Blog da Parábola Editorial

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A IRRACIONALIDADE DA “PASSIVA SINTÉTICA”

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A imposição de uma norma-padrão anacrônica e sem fundamentação nas práticas linguísticas autênticas, mesmo das camadas mais letradas da população, tem o efeito pernicioso de levar as pessoas a desistir de empregar determinadas formulações sintáticas pelo medo de “errar”. Um dos exemplos mais visíveis dessa situação tem a ver com o uso do pronome “se”, que há duzentos anos vem assombrando as pessoas que falam e sobretudo escrevem em português.

 

Já em 1918, o grande filólogo brasileiro Manuel Said Ali chamava a atenção para a irracionalidade de se cobrar uma concordância plural do tipo “alugam-se estas salas” com a desculpa andrajosa, esfarrapada e maltrapilha de que equivale a “salas são alugadas”. E ele diz que se alguém colocar um cartaz dizendo “estas salas são alugadas” é mais do que justificado que se duvide de sua “sanidade mental” (palavras de Said Ali). Existe uma diferença semântico-pragmática escandalosa entre “aluga-se estas salas” e “estas salas são alugadas”.

 

A classificação tradicional de “passiva sintética” (ou “pronominal”) para esse tipo de construção com o pronome “se” não se sustenta a não ser com argumento de autoridade: a “gramática” diz que é assim e pronto. Não existe nada de “passivo” em “na Argentina se fala espanhol”, até porque “na Argentina espanhol é falado” parece coisa de coreano que se alfabetizou na Alemanha e tenta falar português. A interpretação óbvia, transparente e lúcida é a de que “na Argentina [a gente][todo mundo][o povo] fala espanhol”. Não existe diferença entre “aqui se come muito” e “aqui se come muito peixe”: a tradição gramatical insiste em dizer que o “se” em “aqui se come muito” é “índice de indeterminação do sujeito” e que em “aqui se come muito peixe” é “partícula apassivadora” e que “peixe” é o sujeito. Ora, nas duas situações o “se” é sempre uma forma de indeterminação do sujeito: “aqui [alguém; a gente; todo mundo] come muito” e “aqui [alguém; a gente; todo mundo] come muito peixe”. Peixes não se comem a si mesmos, assim como búzios não se jogam a si mesmos nem salas se alugam sozinhas. Em todas essas situações, temos um verbo transitivo direto que pede seu objeto, assim como são sempre verbos que exigem um agente humano para serem “praticados”: quem come peixe, joga búzios e aluga salas são pessoas (ou entidades animadas), e é irracional até a medula querer classificar “peixe”, “búzios” e “salas” como sujeito.

 

Diante dessa insegurança (provocada por uma intuição linguística poderosa que se choca de frente com a prescrição normativa), muitas pessoas acabam fugindo pela tangente e preferem simplesmente evitar o uso do “se” indeterminador. O resultado são textos pesados, deselegantes, paquidérmicos. Na produção de artigos acadêmicos é onde mais se vê isso. Num mesmo parágrafo aparecem coisas como: “É feita uma investigação do fenômeno X”; “foram realizadas pesquisas de campo”; “já haviam sido coletados dados”; “é empregada a teoria Y” e por aí vai. Tenho lido artigos inteiros em que só ocorrem essas construções passivas, quando o texto poderia fluir muito melhor se viesse assim: “Fez-se uma investigação do fenômeno X”; “realizou-se pesquisas de campo”; “coletou-se dados”; “emprega-se a teoria Y” etc. E, claro, também com próclise, que é a única colocação pronominal autêntica do português brasileiro: “se fez”, “se realizou”, “se coletou” etc.

 

O problema é que em “se realizou pesquisas de campo” muita gente se lembra da regra descabelada de que é preciso colocar o verbo no plural e, ao mesmo tempo, não consegue se sentir à vontade com “se realizaram pesquisas de campo”. Afinal, o mesmo sujeito “se” que fez a investigação e usou a teoria X também realizou a pesquisa de campo e coletou os dados. É ridículo dizer que “as pesquisas de campo” são o “sujeito” de “se realizaram”.

 

Certa vez, numa feira de artesanato, encontrei uma placa que dizia: “Aqui se bebe, aqui se come, mas aqui também se lava os pratos”. Imaginem o desastre que seria escrever “aqui também se lavam os pratos”. Afinal, a ironia está em dizer que a mesma pessoa que bebe e come vai ter de lavar os pratos. Dizer que ali “pratos” é sujeito é lutar contra a inelutável intuição gramatical que todas as pessoas que falam uma língua têm em seu cérebro.

 

Assim, você que me lê, não tenha medo de escrever “realizou-se investigações”; “coletou-se dados”, “investigou-se os fenômenos”. Tudo no singular, porque o trabalho científico bem feito é sempre singular, pertence de direito a quem o empreendeu. Use e abuse do “se” indeterminado: é elegante, dá fluidez ao texto e mostra que não se tem medo de desrespeitar regras sem sentido (afinal “medo não é tido de desrespeitar regras” é uma coisa tão feia quanto o olhar de psicopata do atual ministro contra a educação).

 

 

 

 

 

Descrição do

Português Brasileiro

- Degustação da obra

 

Resenha - Lutar com palavras: coesão e coerência.
Do trabalho infantil à leitura
 

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