Blog da Parábola Editorial

VARIAÇÃO LINGUÍSTICA, NOSSA VELHA (DES)CONHECIDA

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Texto por: Thi Zilio 

 

 “Perguntaram para a professora por que o Gaúcho falava diferente. A professora explicou que cada região tinha seu idioma, mas que as diferenças não eram tão grandes assim. Afinal, todos falavam português. Variava a pronúncia, mas a língua era uma só. E os alunos não achavam formidável que num país do tamanho do Brasil todos falassem a mesma língua, só com pequenas variações?”

O trecho acima faz parte da crônica Pechada, de Luís Fernando Veríssimo. Nela, o autor apresenta uma situação bastante comum em inúmeras salas de aula: a chegada de um aluno de outro estado e a reação (não muito amistosa) dos colegas de sala.

Sem dúvida, a diferença presente tanto na fala do garoto quanto nas palavras que usava gerou o estranhamento de seus companheiros de classe. Isso porque, apesar de sabermos que nossa língua é a mesma – portuguesa - , sempre estranhamos quando nos deparamos com a constatação de que ela não é a mesma. Pode parecer um paradoxo, e na verdade é, quando consideramos o senso comum (a mesma língua, uniforme e estanque) e os estudos linguísticos (a língua como um conjunto de conjuntos de variedades. Sim, um conjunto de conjuntos!)

Como bem assinala Bagno (2019, p. 27, grifos do autor), “Toda e qualquer língua humana viva é, intrinsecamente e inevitavelmente, heterogênea, ou seja, apresenta variação [...]”. Partindo de tal pressuposto, podemos dizer que a professora, apesar de sua boa vontade em minimizar os conflitos, não acertou de todo na explicação. Em primeiro lugar, cada região não tem exatamente um idioma; em segundo lugar, as diferenças não são tão pequenas assim.

Se você for um habitante da porção sul do país, tente entender a seguinte a frase:

“Oxe, um pão crioulo desse não ia se entabacar com uma alma sebosa dessa não”!

Conseguiu? Certamente não! A razão para a incompreensão é simples: ao contrário do que disse a professora, as diferenças não são tão pequenas assim entre as regiões do Brasil. Mas se elas existem, é porque temos apenas uma certeza – além da morte, evidentemente: toda língua varia. E aliás, também se equivocou Veríssimo. A variação é no singular mesmo. E diz respeito ao fenômeno que, ao lado da mudança, constitui uma das bases da chamada sociolinguística variacionista, surgida na década de 60, sob a liderança de William Labov.

De acordo com essa vertente, a variação linguística corresponde “à língua em seu estado permanente de transformação, de fluidez, de instabilidade” (Bagno, 2009, p.38) e se manifesta em todos os níveis: fonético-fonológico, morfológico, sintático, semântico, lexical etc.  Para melhor compreender o fenômeno, os sociolinguistas consideram uma série de fatores extralinguísticos que influenciam na questão da variação, entre eles a idade, a escolarização, o sexo, o perfil socioeconômico, entre outros.

A sociolinguística leva em conta também a heterogeneidade social, e este é um modo de demonstrar a intrínseca ligação entre língua e sociedade. Em outras palavras, ambas atuam como um reflexo uma da outra: uma sociedade plural e diversificada implica uma língua com as mesmas características.

Diante disso, a variação pode ser classificada em diatópica – considerando o lugar do falante; diastrática – considerando a classe social do falante; diafásica – considerando a situação de comunicação em que se encontra o falante; diamésica – considerando o meio de comunicação; e diacrônica – considerando os diferentes momentos de uma língua, ou seja, levando em conta questões históricas.

Estes são apenas alguns poucos aspectos relacionados ao fenômeno da variação linguística. Apesar de muitos acharem se tratar de algo simples, reduzido “a uma diferença ou outra”, ele é tão complexo quanto entender a frase registrada alguns parágrafos acima, proferida por um jovem de 21 anos[1] do interior de Pernambuco. A propósito, já descobriu o que ela significa? Pois bem, para encerrar nossa conversa, aqui está a tradução:

“Oras, um homem tão bonito não ia ficar bobo por uma pessoa de má índole como essa não”.

Se você se surpreendeu com o significado dela e compreendeu que estamos diante de um caso de variação diatópica ocorrido nos níveis lexical e semântico da língua, prossiga no estudo desse fascinante ramo da linguística. E mais ainda: explore as demais possibilidades de verificar a ocorrência do fenômeno em outras instâncias, tão interessantes quanto as aqui apresentadas.

 

Obras usadas:

BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso. São Paulo: Parábola, 2009.

_____________. Preconceito linguístico. São Paulo: Parábola, 2019.


[1] Agradeço especialmente a Edwilson Cavalcante pelo exemplo cedido.

 

 

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