Blog da Parábola Editorial

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De vacinas, vacas e demais bovinos

Vacinas

 

Uma vez, li numa crônica que as palavras são vagalumes nas sombras. Desde o profundo de nossas gargantas, elas iluminam séculos de conversas e, no timbre infantil de uma criança que está aprendendo a falar, escutamos vozes antiquíssimas, milenares. Neste final de 2020, os informativos do mundo inteiro ecoam a palavra vacina, vacuna, vaccin, vaccine, vaccino, Vakzine, vakcína e outros cognatos parecidos. No início de novembro, a farmacêutica Pfizer anunciou os resultados preliminares de sua vacina, que imuniza contra o coronavírus em 90% dos casos. O composto da farmacêutica estadunidense, fabricado em parceria com a empresa alemã BioNTech, ainda precisa ser aprovado, mas as primeiras doses poderiam chegar em janeiro de 2021. Sabemos que essa não é a única vacina que está sendo desenvolvida no momento e, de fato, há mais de trezentos projetos em curso. Todos eles compartilham um mesmo ponto de partida: injetar partes do vírus (proteínas, patógeno inativado, fragmentos de RNA) para que nosso organismo as detecte e produza defesas, anticorpos. Este é, de fato, o princípio geral de qualquer vacina.

 

Na década de 1780, o médico britânico Edward Jenner (1749-1823), que na época recebia o nome de physician, observou as mulheres camponesas que tinham contato com as vacas ao ordenhá-las. Com alguma frequência, elas se infectavam com uma doença desses animais, a varíola bovina (variolae vaccinae), o que provocava nelas umas incômodas chagas nas mãos e nos braços, mas que, de nenhum modo, as levaria à morte. A varíola bovina, ou cowpox, era um vírus muito menos perigoso do que seu primo, o da varíola humana (variola major), que produz chagas por todo o corpo e mata aproximadamente um terço de seus hóspedes, principalmente crianças. Observando e conversando com aquelas jovens vaqueiras, o médico desenvolveu uma técnica para prevenir a doença mortal: injetando nas pessoas o vírus da varíola bovina conseguia que elas se tornassem imunes à varíola humana. O saber ancestral das mulheres camponesas se transformou em ciência, capaz de ser levada a sério pelas instituições sanitárias públicas da Inglaterra, e valeu a fama de Edward Jenner. Aquele composto feito com o vírus bovino recebeu o nome de vaccine em inglês, e assim foi produzida a primeira vacina do Ocidente. Mais tarde, o químico francês Louis Pasteur  (1822-1895) aplicaria o mesmo princípio para prevenir outros vírus, estendendo o uso do termo.     

 

Dois séculos depois, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a varíola uma doença erradicada. Foi o contato com as vacas que nos trouxe uma forma da varíola mais leve e, com ela, o antídoto contra aquela velha assassina. Foram também as vacas que deram nome à técnica de produzir vacinas aplicando o antigo princípio da alquimia segundo o qual a diferença entre o veneno e o antídoto está na dose. O mesmo vírus que infecta e mata permite que o nosso organismo desenvolva as defesas necessárias quando aplicado segmentado ou inativo. As leitoras e leitores que acompanharam nossa exposição até aqui, perceberam como duas palavras de dois campos semânticos tão diferentes “vaca” e “vacina” estão unidas pelo elo da conversa entre as vaqueiras, o médico e os livros de medicina escritos em latim. A palavra “vaca” — procedente do latim VACCA  tem cognatos em espanhol, galego e catalão: vaca, e também em francês: vache, em romeno: vacă e, ainda, em italiano: vacca (palavra pouco usada pois se prefere chamar este animal de mucca). A origem da palavra VACCA em latim não é clara, porém sabemos que o adjetivo referente ao substantivo “vaca” é “bovino” e que os machos dessa espécie são chamados de “bois”, uma palavra antiquíssima, como veremos a seguir.

 

A palavra do galego-português boi tem cognatos em todas as línguas românicas: espanhol buey, italiano bue, catalão e romeno bou, francês boeuf. Esse item lexical compartilhado dá testemunho da importância que aquele animal teve para a economia feudal da Europa medieval, contexto em que se formaram as línguas românicas. Naquela época, os bois não eram importantes só pela carne, mas pela força física nas tarefas do campo, nos transportes de mercadorias e até na construção civil. 

Como explica Tore Janson em A história das línguas: uma introdução, a conquista normanda da Inglaterra no ano de 1066 provocou a introdução maciça de vocábulos de origem francesa na língua dos anglo-saxões (que mais tarde se tornaria o que hoje conhecemos como língua inglesa). Um bom exemplo disso são os animais domésticos que têm um nome anglo-saxão/germânico quando estão vivos (cow “vaca”, pig “porco”, sheep“ovelha”, deer “veado”) e um nome normando/românico quando são servidos à mesa (beef, pork, mutton, venison). O escritor escocês Walter Scott (1771-1832) explicou a origem dessa diferença no seu romance Ivanhoé: os animais vivos tinham o nome que os camponeses anglo-saxões lhes davam, mas quando eram servidos nos banquetes dos castelos passavam a receber o nome que os nobres normandos lhes davam em francês. A palavra inglesa beef entrou mais tarde em português: “bife” com o significado de fatia de carne, principalmente bovina, temperada e grelhada ou frita. Assim, o termo latino bos vive nas formas “boi” e “bife” do português além do adjetivo “bovino”, que já mencionamos.

 

Como fizemos em outras postagens, convidamos nossas leitoras e leitores a mergulhar em águas mais profundas, a penetrar na noite ágrafa que houve antes da história em busca de vagalumes. O termo latino bostem cognatos em todas as línguas indo-europeias: sânscrito gaus, grego bous, armeno gaus, lituano guovs, irlandês antigo bo, alemão Kuh, inglês cow (plural arcaico kine!). Essa família de palavras cognatas demonstra a importância que os bovinos tinham para a sociedade indo-europeia muito antes do feudalismo medieval, quando, 5.000 anos antes da Era Comum, aquelas tribos vagavam pelas planícies da Eurásia com seus quadrúpedes de cascos: bois, vacas, ovelhas, cabras, porcos e cavalos. Esses últimos seriam dedicados principalmente às atividades bélicas e não seriam tratados como meros produtores de carne. Deixo aqui anotado, leitoras e leitores, uma postagem futura para falarmos das ovelhas e dos cavalos (e das éguas também!). Mas hoje precisamos terminar de desenrolar a história dos bovinos. 

 

Neste ponto, talvez alguns de vocês tenham lembrado do texto que publiquei dedicado à raiz *gweih- “vida”. Se, naquele caso, o som indo-europeu [gw] evoluiu para o latim [w] (grafado <v>), porque aqui temos bos e não *vos? Essa mesma questão se colocaram os linguistas do século XIX, os quais verificaram que, efetivamente, o som [gw] evoluiu regularmente para [gw] em latim. O linguista francês Antoine Meillet (1866-1836) explicou que esse seria o testemunho da origem rural da palavra em latim. Ou seja, em Roma, o som [gw] produz [w]*, mas não aconteceu assim nos campos próximos onde se falava osco ou os dialetos dos sabinos. Nessas outras línguas itálicas, o som indo-europeu [gw] evoluiu para [b] (assim como em grego e em celta!). Guiados pelas teorias de Meillet, podemos imaginar aqueles pretéritos pastores oscos levando os bois a vender em Roma e deixando, junto com os animais, o nome. Esse contato entre falantes urbanos de latim e camponeses falantes de osco deixou uma outra palavra: “búfalo”, usada para nomear um tipo de bovino doméstico procedente da Ásia. Igualmente, do grego boũs, chegaram as palavras “bucólico” (referido à vida idealizada dos pastores e vaqueiros); “butano” (gás hidrocarboneto saturado, produzido na digestão dos ruminantes que causa efeito estufa) e “hecatombe” (hoje sinônimo de “carnificina” ou “catástrofe” que, originalmente significava o sacrifício de cem bois a uma divindade: hekatón “cem”+boũs “bois”).

 

Até aqui mergulhamos em águas profundas, mas, se ainda tivermos fôlego, convido a dar um último pulo saindo da família das línguas indo-europeias para conhecer como chamaram as vacas e os bois outros povos que também os domesticaram durante o Neolítico, há mais de 7.000 anos. O fantástico dicionário inglês Etymonline (www.etymonline.com/word/*gwou-?ref=etymonline cross reference) apresenta o vocábulo gu do sumério (primeira língua documentada com um sistema de escrita do que se falava na Mesopotâmia 6.000 anos atrás) e o chinês ngu  (“boi”). Esse dicionário propõe que a origem da palavra seria uma onomatopeia, uma imitação dos mugidos emitidos pelas vacas. E isso nos faz lembrar que a palavra “boato”  presente não apenas em português, mas também nas outras línguas românicas  procede do latim BOĀTUS, que significava precisamente “mugido”, “berro de boi”, “grito”.

 

Infelizmente, a relação milenar entre nossa espécie e a dos bovinos tem se tornado cada vez mais tóxica, sobretudo em decorrência da produção industrial de carne. Segundo a FAO [Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, uma das agências das Nações Unidas  (www.fao.org/ag/againfo/themes/es/meat/backgr_sources.html)], hoje as atividades vinculadas à criação de gado bovino são responsáveis por cerca de 18% dos gases de efeito estufa (mais do que o setor de transportes!). A criação de gado também é uma das principais causas da degradação do solo e dos recursos hídricos. O agronegócio desmata grandes áreas de floresta para semear os grãos que os animais deverão comer e, de fato, 70% das florestas que desapareceram na Amazônia foram reservados a pastagens e 33% de toda a área agricultável do planeta são destinados à produção de forragem. Essas ações têm o objetivo de garantir o alimento dos animais, entretanto não dão a eles condições dignas de vida de forma alguma. As vacas, que naturalmente podem viver entre 20 e 25 anos, são abatidas aos 18 meses para a produção de carne ou antes dos cinco anos se o seu destino for produzir leite. Uma vida marcada pela crueldade e uma morte não menos cruel para, por fim, se transformar num bife e ser servido na mesa ou no churrasco daqueles que podem pagar. A corrente de sofrimento e exploração não termina aqui. Os relatórios da OMS advertem que o consumo de carne vermelha está ligado ao aumento do risco de câncer, patologias cardíacas e diabetes. Embora o modelo de produção e consumo de carne bovina seja insustentável, ele não para de aumentar. A EMBRAPA (www.embrapa.br/qualidade-da-carne/carne-bovina) informa que o rebanho bovino do Brasil conta com 209 milhões de cabeças (número igual ao da população humana) e o país é o segundo maior exportador de carne bovina do mundo com 1,9 milhões de toneladas por ano. Muito mais do que uma hecatombe! 

 

Tristemente, devemos lembrar também as condições de trabalho precárias e insalubres nos abatedouros, o que tem feito desses lugares focos de transmissão da covid-19 em países altamente industrializados da Europa como a Alemanha, a França e a Espanha. Em suma, o fracasso desse modelo predatório vai ficando cada dia mais escancarado. Talvez seja o momento de pensar em outras formas de nos relacionarmos com o nosso entorno e com os demais animais de nosso planeta para superar a lógica da necropolítica. Talvez seja necessário escutar para aprender, como escutou o médico Edward Jenner as vaqueiras da Inglaterra ou como escutaram (e imitaram) os antigos sumérios, chineses e indo-europeus os sons que emitiam aqueles quadrúpedes enormes. Mais uma vez, mergulhamos na etimologia das palavras para iluminar os problemas e conflitos que existem em nosso presente. Várias epidemias das últimas décadas — como a doença da vaca louca (ou BSE), a gripe aviária (H5N1), a gripe suína (SIV) e, por último, a SARS-CoV-2 causadora da covid-19 — tiveram sua origem nas condições insalubres de exploração em que vacas, aves, porcos e outros animais são obrigados a viver. Se essa relação depredadora e deturpada gerou a doença, a vacina pode estar no respeito e no cuidado com esses animais.

 

No final de 2019, o cineasta sul-coreano Bong Joon-ho lançou Parasita, como uma espécie de premonição da pandemia que pairava sobre esse país chamado Capitalismo, onde a maior parte da humanidade mora. Em 2017, esse mesmo diretor tinha estreado Onkja, talvez como antídoto desse mesmo sistema. Deixo aqui essas dicas de filmes e também de livros: o de Tore Janson (História das línguas) e o de Antoine Meillet (A evolução das formas gramaticais) para passarmos algum tempo mergulhadas na história das línguas e na formulação de futuros alternativos, até dispormos de uma vacina efetiva para toda a população. 

 

 

   

 

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