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Quem é o pai da Língua Portuguesa?

Quem é o pai da Língua Portuguesa?

ENTRE A MEMÓRIA E A LINGUÍSTICA HISTÓRICA

 

 

O homem, em sua incessante busca por respostas, deparou-se com diversos questionamentos, que fazem parte de sua natureza “investigativa”. Essa eterna necessidade de conhecer e estabelecer ligações apresenta diversas facetas e o levou a inúmeras descobertas, de grande importância para sua existência. 

 

No entanto, alguns questionamentos, como os da atemporal esfinge, são cada vez mais pertinentes e, à revelia, cada vez menos elucidados. Se talvez não caiba à Linguística a solução dos dilemas do “Quem sou eu?”ou do “Para onde vou?”, pelo menos o “De onde vim?”parece ser uma das questões que podem ser respondidas. 

 

Graças aos estudos científicos, que lançaram um novo olhar sobre as questões da linguagem, muitas verdades tidas como absolutas foram desconstruídas. Os “velhos conceitos”, inclusive os históricos, foram reformulados e assim podemos, cada vez mais, compreender a língua que falamos sob os mais diversos aspectos. 

 

Todos nós fomos educados “gramaticalmente”. Desse modelo, herdamos uma série de dogmas, os quais, apesar dos avanços da ciência da linguagem, ainda têm força em nossa sociedade. A questão da “paternidade” – portanto, do “De onde vim? ” – da língua portuguesa é um desses dogmas, uma vez que, sempre que a ela nos referimos, afirmamos categoricamente: “O latim é o pai da nossa língua”.

 

Tal afirmação me traz à mente a desconstrução do primeiro “mito” sobre o nosso idioma, antes mesmo de eu ingressar no curso de Letras, embora, à época, ainda não tivesse maturidade para compreender o que isso significava. 

 

Em 2000, aos 14 anos, fui convidado por uma amiga de nossa família a aprender espanhol. A professora, que morava a duas quadras de minha casa, era Maria del Carmen Fernandez Caula de Erosa. Carmelina, como todos a chamávamos, era espanhola, nascida em Santiago de Compostela, extremamente apaixonada por seu país e exímia conhecedora de suas origens galegas e da língua espanhola. 

 

 

“O latim é o pai da nossa língua”

 

 

Nossos encontros semanais duravam cerca de duas horas e, nesse tempo, eu ouvia, admirado, as histórias de sua terra.Apesar de seus quase cinquenta anos de Brasil, os vinte e dois anos que passara na Espanha permaneciam intactos em sua memória, reavivada a cada aula. 

 

Em determinado encontro, recordo-me de estarmos conversando sobre a rapidez com a qual eu estava aprendendo o idioma. Na ocasião, disse-lhe que era normal, pois o espanhol era bem parecido com o português, afinal ambos eram “filhos do latim”. Assim eu tinha aprendido na escola! 

 

Carmelina ficou em silêncio. Levantou-se,foi até a sala e voltou com um prato decorativo. E me mandou ler. Deparei-me, então, com alguns versos do famoso Himno de Galicia. Até aquele momento, eu já tinha compreendido algumas questões relativas às regiões da Espanha, mas não podia pensar que a tal Galiciadispusesse, inclusive, de um hino!

 

Feitas as ressalvas históricas, minha professora lança a questão: “Que língua é essa?”. Na ingenuidade de meus 14 anos, respondi: “Um espanhol que parece português”. Carmelina sentiu que estávamos no caminho certo e pediu-me, então, que lhe explicasse minha resposta. 

 

Bastava olhar os versos “¿Qué din os rumorosos / na costa verdecente / ao raio transparente / do prácido luar?”. O artigo “os”, a combinação “ao”, a palavra “luar”, tudo isso não fazia parte do espanhol! Aliás, a palavra prácido, e não plácido, como em português, também me chamou a atenção, embora somente na faculdade eu fosse entender o rotacismo

 

Diante da resposta, ouvi a seguinte frase: “Você já sabe que na Galícia, além do espanhol, se fala o galego. Isso é galego. Ele, sim, é o pai da sua língua. Ou você acha que as pessoas simplesmente dormiram falando latim e acordaram falando português?”

 

 

“Que língua é essa?”. Na ingenuidade de meus 14 anos, respondi: “Um espanhol que parece português”.

 

 

Empolguei-me diante de tal afirmação e continuei a leitura dos versos do hino, que me surpreenderam ainda mais quando me deparei com a presença de palavras como “chegados”, em vez de “llegados”, “fillos”, em vez de “hijos”. Definitivamente, aquilo era mais português do que eu poderia imaginar!

 

Anos depois, durante a graduação, deparei-me, outra vez, com essa questão e constatei que a sábia professora, de todo, não se enganara. Além disso, percebi, através de algumas leituras, a possível causa do equívoco relacionado à “paternidade” de nossa língua: se observarmos, por exemplo, a Gramática histórica, de Ismael Coutinho, encontraremos a seguinte afirmação: “... o português é o próprio latim modificado. É lícito concluir, portanto, que o idioma falado pelo povo romano não morreu”.

 

Tomada por muitos de modo restrito, tal afirmação, que, em um primeiro momento, não traz nenhuma referência ao estágio anterior ao que se denomina hoje português, faz com que se crie uma impressão de continuidade automáticaentre o “idioma falado pelo povo romano” e o nosso. Além disso, cabe um questionamento: se, no início, o autor afirma que falamos um latim modificado, como pode, em seguida, afirmar que o idioma falado pelo povo romano não morreu? Ora, se houve modificação tamanha a ponto de se constituírem duas línguas – galego e português –, como podemos comparar ambas as línguas à falada pelo povo romano? 

 

A modificação mencionada por Ismael Coutinho é, na verdade, um longo processo, iniciado no século III a.C., quando os romanos desembarcam na Península Ibérica em virtude das Guerras Púnicas, cujo resultado é o que se conhece como romanização, devido à derrota de Cartago e à anexação do território ibérico ao Império RomanoAssim, o latim vulgar, osermo vulgaris – a língua falada –, éadotado pelos povos locais. 

 

A diversidade de tribos, a invasão de outros povos, bárbaros e mouros, e o próprio enfraquecimento do poder dos conquistadores fizeram com que esse latim se transformasse nos diversos romanços. Eles, posteriormente, deram origem às conhecidas línguas latinas, neolatinas ou novilatinas. O galego constitui, portanto, uma dessas modificações, ocorrida na região ocidental da Península Ibérica. 

 

O fato é que essa transformação não pode – e nem deve! – ser tratada como latim propriamente dito, principalmente porque, a partir do século IX, na fase denominada proto-histórica do português, ela tomará contornos próprios, totalmente distintos do latim original, e perdurará até a fase histórica arcaica, que finda no século XIV e marca a formação efetiva do idioma lusitano. 

 

 

“... o português é o próprio latim modificado. É lícito concluir, portanto, que o idioma falado pelo povo romano não morreu”.

 

 

Durante esse período, de aproximadamente cinco séculos, a história assistiu à formação do Estado português, no século XII, e, apesar da separação da Galiza, a língua continuou em pleno uso, avançando, pelo menos, dois ou três séculos ainda, dada a importância cultural da região. 

 

Conforme assinala Amini Boainan Hauy, os membros da aristocracia eram educados na Galiza, devido ao desenvolvimento comercial instaurado em Santiago de Compostela, por conta do afluxo de peregrinos cristãos à cidade. Desse modo, ela teria se tornado o mais importante centro de devoção da Idade Média e, por conta disso, um referencial cultural. 

 

Nota-se, portanto, a existência de uma língua anteriorao português e, ao mesmo tempo, posteriorao latim, advinda da transformação constante daquele romanço falado até o século IX. Em sua História da língua portuguesa, Paul Teyssier, renomado lusófilo e estudioso da linguagem de Gil Vicente, afirma ser o português do século XIII o mesmo galego falado na província espanhola. 

 

Se os postulados acima registrados não bastam para desconstruir a ideia de continuidade latim-português, a análise comparativa deste com o galego, tal qual a iniciada por mim aos 14 anos, pode ser um caminho que aponte a prevalência de semelhanças muito mais claras entre a língua portuguesa e a galega, do que com a latina. 

 

Curiosamente, muitos usos hoje considerados desvios ou termos em desuso, de acordo com a gramática, podem ser observados desde a fase galega. Um exemplo é o fenômeno do rotacismo, observado na palavra prácido, presente no verso do hino galego. E quantas pessoas hoje não mantêm vivo o mesmo fenômeno ao proferirem brusa ou craro? Além dele, podemos citar a troca do prefixo des- pelo prefixo es-, e há ainda quem diga esperdiçar ou espedaçar!

 

Além dessas duas ocorrências, inúmeras outras permitem não só a comparação entre o galego e o português, como também a definição mais clara da genética de nossa língua, cuja paternidade é atribuída, muitas vezes, a um avô, de hereditariedade indiscutível, mas que não pode se sobrepor à influência indelével de seu “verdadeiro pai”. 

 

 

Seriam, então, o galego de hoje e nosso português irmãos “quase gêmeos”, filhos daquele outro galego

 

 

As razões para tal equívoco são inúmeras e nos mostram, mais uma vez, o peso das questões históricas, políticas e culturais na formulação de determinados conceitos. Sobre isso, em sua Gramática pedagógica do português brasileiro, Marcos Bagno menciona um dos possíveis motivos para essa “troca de paternidade”: a necessidade de manutenção da soberania lusitana, tendo em vista seu grandioso passado. Por conta dele, não seria honroso afirmar que o idioma lusitano teria surgido de uma língua “de campônios rudes”, estigma que pesou sobre o galego durante muito tempo. 

 

Ainda sobre esse assunto, é importante ressaltar que, embora se atribua aqui uma paternidade à língua dita galega, deve-se ressalvar o fato de o atual galego, que ainda resiste no norte da Espanha, não ser, tampouco, a figura paterna buscada. Isso porque é impossível afirmar que ele tenha se mantido idêntico àquele usado pelos portugueses até o século XIV. Seriam, então, o galego de hoje e nosso português irmãos “quase gêmeos”, filhosdaquele outro galego, muitas vezes, ofuscado pela luz do patriarca, o latim. 

 

À guisa de comprovação, basta comparar um texto escrito no século XIII a outro escrito no século XX, por exemplo. As diferenças são perceptíveis e atestam a transformação da língua, fato que permitiu sua sobrevivência ao longo dos séculos. Caso contrário, ela teria tido o mesmo fim do idioma dos conquistadores romanos, cuja morte é discutida principalmente por aqueles que não aceitaram a vinculação do português a uma língua “sem prestígio”, e que contribuíram para a disseminação de uma visão equivocada acerca do percurso natural de nosso idioma. 

 

No início deste ano, vim a saber da partida da professora Maria del Carmen para o Mundo da Verdade, aos 88 anos. Mesmo vivendo muito próximos, nos distanciamos no fluxo do rio da Vida. No entanto, tal qual o galego e o português, estamos indissociavelmente ligados e continuaremos o nosso percurso em mundos diferentes. Ela talvez já tenha encontrado todas as suas respostas esfíngicas, embora, para mim, seu sempre aluno, cujo olhar ainda é o do adolescente, Carmelina já soubesse de tudo. 

 

Se você, leitor, se interessou pela questão da paternidade do idioma lusitano, saiba que ainda há muitos outros aspectos aqui contemplados. Para encontrá-los, não deixe de ler dois livros de mesmo título: História da língua portuguesa, um de Paul Teyssier e, o outro, de organização de Segismundo Spina, em que se encontra o texto de Hauy. Por meio deles, é possível mapear geneticamente o português e perceber quanto do galego-português ainda está presente na nossa língua, em seus mais diversos usos. Além destes, é essencial a leitura dos capítulos 5 e 6 da Gramática pedagógica do português brasileiro, de Marcos Bagno, em que o autor esclarece os equívocos mencionados ao longo do presente texto e faz uma análise minuciosa da questão portugaliza” .

 

 

 

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