Blog da Parábola Editorial

Celso Ferrarezi Jr. é formado em Letras Português-Inglês pela UNIR (1989), mestre em Linguística-Semântica pela Unicamp (1997), doutor em Linguística-Semântica pela UNIR (1998), pós-doutor em Semântica pela Unicamp (2005) e em Linguística de Corpus pela UFMG (2016). Atualmente é professor titular do Instituto de Ciências Humanas e Letras da Unifal. Tem experiência na área de Linguística, com ênfase em Semântica, tendo idealizado e desenvolvido a Semântica de Contextos e Cenários, uma vertente de estudos semânticos com enfoque cultural. Atua principalmente com pesquisas semânticas, Linguística aplicada à educação (de forma especial em processos de significação e ressignificação em ambiente escolar), alfabetização e teorias linguísticas.

 

Uma crônica de Natal

Uma crônica de Natal

 

Quando minha mãe morreu, ela tinha perdido totalmente a razão. Como se diz "no popular", ela enlouqueceu. A primeira grande crise de lucidez que ela teve foi no Natal, mais precisamente, na noite do dia 24. Aquele ano foi atípico. Eu ainda morava em Rondônia e, na Universidade, estávamos cumprindo calendário de greve. Eu aplicaria avaliações até o dia 23 de dezembro. E – é claro – não daria tempo de sair de Rondônia de carro com a família no dia 24 de manhã para estar no dia 24 à noite em Campinas. Além disso, estávamos apertados nas finanças. Eu tinha explicado tudo isso para a família, mas minha mãe não se conformou. Minha irmã me contou que minha mãe se sentou no sofá às 18 horas e ficou olhando fixamente para a porta da sala até uma da manhã, esperando que a porta se abrisse e o filho entrasse por ela com a nora e os netos. Mas, isso não aconteceu. Em janeiro, tive que fazer uma viagem de emergência – agora de avião – para buscar minha mãe. Ela havia piorado, tinha caído e se machucado, e viria a falecer 40 dias depois. O último Natal de minha mãe, mesmo que ela já estivesse doente da razão, não foi esperando um presente caro nem desejando uma ceia farta, foi esperando a porta da sala se abrir para que nós fôssemos o seu presente.

 

Demorei muito para entender isso. Demorei muito para entender que os Reis Magos é que ganharam um presente naquela noite na pobre estrebaria de Belém e não o Menino Jesus. Demorei muito para entender por que Deus mandou que chamassem Seu Filho de Emanuel. "Emanuel" significa "Deus conosco". E eu nunca havia parado para pensar que "Deus conosco" é diferente de "Deus comigo". Jesus é a presença de Deus com pessoas que dão sua presença às outras. O Natal se realiza em um "nós" e não em um "eu".

 

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multi-frag-letramento-digita-e-tal 

multi-frag-letramento-digita-e-tal

 

Quantas lasquinhas de mundo espalhadas pela rede! Quantos pedacinhos de nada com cara de alguma coisa. Quantas opiniões parciais e frases de efeito que nos dão a sensação de profundidade, mas que, na verdade, não passam de baboseira sem valor. O saber se desintegrou, o mundo se desintegrou: quase tudo virou um monte de fragmentos de todas as coisas que, ao final, são um monte de coisa nenhuma. E daí? E daí os tempos mudaram, as tecnologias mudaram, as formas de acesso ao saber mudaram, mas, as pessoas, muito pouco! Nossa cognição ainda é a mesma, nossos sentimentos e a forma como nos educamos também. Nossos padrões de pensamento e a maneira como construímos nossa visão de mundo é tal qual há vinte ou trinta anos. Ainda precisamos ser civilizados, disciplinados, ensinados a nos concentrar e a compreender os assuntos mais profundos, pois não nascemos sabendo nada disso, mesmo que tenhamos nascido na geração digital. E é aí que entra o perigo da fragmentação: como ajunta um monte de coisas sobre mais um monte de coisas (mesmo que quase sem valor algum) ela nos dá uma falsa sensação de segurança e de saber. Pensamos que sabemos muito e acabamos nos conformando com isso. Mas, na real, não sabemos de quase nada – e nos sentimos satisfeitos assim! Três tuítes e o carinha acha que tirou o ensino médio, mais duas postagens de Facebook já fazem ele acreditar que tem nível superior. Junte mais dois PowerPoints malfeitos sobre livros quaisquer e o sujeito acredita que é mestre e, com mais meia hora de Instagram, se acha doutor – e o pior! –, pronto para opinar sobre tudo! Nada de longas leituras, nada de livros, nada de tratados, nada de ensaios profundos... agora, é a ilusão do multi-frag-letramento-digita-e-tal que manda no mundo! É uma pena! O multiletramento é importante! Mas, acreditar que alimentar a mentesó de lasquinhas de conhecimento é multiletramento é uma enorme ilusão! A consequência dessa ilusão é nos tornamos superficiais e arrogantes! A fragmentação do mundo fez isso conosco. Agora não há mais espaço para sentar-se e ler um grande texto, com todo o seu poder transformador e educativo! Queremos resumos e resenhas, introduções que saltam para as conclusões, e jogamos fora os miolos. Estamos vivendo das cascas das bananas, pois seu conteúdo é sistematicamente desprezado. Temos pressa! Sempre temos pressa! Por isso, não gostamos mais de ler longos textos que nos civilizariam e que nos ensinariam em profundidade, desenvolvendo poderosamente nossa mente! Não queremos mais o pesado e doloroso conhecimento que construiu a ciência e a fé – sim! o conhecimento é doloroso, pois abala as realidades! Esquecemos as longas e sérias conversas, nos perdemos nas palestras, que já não entendemos mais. Não queremos mais os filósofos, os pensadores nem os livros sagrados. Queremos pitadas, lasquinhas, pedacinhos, pequenos bocados fáceis de ingerir e de digerir – mas enganadores!!! Ama mos o s frag men tos! Qu an to m a i s f á c i l m e l h o r! Qu ant o m en or me lh o r! Nos s a ment e st á enfr a q ue c en d... Fr ag me nt o s... p o r fa v o r!! S ó f r @g me n t ... s... s... d e s... co ne x o s ... ----------- 00 00... # v a z i o...

 

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Ensino de língua materna no Brasil

Ensino de língua materna no Brasil

 

As práticas silenciadoras de ensino

ENTREVISTA COM CELSO FERRAREZI

 

 

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Faculdade de Letras, xiii... e agora?

Faculdade de Letras, xiii... e agora?
 5 Dicas para fazer do aluno um profissional

 

O sistema educacional brasileiro tem mais leis no papel do que organização de verdade na prática. Uma das consequências mais diretas disso é que os níveis de ensino não conseguem conversar entre si. A educação básica tem métodos, materiais e programas com uma estética própria que não têm qualquer relação com a estética da graduação. Então, quase sempre ocorre um choque tremendo no aluno que sai do ensino médio e consegue entrar na faculdade de Letras. Ele se sente perdido e demora bastante para se dar conta do que querem dele ali –  isso quando consegue descobrir o caminho das pedras. O mesmo ocorre quando ele sai da graduação e entra em um mestrado ou doutorado, que são outros dois níveis que parecem se odiar, cada um com sua estética própria e monológica. Ao invés de haver uma contínua progressividade nos níveis de ensino, está cada um no seu quadrado, e o aluno que se vire para se adaptar. E isso é bem ruim.

 

Vejamos, então, alguns elementos importantes da estética geral da graduação. Queremos ajudar o aluno ingressante a descobrir o que querem dele em um curso de Letras. A ideia é diminuir o sofrimento pessoal e melhorar o desempenho desses alunos por meio da compreensão de como as coisas funcionam (ou deveriam funcionar) nos cursos superiores brasileiros. Vamos lá!

  1. Chega de pegar na mão 

 

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