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Gêneros textuais e ensino

Gêneros textuais e ensino

É possível praticar o trabalho com gêneros textuais em sala de aula?

 Por Luís Antônio Marcuschi

Tendo em vista que todos os textos se manifestam sempre num ou noutro Gênero textual, um maior conhecimento do funcionamento dos gêneros textuais é importante tanto para a produção como para a compreensão. Em certo sentido, é esta ideia básica que se acha no centro dos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), quando sugerem que o trabalho com o texto deve ser feito na base dos gêneros, sejam eles orais ou escritos. [E esta é também a proposta central dos ensaios da coletânea reeditada pela Parábola Editorial (2010), Gêneros textuais & ensino, que pretende] mostrar como analisar e tratar alguns dos gêneros mais praticados nos diversos meios de comunicação.

 

As observações teóricas expostas não só visam esclarecer conceitos como também apontar a diversidade de possibilidades de observação dos gêneros textuais. Por certo, não estamos aqui em condições de nos dedicar a todos os problemas envolvidos, mas é possível indicar alguns. Em especial, seria bom ter em mente a questão da relação oralidade e escrita no contexto dos gêneros textuais, pois, como sabemos, os gêneros distribuem-se pelas duas modalidades num contínuo, desde os mais informais aos mais formais e em todos os contextos e situações da vida cotidiana. Mas há alguns gêneros que só são recebidos na forma oral, apesar de terem sido produzidos originalmente na forma escrita, como o caso das notícias de televisão ou rádio. Ouvimos aquelas notícias, mas elas foram escritas e são lidas (oralizadas) pelo apresentador ou locutor.

 

Assim, é bom ter cautela com a ideia de gêneros orais e escritos, pois essa distinção é complexa e deve ser feita com clareza. Veja-se o caso acima citado das jaculatórias, novenas e ladainhas. Embora todas tenham sido escritas, seu uso nas atividades religiosas é sempre oral. Ninguém reza por escrito e sim oralmente. Por isso dizemos que oramos e não que escrevemos a Deus. 

 

Tudo o que estamos apontando neste momento deve-se ao fato de os eventos a que chamamos propriamente gêneros textuais serem artefatos linguísticos concretos. Esta circunstância ou característica dos gêneros torna-os, como já vimos, fenômenos bastante heterogêneos e, por vezes, híbridos em relação à forma e aos usos. Daí dizer-se que os gêneros são modelos comunicativos. Servem, muitas vezes, para criar uma expectativa no interlocutor e prepará-lo para determinada reação. Operam prospectivamente, abrindo o caminho da compreensão, como muito bem frisou Bakhtin (1997).

 

Muitas vezes, em situações orais, os interlocutores discutem a respeito do gênero de texto que estão produzindo ou que devem produzir. Trata-se de uma negociação tipológica. Segundo observou o linguista alemão Hugo Steger (1974), as designações sugeridas pelos falantes não são suficientemente unitárias ou claras, nem fundadas em algum critério geral para serem consistentes. Em relação a isso, lembra a linguista alemã Elizabeth Gülich (1986) que os interlocutores seguem em geral três critérios para designarem seus textos:

 

1. canal /meio de comunicação: (telefonema, carta, telegrama);
2. critérios formais: (conto, discussão, debate, contrato, ata, poema);
3. natureza do conteúdo: (piada, prefácio de livro, receita culinária, bula
de remédio).

 

Contudo, isso não chega a oferecer critérios para formar uma classificação nem constituir todos os nomes. Para Douglas Biber (1988), por exemplo, os gêneros são geralmente determinados com base nos objetivos dos falantes e na natureza do tópico tratado, sendo assim uma questão de uso e não de forma. Em suma, pode-se dizer que os gêneros textuais fundam-se em critérios externos (sociocomunicativos e discursivos), enquanto os tipos textuais fundam- se em critérios internos (linguísticos e formais).

 

Elizabeth Gülich (1986) observa que as situações e os contextos em que os falantes ou escritores designam os gêneros textuais são em geral aqueles em que parece relevante designá-los para chamar a atenção sobre determinadas regras vigentes no caso. É assim que ouvimos pessoas dizendo: “Nessa reunião não cabe uma piada, mas deixem que eu conte uma para descontrair um pouco”. Ou então ouvimos alguém dizer: “Fulano não desconfia e discursa até na hora de tomar uma cerveja”. Por outro lado, notamos que há casos institucionalmente marcados que exigem, no início, a designação do gênero de texto e a informação sobre suas regras de desenvolvimento. Este é o caso de uma tomada de depoimento na justiça, em que o juiz lê as regras e expõe direitos e deveres de cada indivíduo.

 

Assim, contar piadas fora de lugar é um caso de inadequação ou violação de normas sociais relativas aos gêneros textuais. Isso quer dizer que não há só a questão da produção adequada do gênero, mas também um uso adequado. Esta não é uma questão de etiqueta social apenas, mas é um caso de adequação tipológica, que diz respeito à relação que deveria haver, na produção de cada gênero textual, entre os seguintes aspectos:

 

  • natureza da informação ou do conteúdo veiculado;
  • nível de linguagem (formal, informal, dialetal, culta etc.);
  • tipo de situação em que o gênero se situa (pública, privada, corriqueira,
    solene etc.);
  • relação entre os participantes (conhecidos, desconhecidos, nível social,
    formação etc.);
  • natureza dos objetivos das atividades desenvolvidas.

 

É provável que esta relação obedeça a parâmetros de relativa rigidez em virtude das rotinas sociais presentes em cada contexto cultural e social, de maneira que sua inobservância pode acarretar problemas. Assim, numa reunião de negócios, por exemplo, um empresário que se pusesse a cantar o hino nacional seria considerado um tanto esquisito e talvez pouco confiável para uma parceria de negócios. Ou alguém que, durante um culto e no meio de uma oração, começasse a esbravejar contra o sacerdote ou o pastor não ia ser bem-visto. Nesse sentido, os indicadores aqui levantados serviriam para identificar as condições de adequação genérica na produção dos gêneros, especialmente os orais.

 

Considerando que os gêneros independem de decisões individuais e não são facilmente manipuláveis, eles operam como geradores de expectativas de
compreensão mútua. Gêneros textuais não são fruto de invenções individuais, mas formas socialmente maturadas em práticas comunicativas. Esta era também a posição central de Bakhtin [1997] que, como vimos, tratava os gêneros como atividades enunciativas “relativamente estáveis”.

 

No ensino de uma maneira geral, e em sala de aula de modo particular, pode-se tratar dos gêneros na perspectiva aqui analisada e levar os alunos a produzirem ou analisarem eventos linguísticos os mais diversos, tanto escritos como orais, e identificarem as características de gênero em cada um. É um exercício que, além de instrutivo, também permite praticar a produção textual. Veja-se como seria produtivo pôr na mão do aluno um jornal diário ou uma revista semanal com a seguinte tarefa: “Identifique os gêneros textuais aqui presentes e diga quais são suas características centrais em termos de conteúdo, composição, estilo, nível linguístico e propósitos”. É evidente que essa tarefa pode ser reformulada de muitas maneiras, de acordo com os interesses de cada situação de ensino. Mas é de se esperar que por mais modesta que seja a análise, ela será sempre muito promissora.

 

Pode-se dizer que o trabalho com gêneros textuais é uma extraordinária oportunidade de lidar com a língua em seus mais diversos usos autênticos no dia a dia. Pois nada do que fizermos linguisticamente estará fora de ser feito em algum gênero.

 

Este texto está publicado no livro: Gêneros textuais & ensino, Dionísio, Machado e Bezerra [2010], pp 34-37.

 

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