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O que é linguística?

O que é linguística?

Linguística, segundo Marcos Bagno

 

A linguística é a ciência que estuda a linguagem humana em geral e as línguas humanas particulares. Esse movimento que oscila entre o geral e o particular se explica de modo fácil: como a espécie humana é uma só, dotada dos mesmos recursos cognitivos e das mesmas configurações fisiológicas, e obrigada a resolver os mesmos problemas de representação/expressão da experiência/conhecimento, é mais do que seguro apostar que existam traços comuns a todas as línguas humanas – e de fato existem.

 

Por outro lado, como os diferentes grupos humanos vivem em ambientes ecológicos diferentes, em climas diferentes, tendo de se valer de recursos naturais diferentes e, principalmente, constituem culturas diferentes, cada língua humana deve apresentar características próprias, específicas, peculiares – e de fato apresentam.

 

Costumo dizer que a linguística quer descobrir e explicar aquilo que cada falante sabe, mas não sabe que sabe. É que qualquer pessoa tem um conhecimento amplo e fundo da língua (ou das línguas) que ela fala. Uma vez adquirida pela criança, a língua se firma profundamente em sua cognição, e tudo o que esse indivíduo vai fazer pelo resto da vida é aprofundar ainda mais seu conhecimento – intuitivo e inconsciente e, também, analítico e consciente – dessa língua adquirida na infância.

 

Ninguém conhece melhor uma língua do que uma pessoa que adquiriu na infância essa língua: ela sabe reconhecer perfeitamente uma construção linguística como bem ou mal constituída, como pertencente ou não à gramática de sua língua. Por isso também costumo dizer: o falante comum é o melhor gramático que existe.

 

Nenhuma criança brasileira falante de português, por exemplo, vai dizer “mulher a” ou “país o” no lugar de “a mulher” ou “o país”, porque, pelas regras da gramática de sua língua, o artigo sempre se coloca antes do nome. Ora, isso é o contrário do que se dá, por exemplo, em albanês, romeno e sueco: nessas línguas, o que encontramos são formas que equivaleriam a dizer em português “mulher-a” ou “país-o”.

 

Ninguém jamais ensinou essa regra formalmente à criança brasileira e nenhuma professora na escola perde tempo ensinando que os artigos vêm antes do nome: a criança já chega na escola sabendo disso. Esse é um exemplo ínfimo de toda a complicadíssima e sofisticada rede de regras gramaticais que qualquer falante de uma língua, depois de uma certa idade, domina e utiliza.

 

 

 

 

Assim como usamos nossos olhos, ouvidos, narizes, pulmões, pernas e outras partes do corpo com agilidade e destreza sem termos consciência de como elas funcionam, assim também utilizamos nossa língua com total competência e habilidade. E assim como a medicina se empenha em estudar, descrever e explicar de maneira formal e sistemática o funcionamento do corpo, assim também a linguística se dedica a estudar, descrever e explicar de maneira formal e sistemática o funcionamento da linguagem.

No entanto, essa extraordinária faculdade de linguagem que nos permite falar uma língua particular (ou mais de uma, é claro) é um objeto escondido. A linguagem está inscrita dentro do cérebro humano, nós não temos acesso direto a ela, só a seus produtos. Por isso, no desejo de poder conhecer esse objeto e seu funcionamento, os cientistas da linguagem — os linguistas — se dedicam a examinar os dados disponíveis a seu alcance: os “barulhos” que produzimos com a boca e que, estranhamente, são interpretados pelas outras pessoas que conseguem, com eles, dar sentido ao que tentamos expressar.

 

Com esses dados, é possível formular hipóteses, propor instrumentos de análise e metodologias de pesquisa capazes de pouco a pouco revelar (verbo que significava, em latim, “puxar o véu”) o funcionamento desse misterioso objeto escondido. O linguista, ao contrário do falante comum (eu diria até “normal”), quer ter um conhecimento sistematizado, formalizado, consciente, do que é e de como é uma língua para, daí, alçar voos ainda mais altos e aprender mais sobre o que é e como é a linguagem humana em geral.

 

A linguagem, por outro lado, é o elemento central de tudo aquilo que se pode classificar de humano. Sempre digo: ser humano é ser na linguagem. Por isso, o estudo da linguagem e das línguas não é privilégio da ciência linguística nem dos linguistas.

 

Algumas áreas específicas desse enorme campo de saber são ocupados mais diretamente por linguistas profissionais, porque são os especialistas da língua como sistema estruturado: a fonologia, a morfologia e a sintaxe, principalmente. Mas quando ampliamos o foco e iluminamos o vasto terreno que se abre para além desse núcleo central de estudos, topamos com uma profusão de fenômenos de toda ordem em que a língua/linguagem está profundamente implicada.

 

Por isso, são muitas as disciplinas que se dedicam a ela, além da linguística propriamente dita, assim como também a linguística se divide em diversas subdisciplinas com foco mais concentrado em determinados aspectos do fenômeno linguagem.

 

A semântica, por exemplo, é o estudo do significado das unidades da língua e de seus conjuntos. Embora esse estudo seja exercido predominantemente por linguistas, ele também convida a reflexões de ordem lógico-filosófica. Aliás, a filosofia da linguagem é uma disciplina antiquíssima, praticada há milênios, tanto no Ocidente quanto no Oriente. Os filósofos da linguagem se interessam sobretudo pela natureza do significado, pelo uso da linguagem, pela cognição (e o relacionamento entre linguagem e pensamento) e pelas relações entre linguagem e realidade.

 

Fruto mais recente das investigações filosóficas sobre a linguagem, a pragmática examina e descreve os princípios de cooperação que atuam no intercâmbio de linguagem entre o falante e o ouvinte, princípios que permitem ao ouvinte interpretar o enunciado do seu interlocutor, tomando em consideração, além do significado literal, elementos da situação e a intenção que o locutor teve ao enunciá-lo.

 

Também existe a sociologia da linguagem, que se debruça sobre os efeitos dos usos da(s) língua(s) sobre a dinâmica social. Por exemplo, o prestígio de determinadas formas de uso da língua sobre outras, o preconceito social que se exerce sobre pessoas ou grupos de pessoas por causa de seu modo de falar, os processos de normatização de uma língua ou de uma variedade de língua para que se torne língua oficial etc.

 

Prima-irmã da sociologia da linguagem é a sociolinguística que, no entanto, inverte de certa maneira a direção do foco para estudar como a língua e suas estruturas são afetadas pelas dinâmicas sociais. Ao desvendar alguns dos fatores sociais responsáveis pela mudança das línguas, a sociolinguística trouxe novo impulso para a linguística histórica, surgida no século XIX, quando teve um extraordinário desenvolvimento, mas deixada de lado na primeira metade do século XX pelos linguistas mais interessados no exame da língua em seu estado atual, contemporâneo.

 

Também muito aparentadas entre si são a antropologia linguística e a linguística antropológica.

 

1. A primeira investiga de que modo a língua/linguagem molda a comunicação, constitui a identidade social, influi no pertencimento de indivíduos a grupos, organiza em larga escala as crenças culturais e desenvolve uma representação cultural comum do mundo natural e do mundo social.

 

2. A linguística antropológica, sendo primordialmente linguística, explora o que se passa entre língua/linguagem e cultura e as relações entre biologia humana, cognição e linguagem. Uma disciplina também muito próxima da antropologia linguística é a etnografia da comunicação, que aplica a metodologia da pesquisa etnográfica (descrição minuciosa dos padrões culturais peculiares de um determinado grupo social) para a análise dos processos de comunicação dentro de uma dada comunidade de fala.

 

Uma vez que toda manifestação da linguagem se realiza na forma de discurso, isto é, de um uso da língua situado local e historicamente, um campo de estudo muito desenvolvido nas últimas décadas tem sido precisamente a análise do discurso, que se vale das contribuições de diversas disciplinas (linguística, sociologia, psicanálise, ciências da comunicação, filosofia etc.) para investigar de que forma os enunciados socialmente significativos se constroem não somente do ponto de vista estrutural, textual, mas também do ponto de vista da argumentação, das ideologias, das cristalizações de formas e formatos discursivos em determinados períodos históricos, dentro das instituições etc.

 

A linguística textual, por sua vez, postula que qualquer manifestação discursiva se concretiza na forma de um texto e que, por isso, é necessário estudar os elementos que fazem um texto ser o que é: os chamados fatores de textualidade (coesão, coerência, informatividade, situacionalidade, aceitabilidade, intencionalidade, intertextualidade, por exemplo). Mais recentemente, a linguística textual passou também a se interessar pelos processamentos cognitivos da língua, que exigem uma análise atenta de fatores extratextuais, contextuais etc.

 

A análise da conversação estuda o que ocorre nas trocas verbais entre as pessoas: quais as estratégias que usamos, por exemplo, para nos apoderarmos da palavra durante um diálogo, para garantir que nosso interlocutor se mantenha interessado no que dizemos, entre outras muitas coisas.

 

A psicolinguística se dedica primordialmente à investigação dos processos de aquisição da linguagem, dos fatores cognitivos que permitem o processamento e a produção da linguagem. Próxima dela está a neurolinguística, interessada no funcionamento do cérebro humano como processador da linguagem, e também nos distúrbios de linguagem mais conhecidos (afasia, dislexia, gagueira etc.).

 

Quando os avanços teóricos e metodológicos das diversas disciplinas voltadas para o estudo da linguagem são aproveitados para a solução de problemas práticos ou de atividades profissionais específicas, é comum empregar-se a designação de linguística aplicada. Os ramos mais difundidos dessas aplicações são o ensino de língua (L1 e L2), a tradução, a lexicografia, a codificação da linguagem nos meios de comunicação, a linguagem forense, entre vários outros.

 

Como é fácil ver, o estudo da linguagem humana oferece um campo enorme para a investigação teórica e para o trabalho prático. Mas para entrar nesse campo, a pessoa tem, antes de tudo, que se livrar de algumas ideias muito antigas, nada científicas, como a de que existem formas mais “certas” e mais “erradas” de falar, que existem línguas “primitivas”, que as pessoas analfabetas têm algum tipo de “deficiência” linguística, que o que não está nas gramáticas e nos dicionários “não é português”, que a língua escrita é mais “lógica” que a falada, e por aí vai. Nenhuma dessas ideias tem fundamento na realidade dos fatos sobre as línguas: são meros preconceitos culturais.

 

Por isso, o linguista inglês John Lyons escreveu: “Há toda sorte de preconceitos sociais e nacionalistas associados com a língua, e muitas falsas concepções populares, estimuladas pela versão deformada da gramática tradicional que é comumente ensinada nas escolas. E é realmente difícil libertarmos nossa mente desses preconceitos e dessas falsas concepções: mas esse primeiro passo é necessário e compensador”. De fato, depois que damos esse primeiro passo, as incontáveis línguas humanas nos deixam tão deslumbrados e maravilhados que é impossível não considerar que a linguagem é o que existe de mais fascinante no mundo! 

 

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