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Por que é errado rir das expressões faciais dos intérpretes de LIBRAS?

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Por que é errado rir das expressões faciais dos intérpretes de LIBRAS?”

Anderson Almeida da Silva

 

Assim que me foi proposto escrever sobre esta temática, me veio à mente a apresentação da cantora sul-africana Miriam Makeba em que ela entoa uma canção chamada de “A canção dos cliques”. A cantora é falante nativa da língua xhosa, língua conhecida por possuir em seu sistema fonológico sons que não são produzidos com o auxílio do ar dos pulmões, mas pela articulação da língua em vários pontos da boca. Esses sons se assemelham a “estalos” e são tipologicamente raros. No vídeo abaixo, a cantora fala que por onde ela andava as pessoas a questionavam: - mas, como você faz este barulho (os cliques)? E ela costumava se ofender e respondia que os cliques não eram barulhos, mas eram parte de sua própria língua. Ou seja, os cliques fazem parte da língua xhosa e não são apenas um efeito estilístico realizado à vontade dos falantes.

 

https://www.youtube.com/watch?v=3m_TEq2E4cs

Assim como os cliques, as expressões faciais nas línguas de sinais são elementos que compõem a gramática destas línguas. Ignorado por falantes de línguas orais, tal fato comumente os leva a estranhá-las sobretudo para quem observa uma língua de sinais pela primeira vez. Exemplos de expressões faciais e corporais empregadas durante a sinalização são ilustrados nas imagens abaixo de intérpretes de libras[1].

 

As expressões faciais podem assumir duas funções importantes: uma de veicular emoções e outra de cunho gramatical. Explicaremos cada uma a seguir.

No primeiro caso, as expressões faciais que carregam um conteúdo emocional possuem as seguintes características: i. elas não são obrigatórias, ou seja, o sinalizante pode ou não utilizá-las em algum contexto de proferimento e ii. elas não são convencionalizadas, ou seja, a expressão facial que um sinalizador utiliza para expressar ‘medo’ ou ‘raiva’ nem sempre coincide com a de outro sinalizador. Há que se mencionar o trabalho de Darwin (1872) em “A expressão das emoções nos homens e nos animais” em que o autor sugere que as expressões faciais afetivas possuem padrões mais ou menos universais, portanto, as expressões das emoções, apesar de nem sempre envolver os mesmos músculos e partes do rosto em todas as pessoas, possuem, ainda assim, muitas semelhanças. As expressões faciais afetivas, como são chamadas, seriam então comuns às ‘caras e bocas’ utilizadas pela população em geral.

No segundo caso, as expressões faciais das línguas de sinais que carregam um significado gramatical apresentam outras características que as distinguem daquelas de cunho afetivo. As expressões faciais gramaticais se caracterizam por: i. serem obrigatórias, ou seja, não é possível fazer uma pergunta (formular uma sentença interrogativa) em língua de sinais sem utilizar uma expressão de pergunta, como a que vemos abaixo à esquerda, ou ainda, não é possível em algumas línguas de sinais, como a Libras, negar uma sentença (formular uma sentença negativa) sem que a face esteja configurada como no quadro à direita; e ii. são convencionais, pois a mesma expressão utilizada para fazer perguntas ou criar sentenças negativas por um surdo é produzida e compreendida por seus pares[2].

 

 

Imagens retiradas de: Metaxas et al, 2012.

 

Portanto, para quem pensava que as expressões faciais observadas nas línguas de sinais se resumiam somente a um possível ‘sotaque’ do sinalizador, está enganado. Não se trata de ‘mugangos’ e ‘caretas’ como normalmente vemos alguns grupos denominarem as expressões faciais, mas de mecanismos pelos quais as línguas de sinais podem veicular conteúdos afetivos e gramaticais. Existem publicações, como a que vemos abaixo, dedicadas somente aos estudos das expressões faciais nas línguas de sinais, dada a sua relevância para o sistema linguístico das comunidades surdas.

 

 

Claro que as pessoas podem ‘exagerar’ no uso das expressões faciais, assim como falantes de português podem exagerar na forma de falar. Contudo, devemos lembrar que distinguir entre uma fala exagerada e uma fala dita em tons normais não é uma tarefa fácil, já que diferentes comunidades de fala possuem diferentes estilos prosódicos para se comunicar. Ou seja, o que soa como “alto”, “muito puxado” ou “exagerado” para um, pode ser completamente “natural” para outro.

Por isso, julgar as expressões faciais realizadas pelos intérpretes na hora da sinalização como exageradas não é apropriado.

 

P.S: para conhecer pesquisas feitas sobre esta temática na Libras, confira: Pego, 2013; Souza, 2014; Xavier, 2019; Figueiredo & Lourenço, 2019.

 

 



[1] Agradeço aos profissionais intérpretes de língua de sinais Angela Russo e Tiago Coimbra pela cessão de suas imagens para ilustrar este artigo. A foto em preto e branco é de autoria de sabrinafotografia.com.br.

[2] Agradeço a contribuição do prof. Dr. André Xavier, fonólogo de línguas de sinais, por ter me apontado para o texto de Darwin e ainda, por me lembrar do fato que nem sempre as expressões faciais afetivas e gramaticais se opõem em termos de convencionalidade. Como vimos, há propostas teóricas para as quais ambos os tipos podem ser convencionais (universais). Uma diferença atestada em pesquisas é de que as expressões faciais afetivas envolvem muito mais músculos da face do que as expressões gramaticais.

 

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