Blog da Parábola Editorial

A importância da tradução para o Mercado Editorial

A importância da tradução para o Mercado Editorial

Um editor dublê de tradutor

 

O mercado editorial brasileiro não está em seu melhor momento. Mas em que isso afeta as editoras que trazem em seus catálogos obras estrangeiras? Quais os critérios para definir uma boa tradução? Como funciona a tradução em uma editora?

 

Selecionamos os principais trechos da entrevista concedida por Marcos Marcionilo, sócio-editor da Parábola Editorial, ao caderno de Literatura em Tradução da USP N. 16 (2016) em que responde a essas e a outras questões.

 

Quais são os seus critérios para definir uma boa tradução? E quais os conselhos que o senhor daria para quem está iniciando agora?

 

A posição que o tradutor ocupa é a de coautor de toda obra que traduza para o português brasileiro. Então eu diria, a intenção do tradutor deve ser a de chegar à melhor expressão possível em português brasileiro daquele conteúdo teórico ou artístico ou técnico que o autor da obra na língua-fonte concebeu. Fidelidade ao conteúdo e autonomia na forma. Isto é, buscar dar ao leitor a plenitude maximamente alcançável do que o autor diz na forma mais legítima, na forma mais compreensível na língua-alvo.

Para tanto, se hão de fazer todas as pesquisas necessárias, todas as meditações, todas as ruminações sobre o texto original, todas as ponderações, todas as consultas a tradutores e/ou especialistas e a utilização de todos os recursos tecnológicos postos atualmente à disposição dos profissionais em tradução. Não se pode ter preguiça, não se podem economizar esforços para chegar a um texto autônomo em português brasileiro. Fiel ao conteúdo, mas autônomo e atual na expressão.

 

Nesse sentido, é preciso fugir dos servilismos. Abomináveis são as traduções servis, tanto quanto as traduções falseadoras, fruto de facilitação. Se a tradução tem cada vez maior presença e importância na atividade editorial global é porque ela tem recursos e força suficientes para dar aos leitores obras que lhes interessem e os façam avançar em sua reflexão, sem submissão e sem imitação de um original que eles não apreenderiam se mantido na língua original.

 

Como o senhor vê a autoria ou a coautoria do tradutor no texto traduzido? As marcas do tradutor implícitas (sintaxe e semântica autoral) e explícitas (nota de rodapé, prefácio e posfácio de tradutor) fazem a tradução ficar mais autônoma? É regra para o mercado editorial?

 

 

Todas as traduções publicadas pela Parábola Editorial trazem para a capa o nome dos tradutores, numa demonstração de que a tradução é por nós qualificada como coautoria a título pleno. Essa é uma regra que deveria ser aplicada por todo o mercado editorial, que ainda comete o erro grosseiro de fazer divulgação de obras traduzidas sem fazer constar o crédito de tradução, ou que não registra esse mesmo crédito pelo menos no frontispício de cada obra, escondendo-o na página de créditos e na ficha catalográfica.

 

É preciso estabelecer, de uma vez por todas, e informar a todos os leitores que tradutor[a] é coautor[a] e a tradução, definitivamente, precisa deixar de ser considerada como uma intervenção acessória, para ser tida na conta de intervenção possibilitadora da existência da obra em determinado universo linguístico.

 

Marcas implícitas e explícitas realmente contribuem para a autonomia da tradução e são bem-vindas. Mas enquanto editor, tenho de ter o cuidado de evitar que tais marcas se tornem campo de aberto litígio entre as esferas autoria/tradução, que devem ser complementares. Especialmente quando se trata de notas de rodapé, prefácio e posfácio de tradutor, é necessário medir bem a dose e a necessidade.

 

Lembro ainda hoje de uma nota de tradutor ao texto do Evangelho de Lucas na Tradução Ecumênica da Bíblia. Chocado com a abordagem exegética ecumênica da TEB, o padre tradutor meteu na narrativa do nascimento de Cristo uma nota de tradutor que contradizia e invalidava a postura ecumênica da nova tradução quanto ao parto virginal de Maria. Não hesitei nem um momento em cortá-la, por se tratar de “desautoria” numa atividade que supõe coautoria.

 

Qual sua opinião sobre as traduções indiretas e sobre as editoras que ainda fazem este tipo de publicação? O senhor já fez alguma tradução indireta?

 

Traduções indiretas deveriam ser proibidas por lei. Como não o são, vigoraram por tempo demais, causando prejuízos à difusão e apreensão de ideias. Ainda bem que estamos deixando para trás esse tremendo equívoco com seus efeitos deletérios para a cultura e o saber.

 

 

Eu sempre quis registrar um fato histórico a esse respeito e agradeço que esta entrevista me dê a oportunidade de fazê-lo: durante muito tempo, a merecidamente célebre Editora Martins Fontes adquiria o copyright para o Brasil de várias obras. Adquirida a obra, eles tomavam o cuidado de verificar se já havia edição portuguesa dessas obras, normalmente obras científicas na área de humanas. Era prática comum de muitas editoras. E assim foi na aquisição de Les mots et les choses, de Michel Foucault. 

 

Adquiridos os direitos das Éditions du Seuil, Paris, a editora brasileira convidou Salma Tannus Muchail para fazer um trabalho de abrasileiramento da edição portuguesa. Ora, Salma T. Muchail é simplesmente uma das maiores especialistas no pensamento de Foucault e, claro, como tal, se recusou a fazer o tal abrasileiramento, sustentando a necessidade inelutável de se fazer a tradução direta. Note-se que Salma T. Muchail, à semelhança de Tobias Barreto, não é tradutora de profissão, mas filósofa. E ela conseguiu convencer a editora dessa necessidade e fez a tradução direta, que resultou na edição brasileira de As palavras e as coisas.

 

 

Esse gesto de Salma merece entrar para a história da tradução no Brasil no capítulo referente ao equívoco circunstanciado [por pressa, por premência econômica, por ganância, por amadorismo] da tradução indireta entre nós.

 

 

 

 

Editoras que ainda perpetram traduções indiretas e plágios de traduções, especialmente de obras da literatura universal, deveriam ser cassadas, se isso fosse possível. Na ausência disso, a prática deve ser denunciada para que os leitores decidam se lerão essas contrafações ou se buscarão antes ver se há traduções diretas e confiáveis disponíveis.

 

A não ser quando se trate de obra na qual o trabalho de tradução para a língua da qual se faça uma segunda tradução seja contribuição crítica em determinada área de estudo. É o que acabo de fazer com um artigo de Lev Jakubinskij, de 1923, Sobre a fala dialogal (São Paulo: Parábola Editorial, 2015). O texto foi traduzido, editado, comentado e apresentado por Irina Ivanova e editado em francês em 2012 numa obra maior intitulada Lev Jakubinskij, une linguistique de la parole (URSS, années 1920-1930), obra composta de textos editados e apresentados e, claro, traduzidos por Irina Ivanova e Patrick Sériot para as Éditions Lambert-Lucas. Nesse caso, retomando a pergunta anterior, os tradutores trazem contribuição inédita à nova edição. O caso é totalmente distinto de traduções indiretas feitas por preguiça ou por economia burra.

 

Pessoalmente nunca fiz tradução indireta e creio que, diante dessa hipótese, me recusaria, seguindo o exemplo nunca suficientemente louvado de minha ex-orientadora, Salma Tannus Muchail, professora titular da Faculdade de Filosofia da PUC-SP.

 

O senhor poderia nos explicar quais os processos de análise e publicação de uma tradução? Até que ponto uma editora pode interferir no texto do tradutor antes de publicá-lo? Quem são estes agentes da tradução publicada além do tradutor? O revisor de texto em português da editora geralmente sabe a língua estrangeira do texto traduzido? Ele também consulta o tradutor antes do texto sair publicado?

 

Quantas questões numa só pergunta! Vamos lá, atentando sempre para o fato de que só posso falar de um ponto de vista circunscrito a minha própria atividade, que se restringe ao campo de edição de livros.

 

Normalmente as editoras fazem testes com candidatos a trabalhos de tradução, recebem indicações de bons tradutores, que são ou não submetidos a testes e, a depender do nível e do ritmo de sua produção, mantêm verdadeiros departamentos terceirizados de tradução. Outras recorrem a agências de tradução.

 

Geralmente, não se veem tradutores contratados trabalhando internamente em editoras. A terceirização e a cessão dos diretos de autor sobre a tradução são a regra. Tenho a impressão de que as editoras também escalonam seu corpo de tradutores por competência e, às vezes, por área. O escalonamento por competência, mesmo não explicitado, é prática visível e se reflete no preço/lauda que se paga. No topo, poucos tradutores, na base, mais profissionais, especialmente se em início de carreira. Todas as traduções são editadas por editores de texto que, no fundo, são aqueles que determinam a escala de tradutores pelo critério de competência já mencionado.

 

Toda vez que entrego uma tradução, solicito, muito delicadamente, que depois de editados [cotejados, preparados para a diagramação], emendas e dúvidas me sejam apresentadas, ou, quando menos, que eu possa ler ou lançar olhos sobre as últimas provas. Na maior parte das vezes, alcancei meu intento porque sempre traduzo para editores[as] amigo[as] quando não traduzo para a Parábola Editorial. Neste caso, tenho controle da tradução. Mas essa não é uma regra.

 

Há desde editoras que recebem os textos e os processam e mandam imprimir sem dar a mínima atenção aos tradutores [e então absurdos atribuíveis ao tradutor/ coautor podem acontecer, e acontecem], até tradutores que, em busca de uma renda compatível com suas necessidades e anseios, economicamente pressionados, já estão imersos em outro trabalho, sem tempo e sem paciência para revisitar um livro anterior. Então, é possível afirmar que se dão todas as situações, de um extremo a outro do espectro.

 

O revisor de provas pode ou não conhecer a língua-fonte da tradução que está revendo. Mas o editor de textos, ou copidesque, tem essa obrigação. Ao menos idealmente, é obrigatório que ele possa proceder a um rigoroso cotejo do original com a tradução, para evitar saltos de tradução e, fundamentalmente, para poder discutir com o tradutor possíveis problemas de tradução. É nesse momento que se estabelece o texto. Passada essa fase de preparação, o texto sofrerá um ciclo de revisões linguísticas e de projeto gráfico.

 

Então, interferem no texto publicado, além do tradutor, o editor, o editor de textos, os revisores tipográficos e, em certos casos, revisores técnicos.

 

Se fosse possível estabelecer uma regra, eu diria ser obrigatório apresentar aos tradutores, assim como aos autores, o texto final para autorização de impressão.

 

O senhor considera que a crise econômica atual que vivemos afetará (ou já afeta) significativamente o mercado editorial brasileiro? Houve alguma mudança de planos em sua editora no que diz respeito à publicação de novas obras em virtude dessa crise? Em vista do seu conhecimento sobre o funcionamento do mercado editorial, o que geralmente é mais afetado em uma crise como essa: a publicação de novas obras concebidas em português ou a publicação de traduções de obras estrangeiras?

 

Crises econômicas sempre afetam o mercado editorial brasileiro, que nunca andou com excelente fôlego. Para além das editoras de best-sellers e das editoras de livros didáticos, a maioria absoluta de nós luta para fechar as contas a cada exercício fiscal. É claro que a indústria editorial é isenta do imposto sobre produtos industrializados [IPI], do imposto sobre a circulação de mercadorias e serviços [ICMS] e que o papel que compramos para imprimir nossos livros também não é tributado, é papel imune a impostos.

 

Mas, por outro lado, a taxa de leitura no Brasil por habitante é risível. Num país de mais de 200.000.0000 de habitantes, a maioria absoluta das tiragens foi reduzida vinte anos atrás de 3.000 para 2.000 exemplares. E não é raro ver editores imprimindo 500 exemplares para ver se o livro pega, quando não manda rodar 100 por demanda para ver o que fazer a partir daí. Num exemplo mais próximo a nossa realidade, quantos estudantes de Letras há no país? Quantos mestrandos e doutorandos em ciências da linguagem? Pois bem, estamos travados ali nos 2.000 exemplares.

 

 

A crise atual faz os editores reverem todos os planos de publicação de obras estrangeiras. Está se tornando inviável pagar avanços em dólar ou em euros.

 

Por outro lado, a editora que não publica novos títulos vê seu catálogo morrer um pouco a cada dia. Então, instaura-se clara preferência por obras concebidas em português. Basta pensar na representação brasileira na maior feira de venda de direitos autorais no mundo, a Feira do Livro de Frankfurt em 2015. Apenas 36 editoras se fizeram presentes no estande coletivo do Brasil, promovido pela Câmara Brasileira do Livro e o proprietário de uma grande editora revelou que em Frankfurt iria boiar para não afundar. Esse mar não está mesmo para peixe. Vamos insistir, esperando que a maré vire e que se possa nadar e pescar.


Este texto foi extraído da Revista da USP - Cadernos Literatura em Tradução - N. 16 (2016) - Especial Negritude e Tradução.

Clique para ler a entrevista na íntegra.

 

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