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O que faz um profissional de Letras?

O que faz um profissional de Letras?

LETRAS: profissão e carreira

 

Não se pode avaliar a utilidade de uma profissional usando critérios de outras que não sejam compatíveis com ela. Assim, não podemos comparar o curso de Computação com o de Letras. Mas podemos avaliar o curso de Letras considerando o curso de Computação. Explico-me: o profissional de computação, em algum momento de sua vida, recebeu a contribuição direta ou indireta do profissional de Letras. Porque ele teve de aprender a ler e a escrever. Por outro lado, como profissionais de Letras, contamos com a contribuição de diversos profissionais em vários aspectos de nossa vida. Seja como for, a presença da língua/linguagem em praticamente todos os atos humanos torna o profissional de Letras presente em praticamente todos esses atos. Busco aqui definir o que faz afinal um profissional de Letras.


Este texto é constituído em larga medida pelo discurso de paraninfo que fiz na cerimônia de formatura da turma de Letras 2016/2 da Universidade Católica de Pelotas. Para deixar bem claro qual meu principal interlocutor, os formandos, assim como pessoas que desejem se formar em Letras, mantenho aqui os aspectos relevantes da relação enunciativa em que estive envolvido. Sem prejuízo de minha intenção de me dirigir a outros interlocutores possíveis neste novo gênero e nesta nova relação enunciativa, ou situação de interlocução.

 

Nossa responsabilidade de profissionais de Letras consiste em ser exemplos de pessoas e de profissionais.
Antes de tudo, devo dizer que me senti extremamente honrado e feliz por ter sido escolhido paraninfo. Ao contrário de outros padrinhos, escolhidos necessariamente por terceiros, esse tipo de padrinho é escolhido diretamente pelos afilhados. Os afilhados são pessoas que vão se tornar profissionais na mesma área desse padrinho. Logo, ser escolhido padrinho é ser agraciado por uma homenagem ao profissional que se é, mas é também receber a responsabilidade de ser exemplo para os afilhados. Os afilhados esperam isso do padrinho, ou não o teriam escolhido. Como se pode ver, as honras, assim como a liberdade e, a bem dizer, tudo na vida humana, são coisas que requerem responsabilidade.

 

Nossa responsabilidade de profissionais de Letras consiste em ser exemplos de pessoas e de profissionais. Creio que ser exemplo resume o que é ser um profissional, especialmente de Letras, que lida com o que há de mais precioso no ser humano, aquilo que o define como tal: a capacidade de expressão. Privado da capacidade de expressão, o ser humano se torna um objeto. Quem, como nós, trabalha com pessoas no campo da expressão tem responsabilidades maiores, porque a expressão insuficiente ou errônea pode, num caso extremo, chegar a ser a diferença entre a vida e a morte. Logo, cabe-nos ser exemplos de comportamento ético, humano, sensível, sem prejuízo da capacidade técnica.


Falo aqui coisas que falam todos os paraninfos, porque a condição de paraninfo o requer. Mas o que falo não é o mesmo que outros falaram, pois o que falo vem de mim, em relação a vocês, em nosso contexto específico. É uma resposta específica ao ato de enunciação específico que me pronunciou paraninfo. Como se pode ver, as palavras são poderosas; elas me tornaram paraninfo, assim como os tornou professores. Sim, elas também podem servir para enganar, destruir, mas o mesmo ocorre com uma faca, que pode servir para salvar ou para matar. E é isso precisamente que me interessa: o que se espera que vocês façam com as armas metafóricas que a universidade lhes concedeu hoje?


Essa resposta específica, transposta para outro contexto, vai se tornar uma nova resposta, sem perder a influência do contexto original. Essa alegação já traz algo do que faz um profissional de Letras: entender essas relações e torná-las compreensíveis para outras pessoas.

 

Nesse sentido, as mesmas palavras podem se fazer presentes, mas a expressão muda, porque a expressão depende de nossas relações específicas. Não somos todos os paraninfos nem todos os afilhados. Somos este paraninfo e estes afilhados. Não há apenas repetição de palavras, mas uma nova expressão específica, um tom específico, algo que vem de meu perfil profissional e se dirige ao que espero que os profissionais de Letras que vocês passaram a ser tenham, algo que vem de minha atitude perante vocês, e que espero que vocês tenham perante seus alunos. Mas que vem, especialmente, de minha emoção, pretendendo alcançar a de vocês, que vem, na verdade, de meu coração, e se dirige ao de vocês. Eis mais uma característica do profissional de Letras: perceber que a língua/linguagem depende das palavras e frases, mas está além delas em seu exercício cotidiano.

Privado da capacidade de expressão, o ser humano se torna um objeto.

 

Essa dimensão cordial, do coração, também é responsabilidade dos profissionais de Letras na sala de aula e na vida. Vemos assim que há uma dimensão da expressão que escapa às palavras, mas que, dado o milagre que é a língua/linguagem, precisa da linguagem para ser descrita, para ser socializada, levada a outras pessoas. Disso fica mais uma lição: as pessoas com que os profissionais de Letras lidam são coração, emoção, expectativas, capacidade intelectual; são um misto de sensibilidade e capacidade de aprendizagem, são, precisamente, pessoas. Jamais devemos perder de vista que o mais importante são as pessoas. Temos de nos perguntar, talvez todos os dias: tornei-me uma pessoa melhor? Depois então poderemos nos perguntar: que profissional me tornei e/ou sou? Porque ensinamos muito com aquilo que somos, e não só o que dizemos e fazemos na aula.


Chegando a um tópico mais específico,  perguntaram-me um dia o que faz de útil um profissional de Letras. Minha primeira reação foi dizer: talvez evitar que mais pessoas façam esta pergunta. Mas depois pensei que fosse um problema de expressão. Perguntei: "Útil em que sentido?”. Se for no sentido de produzir um produto físico, também o fazemos. Produzimos, por exemplo, traduções de livros, que não são bens materiais, mas que vêm num produto material, um livro. Produzimos livros originais. Produzimos textos de diversos tipos, revisões de textos de outros profissionais, identificamos problemas de expressão em textos alheios e colaboramos para saná-los. Além disso, preparamos outros profissionais para ler e escrever com eficácia, para entender o que leem, para ter condições de lidar com as "armadilhas" dos textos, especialmente oficiais, para poder replicar a sugestões esdrúxulas sobre o sentido de textos, em vez de aceitar versões fantasiosas ou tendenciosas. Essas são algumas atividades úteis que desenvolvemos.

 

Utilidade não se mede apenas em termos materiais

Um profissional de Letras é um leitor arguto, um redator eficaz e uma pessoa capaz de se defender de absurdos linguísticos. Que não são apenas linguísticos, mas também, e especialmente, revelam posições, distorções, tendenciosidades etc. que precisamos combater. A capacidade de compreensão e expressão via linguagens, objeto do profissional de Letras, é fator de cidadania, de progresso social. Produzimos de útil coisas imateriais que produzem efeitos materiais os mais diversos. Utilidade não se mede apenas em termos materiais, eis algo que um profissional de Letras aprende – ou deveria aprender.

 

Talvez possamos dizer, trazendo um dito de outro campo do saber, que antes de falar, de ouvir, de ler e de escrever muitas coisas, as pessoas deveriam consultar um profissional de Letras. Não por questões de gramática, mas para auxílio nos campos da compreensão e da expressão. Faladas e escritas.


Assim, dada a relevância do que faz um profissional de Letras, cabe-me dizer que, sem dúvida, a maior lição que eu posso dar, na condição de paraninfo, mas principalmente de profissional de Letras, seja dizer que, para além da formação técnica, importantíssima, a formação humanística é a mais relevante. Porque, sem essa formação, teremos pessoas adestradas, mas não profissionais preparados. Ainda mais nessa época tecnicista, que pretende medir tudo com números, como se a grandeza da condição humana pudesse ser reduzida a números.


Não podemos nos esquecer de que em todo empreendimento humano há pessoas, “tem gente dentro”, como dizem alguns. E que a dimensão humana, expressiva, que vem do coração, é a mais relevante. Entender essa dimensão humanística é o que se espera de um profissional de Letras. E isso tem implicações.


Considerando a gama de atividades que podemos desenvolver, creio poder afirmar, enfaticamente: a responsabilidade que temos como profissionais de Letras é defender intransigentemente o caráter humano dos alunos e, claro, de nós professores. Sua formação humanística. A ética. É reconhecer que não existe a aluna/o aluno genéricos, mas alunos, todos distintos uns dos outros, ainda que compartilhem, como seres humanos, aquilo que os define como tais.


Eis o que faz um profissional de Letras: resgatar e defender intransigentemente nossa humanidade, opondo-se a todo tipo de barbárie. Um profissional de Letras está sempre na linha de frente da defesa da liberdade de expressão. Um profissional de Letras é um paladino da expressão. Em suma, o profissional de Letras defende a humanidade das pessoas, opondo-se à sua desumanização.


Tiremos a expressividade dos seres humanos, e o que nos restará? Nada, ou, o que é o mesmo, números!


 

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