Blog da Parábola Editorial

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Resenha: Máscaras e ideologias

Resenha: Máscaras e ideologias

M.M. Bakthin (1895-1975)

 

O que é a verdade? Relativizando o conceito, diríamos que não existe uma verdade única, tanto sob o prisma filosófico quanto científico - não entrarei aqui no plano religioso -, a compreensão do que é verdadeiro é construída com base na nossa percepção, envolta em valores e crenças, portanto, variáveis e idiossincráticas. Paradoxalmente, talvez esteja aí, nesse truísmo, a própria categorização do relativismo do conceito. O contraditório é um princípio da convivência democrática e, sobretudo no contexto acadêmico, esse princípio precisa ser reconhecido e exercido, sob pena de naufragarmos no fundamentalismo cego, incompatível com a noção de ciência e a construção de conhecimento.

Introduzo esta resenha com tais obviedades para chamar a atenção para um certo valor de verdade que tem pautado estudos e reflexões nas ciências humanas no país, mais especificamente na Linguística, área em que me insiro. Não tratarei aqui de generalizações, mas de casos específicos, embora não únicos, referentes à publicação de dois livros aqui no Brasil que trazem à tona perturbadoras verdades, inverdades e mitos que foram sendo construídos ao longo do tempo sobre o legado Bakhtiniano.

O primeiro, Bakhtine démasqué: histoire d’um menteur, d’une escorquerie et d’um delire colectif, publicado por Jean-Paul Bronckart e Cristian Bota, em 2011, em Genebra, e no ano seguinte, traduzido no Brasil como Bakhtin desmascarado: história de um mentiroso, de uma fraude, de um delírio coletivo. O livro divulga os resultados de uma criteriosa pesquisa documental bibliográfica, associada a um estudo hermenêutico e comparativo das obras de Valentin Volochinov, Mikhail Bakhtin e Pável N. Medviédev. Em linhas bem gerais, pois é impossível tratar aqui em detalhes de tudo o que é discutido em um livro de 509 páginas nesta crônica-resenha despretensiosa, os autores defendem a tese de que não pode ser creditada a Bakhtin a autoria de Marxismo e Filosofia da Linguagem, Freudismo, Discurso na Vida e Discurso na Poesia e O Método Formal nos Estudos Literários, cujos autores seriam, respectivamente, Valentin Volochinov, dos três primeiros, e Medviédev, do último. Segundo Bronckart e Bota, essa campanha começou a ser construída em 1961, quando dois jovens cientistas russos descobriram que Bakhtin, o autor de Rabelais e Dostoievsky, estava vivo e lançaram-se a editar e a reeditar essas obras e a também, simultaneamente, construir o mito que foi fortalecido com a publicação no ocidente de Marxismo e Filosofia da Linguagem (publicado originalmente em Leningrado e assinado por Volochinov, em 1929), pelas mãos de Roman Jakobson na década de 1970. Misteriosamente, nessa nova edição, foi acrescentado o nome de Bakhtin como autor principal e o nome de Volochinov passou a constar tão somente dentro de um suspeito e insidioso parênteses. Dessa data em diante e, principalmente, no decorrer dos anos de 1980-1990, uma campanha falaciosa passa a ser divulgada nos Estados Unidos e na França, devido ao empenho de Clark e Holquist (1984), consolidando-se definitivamente no ocidente.

 

Até aí, nenhum problema, trata-se de uma tese, segundo meu ponto de vista, exemplarmente documentada e fundamentada, mas ainda assim, plena de possibilidades de ser rebatida e contradita, quando igualmente sustentada em argumentos e evidências. O que me leva a recuperar essa questão, decorridos quatro anos da publicação do livro aqui no Brasil? O que se viu no contexto acadêmico foi uma completa indiferença à obra por quase totalidade dos bakhtinianos, não só dos mais ortodoxos, contrariando o princípio da responsividade enunciativa, conceito tão marcante na teoria do próprio Bakhtin. O exercício do contra-argumento acadêmico responsável cedeu lugar ao silenciamento e, em menor proporção, à crítica emocional e depreciativa da obra, algo tão comum na nossa cotidianidade, mas inaceitável na esfera acadêmica. Outro aspecto igualmente importante e que tem sido sistematicamente ignorado diz respeito ao reconhecimento de que, na verdade, não foram Bronckart e Bota os pioneiros em questionar a autoria dessas obras. Louis-Jean Calvet, por exemplo, em 1975, já defendia a mesma tese, ou seja, algo já anunciado há 35 anos antes da publicação da obra dos genebrinos não poderia configurar, obviamente, um fato “novo”, mas só confirma o apego a certas verdades e não a outras. A autoria de Volochinov era plenamente reconhecida, como se pode ver no seguinte trecho, “O que mais espanta aqui é que Volochinov, além da sua vontade de ancorar o fato linguístico na prática social, formula ao mesmo tempo uma crítica da linguística estrutural que ainda não existia (estamos em 1929)[...](CALVET, 1975, p.76)”.

O argumento contrário aos autores que mais circulou entre os “discípulos” de Bakhtin questionava a legitimidade das investigações por não terem sido analisados os originais russos. De tão improcedente que é, chega a ser cômica tal argumentação. Como explicar, então, todo esse doutrinamento e apropriação dos conceitos bakhtinianos por seus seguidores, aqui no Brasil, desde a década de oitenta do século passado até os dias atuais, fundamentados unicamente na tradução brasileira e, mais esporadicamente, na tradução francesa? Seguindo esse mesmo raciocínio, tudo o que foi dito e escrito até agora seria igualmente desautorizado. Como teríamos ganhado todos, bakhtinianos e não-bakhtinianos, se no lugar das mágoas e ressentimentos individuais, postumamente assumidos por seguidores de Bakhtin, tivéssemos assistido a um debate teórico e não passional. Na Europa, foram publicadas várias resenhas sobre o livro, se favoráveis ou desfavoráveis, não importa, exerceram seu papel de contraditório, de que ali no Desmascarado, havia muito mais a “desmascarar” além de uma autoria.

Outra crítica feita a Bronckart e Bota questionava os termos ofensivos atribuídos a Bakhtin no título do livro, mas, diante da recorrente indiferença a tantas evidências históricas e bibliográficas, havia sim a necessidade de um “barulho” mais alto, usando adjetivos que incomodassem os ouvidos. No entanto, mais uma vez, seguindo um raciocínio de manutenção de um status quo, os termos “mentiroso, fraude e delírio coletivo” em vez de serem tratados como convite à discussão e ao dissenso, foram rechaçados como agressões, como atos de menor valor.


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Longe de ser considerada uma exceção, fruto, talvez, da forte “adjetivação” do título do livro, percebe-se uma reação semelhante em relação ao segundo livro intitulado Volochinov e a Filosofia da Linguagem, publicado pela Parábola em 2015 e traduzido por Marcos Bagno. Este livro corresponde ao prefácio da nova tradução de Marxismo e Filosofia do russo para o francês, feita por Patrick Sériot e Ilna Tylkowsky, publicada em 2010.

Se as críticas de Bronckart e Bota incomodaram os bakhtinianos, o livro de Sériot, certamente, vai além. O autor, definitivamente, atribui a autoria de Marxismo e Filosofia da Linguagem a Volochinov e situa Bakhtin e Volochinov no quadro intelectual da época, revendo e esclarecendo conceitos os quais, segundo o autor, foram abraçados no ocidente de forma intempestiva e precipitada, alijando esses autores de um contexto histórico e teórico, a priori, explicativos de suas epistemologias. O que se viu, portanto, foi o estabelecimento de “diálogos” inexistentes desses autores com Ducrot, Benveniste e Kristeva. Assim, Sériot faz uma releitura com base no panorama soviético da época e advoga que as noções de discurso, sujeito e ideologia foram ressignificadas no ocidente e tematizadas em uma dimensão bem maior do que fora original e essencialmente lançada pelos teóricos soviéticos.

A respeito do discurso, Sériot (2015, p.14) esclarece que “[...] a ideia mesma de discurso não tem nenhuma existência na Rússia. Seria dificílimo encontrar tal palavra na imensa hexegese bakhtiniana [...]”. Em relação à noção de sujeito, ele é ainda mais contundente ao afirmar que o sujeito evocado por Bakhtin e Volochinov são, na verdade, “[...] locutores (indivíduos falantes e não enunciadores constituídos como sujeitos pelo processo de enunciação” (op. Cit., p.15). Por fim, ele desfere o último golpe, a respeito da concepção de ideologia, quando assegura que (op. Cit., p.16):

Não se encontrará ideia alguma de alienação em Bakhtin, Volochinov e Medvedev, muito pelo contrário: para eles é preciso estar conforme a seu ‘grupo social’, o qual nada tem que ver com uma posição numa conjuntura sócio-histórica, mas se define pelo fato de que as pessoas se compreendem porque têm uma vivência em comum. A ideologia, em Volochinov, por exemplo, é o conjunto dos produtos culturais, dos quais faz parte a ciência: são todas as ideias que ‘as pessoas’ têm na cabeça, conjunto sempre manifesto e transparente na consciência, já que para ele o inconsciente não existe (cf. Volochinov, 1927).

 

Sériot introduz elementos novos e desconcertantes à discussão - se, porventura, vier a ocorrer -, uma vez que, em reação à publicação de Bronckart e Bota, o que se viu e ouviu em grande intensidade foi a defesa de que o quadro teórico e os conceitos atribuídos a Bakhtin não se alteram, não se abalam. Estabeleceu-se, então, uma concordância tácita de fazer referência a um círculo de Bakhtin que, segundo Bronckart; Bota (2012) e Sériot (2015), na verdade, nunca existiu nos termos defendidos por seus seguidores. Assim, perpetuando-se um “círculo”, sobretudo vicioso, passa-se a defender que a verdadeira autoria é questão menor, a qual, incoerentemente, só se agiganta quando discutida em rodas de discurso acadêmico que defendem apaixonada e eticamente a punição dos plagiadores nas universidades.

 

O que Sériot polemiza vai muito além da autoria e toca em aspectos essenciais do que seria representativo da epistemologia do “círculo”. Trata-se, portanto, de um ponto de vista, da defesa de uma nova concepção de verdade e que merece ser lida, discutida e rebatida, assim como o livro Bakhtin Desmascarado, dentro do que se espera ocorrer no âmbito das discussões acadêmicas. O apego a um único valor de “verdade” pode se impor em relação aos demais? Até quando predominará um mesmo paradigma (cf. Khun, 2001), sem que sejam ouvidas vozes dissonantes que nos façam avançar, nem que seja no sentido de reafirmar o status quo das leituras sobre o “círculo” soviético e de tudo o mais relacionado às obras e aos autores?

 

Caso permaneça o silenciamento, bastante significativo, por sinal, teremos mais uma evidência de que o que está e sempre esteve subjacente nada mais é senão um jogo de manipulação e de imposição de uma “verdade”, uma ideologia dominante motivada por interesses os mais diversos, os quais não temos como abordar em sua plenitude nos limites deste texto.

 

Por fim, o contraditório, nesse caso, assume um contorno o mais paradoxal possível, revelando toda a contradição com a qual convivemos ontem, agora e sempre. O legado dos livros proporcionou, ao menos para mim, uma constatação: finalmente, caem as máscaras, mas permanecem as ideologias, não as do “círculo”, não as do acordo coletivo, mas as alienantes.




Referências

BRONCKART, Jean-Paul; BOTA, Daniel. Bakhtin desmascarado: história de um mentiroso, de uma fraude, de um delírio coletivo. São Paulo: Parábola, 2012.

________________. Bakhtine Démasque: hitoire d´un mentieur, d’une escroquerie et d’um délire collectif. Geneve: Droz, 2011.

CALVET, Louis-Jean. Saussure: Pró e Contra – para uma linguística social. São Paulo: Cultrix, 1975.

KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. 2. Ed. São Paulo: Perspectiva, 1978.

SÉRIOT, Patrick. Volocinov e a filosofia da linguagem. São Paulo: Parábola, 2015.

 

Resenha Máscaras e Ideologias - Regina Celi Mendes Pereira, Revista Mallarmargens - revista de poesia e arte contemporânea, 21/05/2016.

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