, há um momento chamado de clímax, que é o ponto crucial do enredo. Mas, antes do ponto alto, há o “conflito” que geralmente é um fato que desencadeia todos os demais ali narrados. E depois do clímax, vem o desfecho, que é a resolução. Essa sequência de “momentos” é que dá a sensação de que o texto está progredindo, evoluindo, que há um encadeamento de sentido. Mesmo nas narrativas do tipo “não lineares”, ao final, o leitor é capaz de “recompor” o encadeamento de sentido.

 

5. Coerência, coesão e o processamento cognitivo

 

A coerência não está nas formas textuais, na superfície textual, mas advém delas. Na verdade a coerência reside na mente dos interlocutores. Ela tem a ver com um tipo de teoria que cada um de nós construiu em sua mente sobre como o mundo funciona e sobre como os textos funcionam (sejam eles falados ou escritos). Nós, interlocutores, quando nos deparamos com o material formal dos textos, tentamos capturar das relações coesivas entre seus constituintes linguísticos, o que possa fazer sentido pra nós, isto é, tentamos estabelecer a coerência. Assim é que produzimos o(s) sentido(s) dos textos que lemos/ouvimos. Há, portanto, um conjunto bastante sofisticado de operações mentais que realizamos durante o ato da leitura. Essas operações nos permitem conjugar os elementos textuais coesivos e buscar estabelecer as conexões entre eles os sentidos que vamos construindo nos textos.

 

Na verdade a coerência reside na mente dos interlocutores 

 

Falar de coerência textual implica assumir, tal como Marcuschi (2008), que ela é um princípio interpretativo. Ou seja, a compreensão e a interpretação de um texto passam, obrigatoriamente, pelo processo de construção/percepção da coerência. Dito de outro modo, compreender um texto que se lê é perceber o todo de sentido, o conjunto de temas que se inter-relacionam por meio dos enunciados em sequência.

 

Se a coesão pode ser resumida como palavra certa no lugar certo, como falei lá no início, a coerência pode ser entendida como a concordância entre ideias num texto. Costumo dizer que a coerência é uma ideia “batendo com” a outra, não uma “batendo na” outra. Uma ideia que se liga a outra, complementando uma à outra é uma expressão da coerência, ao passo que, se uma ideia bater contra outra (no sentido de se contradizerem entre si), certamente teremos um caso de incoerência.

 

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