Blog da Parábola Editorial

Língua portuguesa e estrangeirismos

Língua portuguesa e estrangeirismos

Influência da língua inglesa sobre o português

 

Graças à publicação de um grande número de artigos em jornais de circulação nacional e regional, em revistas científicas, além de dois livros [Motta-Roth (org.), 2000 e Faraco, 2001], todos eles críticos ao Projeto de Lei n. 1676/1999, o empreendimento do deputado Aldo Rebelo (PCdoB/SP) ficou parado numa comissão legislativa e nunca chegou a ser votado pelas plenárias das duas câmaras. Importante observar que a linguística aplicada, ainda incipiente no país por volta de 1999, foi a primeira área dos estudos da linguagem a rejeitar a proposta de proibir o uso de estrangeirismos [Motta-Roth (org.), 2000].

A Folha de S.Paulo, num editorial intitulado “Português a fórceps” (30/03/2001: 2), foi severa. O uso do vocábulo fórceps capta nitidamente a opinião do jornal.

Não considero exagerado afirmar que nenhum outro projeto proposto pelo poder legislativo chegou a ser debatido com tanta amplitude e tenha levado a tantas publicações – livros, dissertações de mestrado e teses de doutoramento – junto com uma pletora de artigos.
   

 

Em 2002, Rajagopalan publicou, numa revista internacional, um trabalho em que assevera que os linguistas, com respeito à legislação contra os estrangeirismos, falharam (no contexto brasileiro?) por não ter a pachorra de interagir ou “conversar” com o povo. No livro organizado por Rajagopalan e Lopes da Silva (2004), Rajagopalan (2004: 220) escreve que “um pilar de sustentação” da linguística é que “o leigo não sabe de nada e, consequentemente, nada tem a nos ensinar”. Faltou a ele citar nomes de linguistas e de linguistas aplicados que estivessem de acordo com essa atitude. De todo modo, o artigo e o livro contribuíram para muitos leitores se posicionarem pró ou contra a presença de estrangeirismos nos diferentes idiomas falados no mundo. O livro publicado em 2004 foi salutar, em primeiro lugar, por reunir vários especialistas do exterior e do Brasil e, em segundo lugar, por divulgar aos quatro cantos do mundo a pesquisa linguística no Brasil, que já está bem longe de ser uma “terra ignota” como foi nos tempos de Euclides da Cunha¹. Um gesto muito amável por parte de Rajagopalan e Lopes da Silva foi o de convidar o deputado Aldo Rebelo a contribuir para a constituição do livro de 2004 com um artigo. Mesmo que ele não tenha mudado a própria visão, faz parte do espírito democrático incluir a diversidade de vozes. E mesmo discordando pessoalmente da proposta de banir estrangeiros e impor multas pela desobediência, o projeto de lei contribuiu para enriquecer nosso pensamento sobre a linguagem humana com a participação de especialistas renomados e leigos em geral.

É perigoso generalizar e julgar categoricamente os indivíduos.

 

Falta ainda comentar outro resultado positivo do apelo de Rajagopalan (2004), quando ele sugeriu aos linguistas pesquisarem a opinião dos leigos. Existem alguns trabalhos em que os pesquisadores consultaram determinado grupo de “leigos.” Assis-Peterson, em “Como ser feliz no meio de anglicismos: processos transglóssicos e transculturais” (2008), consultou comerciantes e proprietários de lojas; Schmitz (2002a) recolheu opiniões sobre o uso de estrangeirismos por parte de vestibulandos, candidatos à seleção pela USP.

Assis-Peterson (2008) recolheu dados de vinte informantes, todos eles proprietários de casas comerciais de “pequeno e médio porte” numa pequena cidade do estado de Mato Grosso. Os participantes da pesquisa tiveram de explicar a motivação pela escolha de um nome para os diferentes estabelecimentos. Eis a explicação dada por um dos donos:

Sr. José Aparecido (Snuk Sport Bar): Eu ia colocar uma mesa pra jogar e como a mesa é snook, daí eu resolvi colocar Snuk Sport Bar, porque é divertimento, as pessoas vêm brincar,  jogar, é um esporte também, eu acho, né, bar é porque vendo bebida, cigarro, refrigerante, daí ficou um conjunto dessas três coisas, né.... O pintor escreveu “Snuk” na plaquinha ali errado. Snook é com dois /ó/, inglês é assim, né? Mas eu deixei do jeito que tá porque ficou mais fácil para o povo ler, né? Tem também o desenho ali perto do nome da mesa do snook, a pessoa vê e já entende. Fiquei uma semana bolando o nome. O menino que veio pintar ali sugeriu um outro nome e tal e eu não gostei, fixei nesse nome (08/03/2006).

 

Com respeito ao comerciante consultado, Assis-Peterson informa (2008: 332) o seguinte:

Escolher um nome para um estabelecimento comercial, dizem os entrevistados, envolve sondagem, consulta a amigos e familiares, a revistas, na internet, além de observação de nomes de outras lojas bem-sucedidas, que já possuíram ou porque nelas trabalharam como empregados. Para muitos, a escolha do nome da loja tem estreita ligação com o produto que vendem. Às vezes, também, o pintor do letreiro é colaborador ao inserir a forma “’s”  ou escrever “snuk” ao invés de snook (snooker).

 

Na sua pesquisa, Assis-Peterson (2008) caracteriza a atuação dos comerciantes como exemplo das noções “transglossia” e “transculturalidade”, justamente dois fenômenos pós-modernos, pois todos os idiomas se misturam linguística e culturalmente. A autora conclui que as duas noções mostram claramente que o pessoal do comércio recorre a uma “desterritorialização do inglês”. A língua não é completamente “deglutida, mas remastigada e lançada em novas formas de sentidos” (2008: 334). De fato, o léxico é para todos nós um “campo minado, área conflituosa, palco de sedução e depósito de recortes” (Schmitz, 2015). 

Publiquei um artigo,  “O projeto de lei do deputado Aldo Rebelo, os estrangeirismos e os vestibulandos: a voz dos jovens a respeito do idioma nacional e a cultura brasileira, em 2002 (Schmitz, 2002a).

Em 2000, a banca examinadora do vestibular da FUVEST da Universidade de São Paulo, na prova escrita de língua portuguesa, solicitou que os candidatos elaborassem um texto de trinta linhas a favor ou contra a proibição da utilização de estrangeirismos na fala e na escrita. No meu artigo, examinei dezesseis diferentes ensaios produzidos pelos vestibulandos. Fiquei impressionado com a variedade e criatividade dos títulos que os estudantes deram a seus textos. Eis alguns exemplos: “Contra a demagogia pseudonacionalista”; “O perigo estrangeiro ‘Tupy or Not Tupy’: That is the Question’ (Oswaldo de Andrade, Manifesto antropofágico”; “Proibir não é a solução”; “A língua inglesa e o bom senso”; “Identidade nacional e estrangeirismos”. Nesta última prova, o candidato mostrou um conhecimento da história e da cultura. Ele escreve:

Quando essa onda norte-americana passar, continuaremos sendo brasileiros com “delivery” e “drive-thru” assim como “penhor” e “abajur”. Não há razão para temer que inocentes verbetes, como e-mail, deletem  nossa cultura.

 

Gostei da expressão “inocentes verbetes”. Ao examinar todas as redações, observei que a palavra xenófobo ocorreu com frequência. Rajagopalan (2004), no texto original em inglês, usou o vocábulo chauvinismo e “chauvinismo” em português. No meu artigo (Schmitz, 2004: 103-106) no referido volume (Lopes da Silva e Rajagoplan, 2004), argumentei que o autor do projeto de lei foi motivado pelo interesse em ser eleito e servir à nação, mas talvez com certa ambiguidade entre plataformas políticas de orientação de direita e de esquerda. É perigoso generalizar e julgar categoricamente os indivíduos. Não diria que se trata de receio de estrangeiros ou de chauvinismo, mas simplesmente uma falta de acompanhar o desenvolvimento dos estudos da linguagem a partir da década de 1970, ou de ler os trabalhos de Evanildo Bechara, Rodrigues Lapa (que nunca condenou os estrangeirismos), Said Ali, Mattoso Camara e Teodoro Henrique Maurer. 

 

¹Veja o trecho retirado d’ Os Sertões: “As nossas melhores cartas, enfeixando informes escassos, lá têm um claro expressivo, um hiato, Terra ignota, em que se aventura o rabisco de um rio problemático ou idealização de uma corda de serras” (p. 6-7). Os Sertões de Euclides da Cunha (versão online: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua00091a.pdf; acesso: 24/04/2017). Universidade da Amazônia: NEAD – Núcleo de Educação a Distância, Belém, Pará, Brasil.

 

Língua Portuguesa e humor. Outra vez!
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