Blog da Parábola Editorial

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Francisco Jardes Nobre de Araújo é Doutor em Linguística (UFC) e professor de Língua Portuguesa. Também é escritor, autor de "Curral das Pedras" (romance, ABC Editora, 2009), "Pássaros sem canção" (romance, Editora Corsário, 2013) e "Mata Branca" (contos, Editora Cia do Ebook, 2016),

POR QUE DIZEMOS “DESINFETAR”, MAS DIZEMOS “INFECTAR”?

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Alta frequência de uso e mudança fonética

 

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       Se desinfetar é um verbo derivado formado por prefixação, o verbo primitivo deveria ser infetar (que, aliás, existe, mas como uma variante menos usada, tanto no Brasil quanto em Portugal). Ou o contrário: se o verbo primitivo é infectar, o derivado deveria ser desinfectar (que os dicionários brasileiros não registram, mas os portugueses sim).

O que ocorre é que desinfetar é de uso mais frequente do que infectar. Enquanto este está normalmente restrito ao contexto da medicina ou da informática, aquele é de uso mais popular, tanto que existe, no português brasileiro, o emprego desse verbo como uma gíria para “abandonar algum lugar”. Quem nunca ouviu: “Desinfeta daqui!”? Além disso, desinfetante, derivado de desinfetar, é um termo bastante popular, mesmo que grande parte da população brasileira não tenha acesso ao necessário produto para combater o coronavírus.

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A DEPRECIAÇÃO DO GÊNERO FEMININO

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Francisco Jardes Nobre de Araújo

 

Não é nenhuma novidade que termos usados sem nenhum valor depreciativo na designação de homens adquirem frequentemente sentido negativo referindo-se a mulheres. Basta pensarmos no emblemático par rapaz/rapariga no português de algumas áreas do Brasil para ilustrarmos o fato. Mas os exemplos não param por aí, nem o fenômeno é exclusivo da língua portuguesa, como já ouvi sugerirem alguns estudantes de inglês, que alegam ser esta língua “menos machista”, apoiando-se na ausência de flexão de gênero nos nomes ingleses.

Quem não é do Norte nem do Nordeste do Brasil talvez não saiba que rapariga, feminino derivacional de rapaz, converteu-se hoje em um insulto à mulher. É sinônimo de prostituta, meretriz, puta. Aliás, puta também passou pelo mesmo processo: cogita-se que o termo venha do latim vulgar putta, feminino de puttus, que significava simplesmente “rapazinho” e era cognato de puer, “menino”, tirado da raiz indo-europeia *pewH-, donde também saiu purus, “puro”. O masculino puto ainda é usado em Portugal com o sentido original (isto é, “menino”).

Outros correspondentes femininos de termos masculinos têm notadamente uma conotação negativa, geralmente associada à prostituição, como cortesã (no masculino, significa simplesmente “homem da corte” ou, até mesmo, “homem afável”), rameira (o masculino designa o homem que “arremata aos contratadores determinados ramos de um contrato”, segundo o Aurélio) e mulher da vida. Quando não é à prostituição, é à promiscuidade que se associam certos termos femininos: galinha, loba, vaca... Chamar um homem de touro é um elogio! Se cavalo e cachorro designam um homem, respectivamente, grosso e desleal, égua e cadela desqualificam completamente uma mulher. O que dizer do outro correspondente masculino de égua, que é garanhão? Vagabundo é homem desocupado, desempregado, malandro, mas vagabunda é uma mulher promíscua. Também se nota uma distinção de valor entre governante e governanta: enquanto o masculino designa o homem que governa, o feminino designa a mulher que administra a casa de outrem, uma subordinada. Enquanto patrono só contém sentidos honrosos, matrona adquiriu o sentido também de “mulher madura e corpulenta”.

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O MACHISMO NA LINGUAGEM

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Francisco Jardes Nobre de Araújo

 

Num mundo dominado por homens, a mulher é tratada como um ser diferenciado, que merece uma designação especial. Enquanto a expressão “o homem” pode equivaler a “o ser humano”, como na frase “O homem é mortal”, a expressão “a mulher” só se refere aos seres humanos do gênero feminino.  Ou seja, na mentalidade androcêntrica, o conceito de “homem” se confunde com o de “ser humano”, enquanto o de “mulher” não, e a primeira imagem de ser humano ou de qualquer outro animal que vem à cabeça é a de um espécime macho.

Desde as línguas mais antigas da grande família linguística indo-europeia, a mulher sempre recebeu uma denominação à parte, o que não aconteceria se ela fosse vista em pé de igualdade com os homens.

O substantivo latino homo designava tanto o ser humano em geral, quanto o ser humano do sexo masculino, que também podia ser designado por vir (daí viril), enquanto o ser humano do sexo feminino era femina.  Homo, em sua forma acusativa hominem, passou às línguas românicas homme (francês), home (galego, catalão), hombre (espanhol), uomo (italiano), om (romeno) etc. conservando a duplicidade semântica. Se a designação do ser humano do sexo masculino se faz por um termo pan-românico nas diferentes línguas românicas (embora a palavra romena om seja rara hoje com esse sentido), a do ser humano do sexo feminino se dá por substantivos de diversos étimos latinos: é femme em francês, donna em italiano, mujer em espanhol, mulher em português, femeie em romeno, dona em catalão etc.  O mesmo se dá nas línguas germânicas. O termo germânico para “homem” (mann) existe em todas as línguas da família (é Mann em alemão e em norueguês, mand em dinamarquês, man em inglês, sueco e holandês), mas essas línguas têm termos de origens diferentes para “mulher”: woman em inglês, Frau em alemão, kvinna em sueco etc.

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Olá! Muito ótimo o seu post. Super interesanate. Sou estudante de letras (8°), amante da linguística e AD. Eu sempre disse aos m... Leia Mais
Quarta, 13 Maio 2020 14:57
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