Blog da Parábola Editorial

Blog da Parábola Editorial

Carlos Henrique Fioravanti é jornalista formado pela Universidade de São Paulo (USP/SP), em 1983, com especialização em Jornalismo Internacional pelo Reuters Institute for the Study of Journalism da Universidade de Oxford (Inglaterra), em 2007 e doutorado em Política Científica e Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp/SP),...

Carlos Henrique Fioravanti é jornalista formado pela Universidade de São Paulo (USP/SP), em 1983, com especialização em Jornalismo Internacional pelo Reuters Institute for the Study of Journalism da Universidade de Oxford (Inglaterra), em 2007 e doutorado em Política Científica e Tecnológica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp/SP), em 2010.

Escreve como jornalista sobre ciência, meio ambiente e tecnologia desde 1985. É editor especial da revista Pesquisa Fapesp. Recebeu quatro vezes o Prêmio de Reportagem sobre a Biodiversidade da Mata Atlântica, em 2003, 2004, 2006 e 2008, e o The Stop TB Partnership Award for Excellence in Reporting on Tuberculosis, em 2009.

Mais

Ataliba Teixeira de Castilho e a criação do NURC

Ataliba-Teixeira-de-Castilho1

 

Um dos precursores dos estudos sobre o português falado no Brasil preza a liberdade dos usuários da língua e critica o apego excessivo dos gramáticos às regras

 

Na década  de 1970 o senhor  começou  o projeto da Norma Urbana Línguística Culta  (Nurc). Como foi?

A ideia era descrever a língua falada culta. Foi uma surpresa, porque a língua da gente culta tinha muitas  partes  condenadas pelos gramáticos, o que mostrava que nosso catálogo de “erros” não estava levando em conta o uso real da língua portuguesa no Brasil. Esse projeto começou com um professor espanhol do Colégio do México, na Cidade do México, Juan Miguel Lope-Blanch [1927-2002]. Ele fazia dialetologia, ou seja, descrevia a língua das regiões rurais  até perceber que as pessoas estavam migrando para as cidades.  Decidiu então fazer dialetologia urbana. Nos anos 1960, Lope-Blanch propôs o estudo da norma urbana culta falada nas capitais, não apenas para o espanhol, mas em toda a América e em Portugal. Essa proposta entrou no Brasil também pelas mãos de um dialetólogo, Nelson Rossi [1927-2014], da Universidade Federal da Bahia, que fez o primeiro atlas linguístico do Brasil. Em uma reunião em São Paulo em 1969, Rossi disse que Lope-Blanch queria estudar a língua das capitais, mas no Brasil nossa capital, Brasília, não servia como exemplo de fato linguístico relevante, porque era muito nova. Então escolhemos cinco capitais de estado, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Seguimos exatamente a mesma metodologia do projeto original. O Nurc foi muito bem nas gravações das entrevistas e depois nas transcrições, mas falhou na descrição. Foi feito um corpus gigantesco, com 1.500 horas de gravação. Quando chegou na descrição das estruturas – fonologia, morfologia, sintaxe –, não deu certo porque o questionário usado nas entrevistas não tinha uniformidade teórica,  era um trambolho. Apliquei o questionário para estudar aspecto e tempo verbal e vi que aquilo não levaria a resultado  nenhum, porque cada pergunta correspondia a uma teoria, diferente da que embasava a pergunta seguinte. Escrevi um texto sobre a não praticabilidade do questionário para a etapa mais importante, a descrição, o conhecimento. Em 1981, em um congresso na Universidade Cornell, nos Estados  Unidos, li o texto. Pensei que Lope-Branch iria me matar, pois ele era muito enfático  em suas intervenções, mas caí do cavalo. Sabe o que ele disse? “Você tem razão.” Quando não tínhamos como decidir,  submetíamos a questão  a uma votação, como se ciência fosse democracia. Não é, tem de ter coerência no conceito e não decidir no voto. Quando ele falou isso, concluí que tínhamos de sair do projeto. Mas, ao mesmo tempo, não podíamos deixar  de usar a maravilhosa quantidade de dados que o Nurc já tinha produzido.

Continuar lendo
  3424 Acessos
  0 comentários
3424 Acessos
0 comentários

Ataliba Teixeira de Castilho e o Projeto para a História do Português Brasileiro

Ataliba-Teixeira-de-Castilho2

 

Um dos precursores dos estudos sobre o português falado no Brasil preza a liberdade dos usuários da língua e critica o apego excessivo dos gramáticos às regras

 

Em que pé está o Projeto para a História do Português Brasileiro, um de seus trabalhos mais recentes?

Esse projeto começou  na USP em 1987. Quando começavam a surgir os resultados dos estudos sobre a língua falada, que tínhamos começado na décadde 1970, perguntei para os meus colegas de onde tinha vindo tudo aquilo. Começamos então a reconstituir a história da implantação e do desenvolvimento do português brasileiro, com o mesmo método dos projetos anteriores: formação de grupos de trabalho, cronograma, seminários nacionais, publicação dos resultados. Saíram 10 volumes de estudos e agora está saindo a consolidação dos resultados, em 12 volumes. Sete volumes devem sair ainda neste ano. O primeiro será o volume 4, coordenado por Célia Lopes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sobre a história dos substantivos, adjetivos e preposições. Será que tudo veio do português europeu ou inventamos algo? Uma estudante de doutorado que estou orientando na Unicamp, Flávia Orci Fernandes, percorreu as redes sociais e pegou marcas de plural no pronome que, queo é mais invariável. Hoje já se fala ou se escreve: ques pessoas? Como explicamos esse dinamismo da língua? Temos de documentar e explicar. A mudança do idioma vai criando outras regras. A classe culta aindao aceitou, mas é uma questã de tempo acabam aceitando. É um novo estágio da língua que está vindo.

Continuar lendo
  3446 Acessos
  0 comentários
3446 Acessos
0 comentários

Ataliba Teixeira de Castilho, o linguista libertário

Ataliba-Teixeira-de-Castilho

 

Um dos precursores dos estudos sobre o português falado no Brasil preza a liberdade dos usuários da língua e critica o apego excessivo dos gramáticos às regras.

 

Autodenominado caipira por ter nascido em Araçatuba e crescido emo José do Rio Preto, o linguista Ataliba Teixeira de Castilho diverte-se com as mudanças da língua. Uma das mais recentes é a transformação do pronome que em palavra variável, como em “Ques pessoas?”, identificada em redes sociais por um de seus estudantes de doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para ele, “ao se esforçarem para que as pessoas obedeçam às regras, os gramáticos não viram que estavam dando um cala-boca no cidadão brasileiro”. A crítica aos gramáticoso significa que Castilho tenha alguma aversão a normas da língua culta, mas apenas que valoriza os limites geográficos e históricos do idioma.

 

Continuar lendo
  5266 Acessos
  0 comentários
5266 Acessos
0 comentários
logo_rodape.png
Blog da Parábola Editorial
Todos os Direitos Reservados

Entre em contato

RUA DR. MÁRIO VICENTE, 394 IPIRANGA | 04270-000 | SÃO PAULO, SP
PABX: [11] 5061-9262 | 5061-8075
Sistemas Web em São Paulo

Search